27/05/2026
"EU SÓ QUERIA ESTUDAR"
Por dois dias consecutivos notei a presença de uma menina no Centro Onésimo de aspecto quase esquelético com sinais visíveis de uma subnutrição crônica.
Eu a pensar que era como as demais crianças que frequentam o centro só para comer alguma coisa por isso não tive tempo de lhe ouvir. Na outra manhã quando cheguei no Centro Onésimo quase seis horas encontrei ela a ser acusada pela Dona Rosa, a senhora que toma conta delas, do roubo de 14.000,00 Kz que ela supostamente teria guardado debaixo do colchão. Apesar de haver outras crianças, a dona Rosa, colocou todas as suspeitas nela. Foi quando descobri que a menina afinal estava a passar as noites do Centro a convite da Cristina, sua amiga.
Feitas todas as averiguações, ela dizia que era inocente, mas também não tinha como provar sua inocência e os seus acusadores falta-lhes provas. Porque ela não tinha saído fora do Centro. Queriam lhe bater e depois de algumas perguntas soube a própria mãe é que lhe havia deixado ali no Centro enquanto ela estava ausente da casa.
A fim de não ser agredida lhe mandei para regressar na sua casa. Ela saiu fora do quintal sob a nossa proteção e notei que ao andar ela tinha um defeito na sua perna direito. Passado alguns minutos, mesmo sob ameaças de ser agredida, os meninos disseram que ela não foi na sua casa, estava lá fora dizendo que ela só quer estudar. Não acreditei no relato das crianças até eu próprio confirmar, vi ela de pé na rua com olhos direcionados para o Centro.
Saí para tratar outros assuntos, contando que mais tarde ou cedo ela iria para sua casa, não imaginava que ela tivesse a coragem de continuar a insistir na sua inocência quando todos lhe acusavam do roubo. Os rapazes mais crescidos estavam dispostos a lhe dar alguma surra para ela confessar o crime.
A tarde quando voltei encontrei ela no Centro e recebi informações que um dos rapazes atrevidos teria lhe batido. Mas ela própria estava calma enquanto fazia alguns trabalhos que a dona Rosa lhe mandou fazer!
Ela permaneceu no Centro, sem medo e a sua permanência ultrapassou uma semana. Ninguém mais falava do tal dinheiro desaparecido e parece que tudo tinha voltado a normalidade.
Hoje olhei bem para ela, estava mais forte e bonita do que a primeira vez que lhe vi.
Decidi ter uma conversa com ela onde fiquei a saber mais algo sobre a sua vida. Com seus 14 anos de idade, nunca estudou, a Francisca Alberto Lando como ela se chama, nasceu com mais seis irmãos e vive com a mãe. Ninguém entre os seus irmãos foram colocados na escola: dois irmãos seus foram colocados fora da casa pela mãe seguindo a vida da delinquência. O pai nunca mais quis saber deles porque ela e seus irmãos desde muito cedo foram acusados de práticas de feitiçaria por parte da sua avó materna. Assim a sua mãe foi isolada da sua família e os filhos rejeitados tanto pelo pai e sua família. Enquanto isso a mãe sustenta os filhos fazendo alguns serviços como lavar loiças nos óbitos.
A menina Francisca para sobreviver a esses mal tratos no seio da família passava noite com outras crianças no Imbondeiro ao relento, com todos os riscos a sua disposição. Passam o dia pedindo esmolas as pessoas que passam e durante a noite ajuntam-se em grupos para se protegerem dos assédios e abusos quase frequentes. Mas eles preferem isso do que viver em casa com os pais, madrastas ou padrastos onde frequentemente são acusados de bruxaria e muitos insultos.
Quando perguntei para ela qual é o seu maior desejo, a resposta dela foi firme: "QUERO ESTUDAR E ESTAR LONGE DA MINHA MÃE."
Enquanto esteve vivendo na rua a Francisca foi atropelada por uma moto de duas rodas e fracturou a perna na sua tentativa de salvar um dos meninos que estava fugindo dos seus pais. Até hoje ela carrega as sequelas de fractura que foi mal curada visto que os ossos não se juntaram correctamente e tendo ela própria retirado o gesso que tinham colocado devido a ferida. A menina Francisca precisa de uma oportunidade para estudar e aprender alguma profissão com apoio qualquer que possa fazer isso.