23/12/2025
MOTIVOS PARA NÃO COMEMORAR O NATAL
Vamos começar esta narrativa, lembrando que escrevo enquanto um homem, que tem a vida direcionada por uma Cosmo Visão de Mundo Africana pré-colonial.
Ao encerrar o ano, no momento que nos deparamos com Terreiros comemorando o Natal, uma festa Judaico-Cristã e sobretudo comercial, observamos o resultado de um processo de massificação onde a cultura ocidental impõe através de sua arma mais potente, a mídia, um costume a várias outras culturas.
Desta forma, o poder em suas múltiplas instâncias: econômico, militar e ideológico, foram e são utilizados em detrimento aos segmentos ditos "inferiores", isto é, os negros, brancos pobres e Povo Tradicional de Matriz Africana como instrumento a fim de adquirir/agregar bens em prol de uma elite neo colonizadora que enxerga o Brasil como um lugar das grandes oportunidades.
De fato, a história deste Povo é marcada por extensa exploração, perseguição, exclusão e marginalização. Os primeiros portugueses não vieram para o Brasil com finalidade de aqui habitar, mas sim com a intenção de explorar os recursos naturais de sua recém conquistada terra. O escrivão Pero Vaz de Caminha indicou os objetivos fundamentais da colonização portuguesa: "Nela, até agora, não pudemos saber que haja ouro, nem prata, nem coisa alguma de metal ou ferro"; a agricultura- "Águas são muitas; infinitas. E em tal maneira é graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo, por bem das águas que tem"; E esta deve ser a principal semente que Vossa Alteza em ela deve lançar".
A carta de Pero Vaz de Caminha demonstra o interesse dos Portugueses para com o Brasil, no sentido de “fazer América”, isto é, acumular recursos e retornar para a Europa.
Esse fato se repete hoje de uma forma diferente: com a exploração econômica e uma falsa ideia de igualdade e irmandade entre os povos, lançada pelas elites dirigentes, a qual foi contaminada há muito pela política ra***ta e colonial. Por isto, creio que comemorar o Natal nos Terreiros é um processo claro de profanação do Culto Tradicional Africano. Se acreditamos que nosso Orixá é nossa vida, pergunto quando é realmente “nosso Natal”?.
A profanação do Culto Tradicional Africano, pelo poder europeu ocidental, afetou seriamente as Culturas sedimentadas nas Tradições de Matriz Africana. O Cristianismo europeu não reconhecia o Deus dos Africanos como o mesmo Deus de seus ensinamentos. Apesar de na Crença Tradicional Africana constar a existência de um Deu Supremo, Criador(a) de todas as coisas, o Grande Criador, ou a Grande Mãe, eles não viam nenhuma semelhança entre o Deus deles e dos colonizados; ou seja, todos que não entoavam “glorias e louvores a todo o momento” eram selvagens que precisavam ser salvos, mas salvos de que?
O colonizador destruiu muitas convicções tradicionais, valores sociais e rituais que eram considerados em sua maioria nada, pelo cristão europeu, além de valores pagãos e superstições sem papel nenhum para a cultura. Este mesmo paradigma repete-se na conjuntura educacional e política da sociedade contemporânea.
Vivemos em um Estado Laico. Isto quer dizer, simplesmente, que a história não pode se repetir com as desapropriações e a inserção de valores sociais importados nas sociedades. A Cosmo Visão de Mundo Africano nos faz crer na natureza e nas forças da Mãe Natureza. O nosso sagrado não pode ser delimitado, por reservas ou espaços demarcados. Estaríamos criando versões dos campos de concentração. Compete lembrar que a própria Constituição, estatuiu que “é livre exercício do direito de manifestação cultural coletiva”.
Claro que temos que nos adaptar aos novos tempos e, com a perda do território, o plantar de nossas oferendas tornou-se complexo. Temos que pensar num projeto que nos coloque acima de leis inconstitucionais, como limpeza urbana e abate religioso, lei do silencio, lei do meio ambiente, ou alguma nova lei que delimite nossos espaços para oferendas (os quais podem virar grandes lixões e servir de arma contra nosso povo), todo este processo, como se fossemos a causa de todos os males sociais. Hoje estamos despertando para a necessidade de engajamento, criamos Fóruns e grupos para lutar com intuito de que certas atrocidades não se repitam.
