20/01/2022
Você conhece o fundamentalismo espírita?
Texto do amigo Marcio Sales Saraiva
A única coisa que permanece é a impermanência de todas as coisas, inclusive, nós.
Quando falamos de fundamentalismo religioso e interpretações ortodoxas do sagrado, logo pensamos em cristianismo e islamismo. Esquecemos que no Brasil existe também o fundamentalismo espírita. Como ele se manifesta?
1 – Desprezo pelo papel de Allan Kardec e exaltação do “pentateuco” como os cinco livros sagrados ditados pelos Espíritos Superiores. Para o fundamentalismo espírita, não existe kardecismo, posto que Kardec foi mero receptáculo passivo das mensagens e diretrizes que desceram das esferas celestiais para o mundo.
2 – Idolatria de médiuns. O fundamentalista espírita vê o médium não como um ser humano sujeito a inúmeras falhas, incluindo o próprio processo de comunicação com o “além”. Para estes, ao contrário do cauteloso Kardec, os médiuns são figuras divinas, “missionários do Alto”, pessoas sem desejos se***is e absolutamente conectadas com os Espíritos Superiores. Qualquer crítica aos médiuns é vista como “ataque das trevas”, “inveja” ou “ignorância”.
3 – Idolatria dos Espíritos, especialmente, os que tem nomes ocidentais e apresentam-se com vestimentas brancas. Se uma mensagem veio de um “Espírito de Luz”, ela está automaticamente correta e deve ser seguida fielmente. Qualquer questionamento crítico ou exame racional, tal como pedia o próprio Allan Kardec, é visto como “ameaça”, “desconfiança incrédula” e até mesmo “sinal de obsessão”.
4 – Fixação no assistencialismo. Para o fundamentalista espírita, o importante é ajudar os pobres e necessitados, mas sem se preocupar com as causas geradoras da pobreza no mundo. Os pobres existem por sua própria culpa, seja a incompetência em empreender nesta existência (meritocracia) ou por dívidas cármicas que estão “resgatando” de forma punitiva e cruel. Assim sendo, o mundo não deve ser mudado, as causas sociais e as injustiças são manifestações do carma coletivo e devemos aceitar passivamente tudo isso, ajudando pontualmente onde for possível. No mais, “o silêncio é uma prece” e fim de papo.
5 – Apego às ideias de castigo, culpa e reparação dolorosa. Para o fundamentalismo espírita, o prazer é algo mundano/pecaminoso e se estamos aqui “exilados” nesse planeta é para quitarmos nossas dívidas do passado (outras vidas, em especial), sendo assim, a Terra é uma penitenciária, local de castigo da Lei de Deus. E quem está sofrendo é porque merece sofrer, pois como a Lei de Deus é justíssima, nada acontece por acaso e nada está errado no “planejamento divino”. Em geral, o fundamentalista espírita crê piamente que Jesus é o verdadeiro “governador da Terra”, portanto, não cabe preocupar-se com o presente, nem com o futuro, pois tudo está em suas “mãos” santas e justas. Questionar isso é, no mínimo, “sinal de obsessão”.
6 – Predestinacionista radical, o fundamentalista espírita crê que nada é por acaso ou por causa das interações sociais e humaníssimas. Em outras palavras, se temos hoje um governo neofascista é porque a “espiritualidade” assim permitiu para o nosso “aprendizado” e não porque muitos religiosos, incluindo esses espíritas, elegeram o fascista. [...]. Há divergências políticas entre eles, como há no fundamentalismo cristão e muçulmano. Alguns defendem a “neutralidade política” e posições quietistas diante dos problemas concretos do mundo físico em que vivemos.
