11/04/2022
Mensagem de Leonardo Cunha, dirigente da Tenda Espírita Nossa Senhora da Piedade, em homenagem ao aniversário de nascimento de Zélio de Moraes, seu bisavô, e Marcelo Cunha, seu irmão.
Salve 10 de Abril de 2022!!
Salve Zélio Fernandino de Moraes, meu querido e estimado bisavô!!
Salve Marcelo Cunha, meu amado e para sempre querido irmão!!
Neste dia do mês de abril, vocês estariam comemorando seus aniversários: 130 anos para você, meu biso, 60 anos para você, meu irmão!
Na data em que suas almas se encontraram nesta existência terrena, me senti obrigado a parar e me distanciar das tarefas ordinárias para dedicar um pouco do meu tempo às suas memórias e pensar no impacto das existências de cada um de vocês em minha vida e nas de todos aqueles que tiveram o prazer e a honra de conhecê-los. Existências tão diversas, mas ao mesmo tempo, tão similares...
O primeiro, afável como o mais tranquilo dos homens, podia
facilmente ser escolhido o símbolo da paz e da temperança; o segundo, impaciente e impulsivo e que jamais “mandava recado”, falava e fazia o que entendia como certo. Não raro, sem muito pensar.
Em comum, duas características fundamentais para entender suas existências e o impacto que causaram na vida de todos que os conheceram: o bom humor permanente, mesmo em horas difíceis para a maioria de nós e - traço absolutamente marcante em ambos, aquele ao qual reputo como a mais importante de suas vidas - uma incrível e imensurável vontade de cuidar dos outros!
Cada um ao seu jeito fez de tal vontade sua razão de viver.
Zélio, como um médium inigualável, dotado das mais conhecidas faculdades mediúnicas, que por 67 anos se dedicou ao bem estar do próximo, servindo como “cavalo” para que espíritos elevadíssimos pudessem cumprir na Terra aquilo que lhes fora determinado pelo Astral Superior: o Caboclo Tururi, de enorme grandeza e sabedoria; Orixá Malé – o “Capitão de Demandas”, malaio e muçulmano, responsável pelos embates espirituais da “Piedade”, por embates de seus filhos e da própria Umbanda nascente; o impressionante e inesquecível Pai Antônio, preto de enorme domínio magístico e poder curador e aquele, que em sua sincera humildade, gostava de se apresentar como “o menor espírito que já baixou nesta Terra” a despeito de sua grandeza espiritual e da imensa luz que carregava: o Caboclo das Sete Encruzilhadas - responsável maior por trazer até nós esta Umbanda que a tanto amamos.
Marcelo através da medicina, profissão que ele resolveu abraçar ainda criança. Contou dias, horas e minutos para chegar o momento do famigerado vestibular. Não era dos estudantes mais dedicados. Fato que poderia ser uma barreira, mas que lhe serviu de estímulo para estudar. Não sossegou enquanto não conseguiu entrar. Foram 11 tentativas, 3 do antigo Cesgranrio e 8 vestibulares isolados. No último que fez, já meio desanimado, achando que novamente não conseguiria dar vazão àquilo que em seu íntimo tinha certeza ser seu destino, ouviu de Tiana, preta que com nossa avó trabalhava, um vaticínio: “dessa vez você vai entrar”.
No momento do resultado, não encontrou seu nome, que não constava da lista de aprovados. Nem na lista da primeira reclassificação, muito menos da segunda...
A preta foi cobrada, com um misto de impaciência e descrença. E ela, através de nossa avó, lhe disse: “Tiana está dizendo que se você não passar, ela nunca mais desce à Terra”. E ele, já meio descrente, resolveu se matricular em outro curso para o qual obtivera aprovação. E assim o fez, mais do que pesaroso.
No dia seguinte, quando em teoria já não cabiam reclassificações, recebeu uma ligação da Faculdade de Medicina, dizendo que houvera uma desistência e que a última vaga era dele. Tiana, como sempre, estava certa! E lá foi ele, cumprir a seu modo, uma missão tão linda quanto a de nosso bisavô. Também se vestiu de branco e estava sempre com suas guias, especialmente a de Tiana e com a de Pai Antônio. Não podia fumar charutos, mas certamente cantou pontos e pediu ajuda aos guias. Inúmeras vezes!!
Daquele episódio com Tiana, nasceria uma parceria e uma confiança que jamais se encerrou. Fez uso dela, como de sua fé em Pai Antônio, em inúmeros plantões. Salvou a 1ª pessoa da morte certa, quando ainda não estava formado: um rapaz que se afogava na Praia de Icaraí. A última, um paciente de Covid, pouco tempo antes dele mesmo se contaminar. Infelizmente, para ele, a doença chegou antes da vacina, que certamente não hesitaria em tomar.
Como não hesitou em se lançar ao trabalho. Mesmo estando sujeito a inúmeras comorbidades quando a pandemia começou e poderiam servir como justificativa para que se afastasse da chamada linha de frente. Destemido, trabalhando como intensivista, falou que não pararia quando mais precisavam dele.