O papel de explorador e algoz, no passado exercido pelo cristianismo, passou a ser uma função do sistema sócio educacional e do racismo institucional que tenta visualizar os seres humanos pela cor de sua pele ou pela Fé que possuem, pois a partir do momento que a educação é uma fórmula pronta, num pais de dimensões continentais como o nosso e onde pessoas não conhecem a história do seu povo e da sua região, observamos várias vezes a pergunta que não quer calar: por que meu nome é Souza, Araújo, Marques, Silva... se não possuo em meu arquétipo nenhum traço do europeu Ibérico?
O resgate cultural é um processo lento e penoso, por isso temos que ter muito cuidado com a formulação de leis sem uma fundamentação cultural, baseadas no achismo de governantes, instituições e pessoas, sem um comprometimento nas discussões e no resgate dos valores desta grande parcela da sociedade.
A ameaça iminente está em um cerceamento do mais simples dos direitos: o de ir e vir e o direito de culto; ambos grifados na carta dos direitos humanos e no documento de Durban.
Doem os olhos ao ler que para gente do próprio Povo de Tradicional de Matriz Africana nosso valor seja baixo. Temos muito valor e, quem tenta nos comprar não tem dinheiro para pagar, porque se no passado não sabíamos nosso valor, hoje sabemos e entendemos que não somos mais uma simples moeda de troca ou uma turba desorganizada que serve como massa de manobra. Não temos preço, temos sim vontade política de construir, pois somos cidadãos e cidadãs, moramos em algum lugar, pagamos impostos, consumimos no mercado formal e informal. Enfim, somos uma parcela integrada com as diretrizes desta sociedade e queremos sim sair do anonimato.
Nossos ancestrais, os quais nos deixaram este legado, eram reis e rainhas. Claro que um povo não se salva por meia dúzia de intelectos iluminados e sim pela vontade do próprio povo. Temos que dizer não a todo tipo intolerância, principalmente as mascaradas por atos públicos de falsa preocupação com os destinos dos Cultos de Matriz Afro-brasileira, Federações e Organizações que nunca lutaram realmente, pelo respeito, dignidade e valorização do nosso Povo. Devemos sim fazer uma retomada a antigos valores e nos lembrar que a nossa verdadeira referência, enquanto Povo de Terreiro, esta materialmente longe daqui, está em solo africano.
Estes são alguns dos motivos pelos quais não comemoro o Natal de 25 de dezembro, ele não é uma festa da Minha Tradição. Nada tem haver com a cultura Ancestral que norteia minha existência.
Baba Osoiná – Babalorixá Marcelo D´Ogum – Bàbálawo Ifasegun Aworeni
MOTIVOS PARA NÃO COMEMORAR O NATAL
Vamos começar esta narrativa, lembrando que escrevo enquanto um homem, que tem a vida direcionada por uma Cosmo Visão de Mundo Africana pré-colonial.
Ao encerrar o ano, no momento que nos deparamos com Terreiros comemorando o Natal, uma festa Judaico-Cristã e sobretudo comercial, observamos o resultado de um processo de massificação onde a cultura ocidental impõe através de sua arma mais potente, a mídia, um costume a várias outras culturas.
Desta forma, o poder em suas múltiplas instâncias: econômico, militar e ideológico, foram e são utilizados em detrimento aos segmentos ditos "inferiores", isto é, os negros, brancos pobres e Povo Tradicional de Matriz Africana como instrumento a fim de adquirir/agregar bens em prol de uma elite neo colonizadora que enxerga o Brasil como um lugar das grandes oportunidades.