7 – O fundamentalismo espírita hipervaloriza a vida depois da morte, a “verdadeira vida”, portanto, pouco se preocupa com as desgraças desse mundo, pois estas são apenas formas de reparação da Lei de Deus e, no momento oportuno, serão quitadas quase no “olho por olho, dente por dente”. A misericórdia, a graça e a compaixão ficam truncadas nessa concepção. Em geral, o fundamentalista espírita é muito caridoso no trato com os “obsessores”, “nossos irmãos desviados”, mas pouco se importa com os rumos do país, as decisões dos Parlamentos, as injustiças salariais, a exploração dos trabalhadores, etc. Tudo isso é besteira, coisas desse mundo de “provas e expiações” que logo logo será superado por algum tipo de intervenção divina que irá banir um terço dos espíritos que não são “gente do bem”.
8 – Louvor ao sofrimento é muito comum no fundamentalismo espírita. Estamos aqui não para aprendermos, crescermos e sermos felizes, mas para “pagarmos nosso carma”, para sofrermos as dores desse mundo de “provas e expiações”, para beber o amargo da vida nesse “corpo de fezes” (a expressão é de Bittencourt Sampaio). Não se preocupam em mudar o mundo, em buscar formas mais justas e igualitárias de convivência social. Tudo é da maneira que Deus, em sua Santa Lei, assim requer ou permite. E papo encerrado com emojis e emoticons.
9 – Supremacismo. É comum ao fundamentalismo espírita a ideia de que o Espiritismo é uma “religião” superior a todas as outras, pois somente ela “explica tudo” que as outras não sabem explicar porque estão em “nível inferior” de entendimento. Em geral, o fundamentalista espírita tem pena de quem ainda não conhece o Espiritismo, pois ainda não alcançou a luz da Verdade que é a continuação do Plano Revelador de Deus que começou com Moisés e depois foi reafirmado por Jesus. Sim, pois para o fundamentalista espírita, a sua fé é a continuação verdadeira do cristianismo primitivo que foi deturpado por católicos, protestantes, etc. Eles, os fundamentalistas espíritas, existem para corrigir os rumos errados do judeu-cristianismo, são os verdadeiros seguidores de Jesus.
10 – O fundamentalismo espírita cresce, infelizmente, mas ainda bem que vem sendo combatido por (1) algumas lideranças lúcidas, (2) pelos espíritas laicos e (3) pelo campo chamado “espíritas progressistas”. Estes setores defendem uma hermenêutica mais humanista, prazerosa, poética e liberal dos textos de Allan Kardec e fazem críticas abertas a médiuns “consagrados”, “mensagens psicografadas” que defendem ideias reacionárias e supostos “espíritos comunicantes” que defendem teses irracionais ou sem base alguma nos dados empíricos acumulados até o momento pela ciência - aliás, foi o próprio Kardec que pediu para rejeitar qualquer coisa estapafúrdia e contrária ao pensamento científico. Por conta deste “bom combate”, lembrando aqui Paulo, estes espíritas progressistas sofrem ataques virulentos dos fundamentalistas que os chamam de “anticristãos”, “comunistas infiltrados” e “obsidiados pelas forças das trevas”.
Analise estes 10 pontos e medite. Creio que você irá identificar, com facilidade, quem são esses espíritas fundamentalistas que, em geral, são pessoas de difícil diálogo e muito fechadas em suas crenças e mitos, ainda que aparentem certa tranquilidade com gestos calculados e falas mansas, sempre em tom baixinho - aquele “meu irmãozinho”, “minha irmãzinha”, sabe? - como se eles já fossem pessoas muitíssimo equilibradas e, portanto, moralmente e espiritualmente superiores a você. Tenha calma e compaixão, tente dialogar fraternalmente e escute-os com atenção e respeito, mesmo sabendo que ele te considera um “encosto liberal-esquerdista”.
Por último, vale dizer que o fundamentalismo espírita, aqui desenhado, é uma deformação religiosa e brasileira do Espiritismo fundado por Allan Kardec e ampliado por Leon Denis, Gabriel Dellane, Gustav Geley e tantos outros livres-pensadores que nem mais são lidos por estes mesmos espíritas fundamentalistas. Mas não fique desanimado. Sabemos que a única coisa que permanece é a impermanência de todas as coisas, inclusive, nós.