Não teve a chance de se vacinar, que muitos tiveram e ainda têm e mesmo assim insistem em não aproveitar perdidos em visões políticas tortas sem conseguir entender que por trás da vacina, além da ciência, também existe a vontade de Deus.
Em nosso último encontro pude passar para ele a mensagem que eu recebera dos guias: que nenhuma doença acontece numa escala mundial, sem que haja a permissão do Criador. E como em outros momentos tristes da história da humanidade e da vida das pessoas, a dor, nossa ou de pessoas próximas, deve servir não só para nos conectarmos com Deus, mas para lembrar para vivermos com base na Divina Lei do Amor e do Perdão, pregadas pelo Cristo e por outros espíritos iluminados que passaram pela Terra. E que aqueles que insistirem em ter suas existências baseadas no ódio, no ego e em valores materiais, ao desencarnarem e encararem a Face de Deus “não mais poderiam ser aproveitados”, pois é chegada a hora de se separar o joio do trigo. A ceifadora leva a todos, mas a separação se dará não pela morte, mas no espaço, com base na trajetória pessoal de cada um. Para ele, tenho a certeza, que a mensagem “entrou”, pois sei que trabalhou com mais afinco e com total destemor, antes as possíveis provas que teve de enfrentar.
Hoje me atrevo dizer que ele morreu feliz. Pois se contaminou e pereceu fazendo o que mais gostava – cuidando de pessoas e, de certa forma, dando continuidade à missão de nosso bisavô. Em mais de 30 anos de Medicina, cuidou e salvou milhares de vidas.
Como nosso bisavô também o fizera em seus quase 70 anos como médium. Um usou a ciência, o outro, sua mediunidade para fazerem o bem. Trajetórias distintas visando um mesmo fim: cuidar de pessoas, tornando suas vidas menos sofridas, menos dolorosas. Um tratou com passes, ervas, banhos, chás e fumaças. O outro, com cirurgias, remédios e injeções. Ambos obtiveram sucesso em suas missões.
Para Marcelo se aproximava a hora em que ele fundiria a medicina que ele tanto amava, com a Umbanda, de forma mais integral - assumindo trabalhos de tratamento e cura espiritual, que ele vinha sendo instado a fazer. Quiseram os espíritos superiores e a sua vontade, que tal trabalho não fosse feito da Terra.
Temos a certeza e a informação de que ele deverá cumprir tal missão a partir do espaço, colocando a sua experiência terrena a serviço dos guias e de outros espíritos que irão atuar em nossa casa.
Pelo que sabemos, nosso bisavô e muitos outros guias estavam com ele no momento de seu desencarne, tornando este momento um pouco menos difícil para todos nós. Pouco depois recebemos a informação de que ele, Zélio, já voltara zelar por sua missão maior: cuidar de nossa casa e pela própria Umbanda que ele ajudou a criar.
Na última vez em que eu pude ouvi-lo, através da mediunidade de minha mãe, me falou para não me preocupar com os seus detratores, não só porque já se acostumara com isso em vida, mas principalmente porque isto era muito menos importante do que outras tarefas mais relevantes que tenho como dirigente da Piedade e como seu sucessor: cuidar de nossa casa, de seus filhos, ajudando sempre que possível a divulgar conhecimentos sobre a nossa Umbanda tão amada e tão pouco entendida.
Eu humildemente, mesmo sem querer contraria-lo, não me sinto totalmente a vontade para permitir que pessoas, sejam do mundo acadêmico, sejam umbandistas de quaisquer correntes, achincalhem seu nome e queiram jogar lama em tudo que ele fez pela nossa religião. Usando conceitos e uma lógica contemporânea para tentar entender e julgar o que se passou há mais de 113 anos atrás em contexto absolutamente diverso e tratando-o como se ele fosse um mentiroso. Pessoas que apesar de tentarem ostentar títulos vistosos, nem sempre tem bagagem, conhecimento e nem comprometimento com a Umbanda de humildade, amor e caridade, que o Caboclo Sete Encruzilhadas nos legou.
E que para isso se baseiam em uma tese que foi adotada, quase que sem questionamentos, por inúmeros pesquisadores, que acreditaram nos escritos de uma autora americana, sem atentarem para a falta de elementos que corroborem suas assertivas. Pesquisadores que nunca se preocuparam em entrevistar as herdeiras ou herdeiros carnais e espirituais de Zélio ou buscar outras fontes que pudessem confirmar tais escritos.
Não temos qualquer dúvida de que a Umbanda, mesmo sem nome inicialmente, foi fundada ou anunciada em Niterói, antiga capital do Estado do Rio de Janeiro, através da mediunidade do jovem Zélio em 15 de novembro de 1908 e iniciada enquanto prática religiosa, no dia 16, em Neves, São Gonçalo, município vizinho, no mesmo Estado do Rio.
