25/05/2026
Existe uma ideia profundamente infantilizada de espiritualidade que leva muitas pessoas a acreditarem que estar sob a proteção dos ancestrais, dos Orixás ou de seus guias espirituais significa ser poupado da dureza da existência. Como se o caminho espiritual fosse um mecanismo de blindagem contra perdas, doenças, conflitos, frustrações e dores humanas. Mas viver nunca foi sobre escapar da experiência da vida. E nenhuma tradição ancestral séria prometeu isso.
A proteção espiritual não impede a queda. Ela não anula os ciclos inevitáveis da existência, não suspende o sofrimento humano e tampouco transforma alguém em intocável diante do mundo. Há momentos em que a vida desorganiza estruturas, rompe vínculos, exige luto, disciplina, silêncio e resistência. Há batalhas que precisarão ser enfrentadas mesmo por aqueles que possuem profundo amparo espiritual. Porque amadurecer também exige atravessamento.
O que os ancestrais oferecem não é uma existência sem dor, mas a força necessária para suportá-la sem destruição. Não é a promessa de uma caminhada sem feridas, mas a capacidade de cicatrizá-las. É a sustentação invisível que impede que alguém permaneça caído após o impacto da vida. É a lucidez que surge em meio ao caos, a direção que reaparece depois da perda, a força que retorna mesmo quando tudo parecia exaurido.
Há uma diferença imensa entre ser protegido e ser poupado. Quem é poupado não cresce. Quem é protegido desenvolve firmeza para enfrentar aquilo que a existência inevitavelmente apresenta. E viver é exatamente isso: há dor, há perda, há injustiça, há conflito. Mas também há cura, reconstrução, ganho, paz e renascimento.
As tradições ancestrais jamais foram construídas para criar indivíduos frágeis, incapazes de suportar a realidade. Pelo contrário, elas existem para fortalecer o espírito humano diante dela.