De fato, a história deste Povo é marcada por extensa exploração, perseguição, exclusão e marginalização. Os primeiros portugueses não vieram para o Brasil com finalidade de aqui habitar, mas sim com a intenção de explorar os recursos naturais de sua recém conquistada terra. O escrivão Pero Vaz de Caminha indicou os objetivos fundamentais da colonização portuguesa: "Nela, até agora, não pudemos saber que haja ouro, nem prata, nem coisa alguma de metal ou ferro"; a agricultura- "Águas são muitas; infinitas. E em tal maneira é graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo, por bem das águas que tem"; E esta deve ser a principal semente que Vossa Alteza em ela deve lançar".
A carta de Pero Vaz de Caminha demonstra o interesse dos Portugueses para com o Brasil, no sentido de “fazer América”, isto é, acumular recursos e retornar para a Europa.
Esse fato se repete hoje de uma forma diferente: com a exploração econômica e uma falsa ideia de igualdade e irmandade entre os povos, lançada pelas elites dirigentes, a qual foi contaminada há muito pela política ra***ta e colonial. Por isto, creio que comemorar o Natal nos Terreiros é um processo claro de profanação do Culto Tradicional Africano. Se acreditamos que nosso Orixá é nossa vida, pergunto quando é realmente “nosso Natal”?.
A profanação do Culto Tradicional Africano, pelo poder europeu ocidental, afetou seriamente as Culturas sedimentadas nas Tradições de Matriz Africana. O Cristianismo europeu não reconhecia o Deus dos Africanos como o mesmo Deus de seus ensinamentos. Apesar de na Crença Tradicional Africana constar a existência de um Deu Supremo, Criador(a) de todas as coisas, o Grande Criador, ou a Grande Mãe, eles não viam nenhuma semelhança entre o Deus deles e dos colonizados; ou seja, todos que não entoavam “glorias e louvores a todo o momento” eram selvagens que precisavam ser salvos, mas salvos de que?
O colonizador destruiu muitas convicções tradicionais, valores sociais e rituais que eram considerados em sua maioria nada, pelo cristão europeu, além de valores pagãos e superstições sem papel nenhum para a cultura. Este mesmo paradigma repete-se na conjuntura educacional e política da sociedade contemporânea.
Vivemos em um Estado Laico. Isto quer dizer, simplesmente, que a história não pode se repetir com as desapropriações e a inserção de valores sociais importados nas sociedades. A Cosmo Visão de Mundo Africano nos faz crer na natureza e nas forças da Mãe Natureza. O nosso sagrado não pode ser delimitado, por reservas ou espaços demarcados. Estaríamos criando versões dos campos de concentração. Compete lembrar que a própria Constituição, estatuiu que “é livre exercício do direito de manifestação cultural coletiva”.
Claro que temos que nos adaptar aos novos tempos e, com a perda do território, o plantar de nossas oferendas tornou-se complexo. Temos que pensar num projeto que nos coloque acima de leis inconstitucionais, como limpeza urbana e abate religioso, lei do silencio, lei do meio ambiente, ou alguma nova lei que delimite nossos espaços para oferendas (os quais podem virar grandes lixões e servir de arma contra nosso povo), todo este processo, como se fossemos a causa de todos os males sociais. Hoje estamos despertando para a necessidade de engajamento, criamos Fóruns e grupos para lutar com intuito de que certas atrocidades não se repitam.
O papel de explorador e algoz, no passado exercido pelo cristianismo, passou a ser uma função do sistema sócio educacional e do racismo institucional que tenta visualizar os seres humanos pela cor de sua pele ou pela Fé que possuem, pois a partir do momento que a educação é uma fórmula pronta, num pais de dimensões continentais como o nosso e onde pessoas não conhecem a história do seu povo e da sua região, observamos várias vezes a pergunta que não quer calar: por que meu nome é Souza, Araújo, Marques, Silva... se não possuo em meu arquétipo nenhum traço do europeu Ibérico?
O resgate cultural é um processo lento e penoso, por isso temos que ter muito cuidado com a formulação de leis sem uma fundamentação cultural, baseadas no achismo de governantes, instituições e pessoas, sem um comprometimento nas discussões e no resgate dos valores desta grande parcela da sociedade.