Ação ainda mais relevante se pensarmos que isto se fez através da mediunidade de alguém que não passava de um adolescente branco de 16 anos, oriundo de uma família rica e católica. Que não frequentava nem macumbas, nem candomblés e nem mesmo centros espiritas, que desconhecia práticas e ritos realizados pelas entidades que através dele se manifestavam e que inicialmente nem sonhava onde aquilo tudo iria dar.
Um jovem que, desistindo de seus sonhos, estudos e de uma carreira de projeção, dedicou mais que 67 anos de sua vida ao bem-estar do próximo e à fundamentação da Umbanda enquanto religião. Se entregando, como poucos fariam, a tal missão. Que mesmo lutando contra preconceitos, inclusive em sua própria família, sofrendo perseguições de autoridades policiais e eclesiásticas, sofrendo execração pública por parte de jornais, seguiu abrindo portas, enfrentando detratores, fundando ou ajudando a fundar dezenas de centros, curando doentes e ajudando pessoas, praticando somente o bem. Tudo, sem esperar nada em troca, nem mesmo a gratidão dos milhares de pessoas que ele ajudou ao longo de toda a sua vida.
Se alguns, em seus preconceitos pós – modernos, não conseguem acreditar ou entender a grandeza de tal tarefa, nem valorizar tais fatos como coisas que já são mágicas e dignas de aplausos, só posso lamentar. Mesmo que Zélio, fosse “só” um médium “comum”, com 67 anos dedicados a Umbanda. O que por si só, já deveria fazer dele merecedor do respeito de qualquer pessoa, ainda mais de alguém que se diz umbandista.
E se tais detratores preferem abraçar a tese, de que ele quis embranquecer uma Umbanda, que até hoje, ninguém conseguiu comprovar que já existia enquanto rito, antes dele e daquele 15 de novembro, seja no Brasil ou na África, tudo bem...
Nós, familiares, mas também testemunhas de sua honestidade, de sua humildade e de suas qualidades humanas e mediúnicas incomparáveis, preferimos acreditar que ele foi médium das entidades que “empreteceram” e “acobrearam” o espiritismo de Kardec. Dando destaque, relevância e conquistando o respeito da sociedade, para os espíritos de pretos e de índios, antes dele tão desprezados. Conquistando também o crédito para seus ritos e para suas práticas religiosas e magísticas. Inclusive como estratégia de valorização não só destes espíritos, mas também dos povos aos quais estes se vinculavam. Espíritos que eram e ainda são vistos até os dias de hoje, como atrasados e ignorantes. Sem falar naqueles que os veem como figuras demoníacas. Herança da escravidão a qual estes povos foram submetidos, mas também do racismo e do preconceito a ela atrelado, coisas com as quais, lamentavelmente, ainda somos obrigados a conviver.
E independentemente de opiniões mal construídas, a verdade é que Zélio, orientado por suas entidades e apoiado por inúmeros seguidores, encontrou os meios para que todos que se interessam pela Umbanda, possam praticá-la a com a liberdade que hoje temos. Pelo menos sem a perseguição do Estado, de autoridades policiais, religiosas, de entidades médicas e da mídia em geral.
Diferentemente do tempo em que Zélio iniciou sua jornada, numa missão que fora anunciada pela preta Cândida, frente a quem foi levado antes mesmo de participar da famosa sessão da Federação Espírita de Niterói. Missão que ele abraçou com sinceridade e devoção. Ao fazê-lo abriu espaço p tudo que se faz hoje: umbanda preta, branca, vermelha, amarela, umbanda de todas as cores - plural, inclusiva, acolhedora, universal.
Se aqueles não conseguem entender a importância disso, só posso pedir a Zambi, Deus, Tupã ou Allah que deles tenha piedade, em razão de sua imensa ignorância. Mas q ao mesmo tempo, pedir que continuem a inspirar todos àqueles que entendem a Umbanda trazida até nós pelo Caboclo das Sete Encruzilhadas, veio p construir pontes e não muros, q veio p unir e não separar, q veio p nos curar e não para nos tornar mais doentes. Afinal, separar qualquer um consegue, enquanto que promover a união de muitos é tarefa para poucos.
Um dia, eles, se conseguirem se despir de seus preconceitos, talvez consigam compreender a Umbanda em toda sua grandeza. Que Oxalá permita q eles cresçam e se abram para conhecer a Umbanda que praticamos. Estaremos esperando de braços abertos. Prontos para recebê-los em nossa casa, se assim o quiserem. Tenho certeza que meu bisavô, ladeado por outros de nossa família, incluindo meu querido irmão, que continuam a trabalhar junto a ele em prol da Umbanda, ficará feliz. A despeito de ele ter, pela condição que atingiu, coisas muito mais importantes para fazer.
Coisas que eu, em minha pequenez, mal consigo alcançar.
Termino saudando a ambos, por esta data e por tudo que foram e continuam sendo para mim e para todos que os conheceram!!
Saravá, mano velho!!
Saravá, meu bisavô!!
Feliz aniversário para vocês!!
Que Deus os abençoe e continue a iluminar os seus caminhos!!
Saravá a todos aqueles que lutam para fazer a Umbanda uma religião fraterna e acolhedora!!