10/01/2026
A verdade é uma só, não, vocês não são orixás em terra. E exatamente por isso precisam parar de agir como se fossem inquestionáveis quando convém e humanos apenas quando lhes falta responsabilidade ou quando são negligentes.
O discurso é sempre o mesmo:
“Pai e Mãe de Santo também são gente, sentem cansaço, dor, solidão.”
Sim, são gente. E gente erra, falha, negligencia e precisa arcar com as consequências dos próprios erros — coisa que muitos se recusam a fazer.
Curioso como a humanidade de vocês só aparece depois do estrago feito.
Antes disso, quando negligenciam, quando se omitem, quando adoecem filhos com silêncio, autoritarismo ou descaso, o argumento é outro:
— “Não somos obrigados.”
— “Não somos perfeitos.”
— “Não somos orixás.”
Mas basta o filho reagir, se afastar, romper, sobreviver…
E pronto: vocês vestem a pele do sagrado, do intocável, do traído, do injustiçado.
Passam a falar como se fossem o próprio orixá ferido no orgulho, cobrando lealdade, submissão e gratidão eterna.
Lealdade não nasce de cargo religioso.
Lealdade não se exige.
Lealdade é consequência de cuidado, presença, ética e responsabilidade.
E quem foi negligente não tem o direito moral de cobrar nada, muito menos fidelidade.
Usar a morte de alguém para distribuir lição de moral é, no mínimo, perverso.
Transformar o luto em ferramenta para silenciar críticas e encobrir falhas estruturais é covardia espiritual.
Porque quando um filho morre por dentro dentro do terreiro — de abandono, abuso emocional ou invalidação — ninguém escreve texto, ninguém pede reflexão, ninguém pergunta:
quem matou esse filho em vida?
Vocês dizem que engolem o choro para levantar filhos.
Mas muitos filhos engolem traumas para não “desrespeitar o sagrado”.
Vocês falam de solidão quando o terreiro fecha.
Mas ignoram o desamparo de quem foi descartado enquanto o terreiro estava aberto.
E não, citar que “até Mãe Yansã erra” não absolve ninguém.
Orixás erram dentro do mito, não por negligência, vaidade ou abuso de poder.
Comparar falhas humanas mal elaboradas com arquétipos sagrados não é humildade — é distorção conveniente.
Toda ação gera uma reação.
E a falta de ação também é uma ação.
Negligência é escolha.
Omissão é escolha.
Autoritarismo disfarçado de axé é escolha.
Eu também precisei finalizar alguém em mim.
Não porque quis. Mas porque foi necessário para sobreviver. E aprendi que fim também é cura quando o ambiente adoece.
Então não, não somos obrigados a permanecer onde não há cuidado. Não somos obrigados a amar quem nos feriu só porque ocupa um cargo espiritual. E não somos ingratos por escolher a própria paz.
O sagrado não se sustenta com chantagem emocional. Não se constrói com medo, silêncio e culpa. E definitivamente não floresce onde líderes se recusam a assumir seus próprios erros.
Humanidade não é álibi.
É responsabilidade.
E enquanto isso não for entendido, muitos continuarão confundindo axé com poder —
e perdendo filhos não para a morte,
mas para o despertar.
Obviamente pode-se errar, oque não pode é não assumir seus erros e se colocar no lugar de vítima quando a colheita chega.
Texto escrito por Mãe Vanessa D'Yemanjá
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