A ameaça iminente está em um cerceamento do mais simples dos direitos: o de ir e vir e o direito de culto; ambos grifados na carta dos direitos humanos e no documento de Durban.
Doem os olhos ao ler que para gente do próprio Povo de Tradicional de Matriz Africana nosso valor seja baixo. Temos muito valor e, quem tenta nos comprar não tem dinheiro para pagar, porque se no passado não sabíamos nosso valor, hoje sabemos e entendemos que não somos mais uma simples moeda de troca ou uma turba desorganizada que serve como massa de manobra. Não temos preço, temos sim vontade política de construir, pois somos cidadãos e cidadãs, moramos em algum lugar, pagamos impostos, consumimos no mercado formal e informal. Enfim, somos uma parcela integrada com as diretrizes desta sociedade e queremos sim sair do anonimato.
Nossos ancestrais, os quais nos deixaram este legado, eram reis e rainhas. Claro que um povo não se salva por meia dúzia de intelectos iluminados e sim pela vontade do próprio povo. Temos que dizer não a todo tipo intolerância, principalmente as mascaradas por atos públicos de falsa preocupação com os destinos dos Cultos de Matriz Afro-brasileira, Federações e Organizações que nunca lutaram realmente, pelo respeito, dignidade e valorização do nosso Povo. Devemos sim fazer uma retomada a antigos valores e nos lembrar que a nossa verdadeira referência, enquanto Povo de Terreiro, esta materialmente longe daqui, está em solo africano.
Estes são alguns dos motivos pelos quais não comemoro o Natal de 25 de dezembro, ele não é uma festa da Minha Tradição. Nada tem haver com a cultura Ancestral que norteia minha existência.
Baba Osoiná – Babalorixá Marcelo D´Ogum – Bàbálawo Ifasegun Aworeni
MOTIVOS PARA NÃO COMEMORAR O NATAL
Vamos começar esta narrativa, lembrando que escrevo enquanto um homem, que tem a vida direcionada por uma Cosmo Visão de Mundo Africana pré-colonial.
Ao encerrar o ano, no momento que nos deparamos com Terreiros comemorando o Natal, uma festa Judaico-Cristã e sobretudo comercial, observamos o resultado de um processo de massificação onde a cultura ocidental impõe através de sua arma mais potente, a mídia, um costume a várias outras culturas.
Desta forma, o poder em suas múltiplas instâncias: econômico, militar e ideológico, foram e são utilizados em detrimento aos segmentos ditos "inferiores", isto é, os negros, brancos pobres e Povo Tradicional de Matriz Africana como instrumento a fim de adquirir/agregar bens em prol de uma elite neo colonizadora que enxerga o Brasil como um lugar das grandes oportunidades.
De fato, a história deste Povo é marcada por extensa exploração, perseguição, exclusão e marginalização. Os primeiros portugueses não vieram para o Brasil com finalidade de aqui habitar, mas sim com a intenção de explorar os recursos naturais de sua recém conquistada terra. O escrivão Pero Vaz de Caminha indicou os objetivos fundamentais da colonização portuguesa: "Nela, até agora, não pudemos saber que haja ouro, nem prata, nem coisa alguma de metal ou ferro"; a agricultura- "Águas são muitas; infinitas. E em tal maneira é graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo, por bem das águas que tem"; E esta deve ser a principal semente que Vossa Alteza em ela deve lançar".
A carta de Pero Vaz de Caminha demonstra o interesse dos Portugueses para com o Brasil, no sentido de “fazer América”, isto é, acumular recursos e retornar para a Europa.
Esse fato se repete hoje de uma forma diferente: com a exploração econômica e uma falsa ideia de igualdade e irmandade entre os povos, lançada pelas elites dirigentes, a qual foi contaminada há muito pela política ra***ta e colonial. Por isto, creio que comemorar o Natal nos Terreiros é um processo claro de profanação do Culto Tradicional Africano. Se acreditamos que nosso Orixá é nossa vida, pergunto quando é realmente “nosso Natal”?.
A profanação do Culto Tradicional Africano, pelo poder europeu ocidental, afetou seriamente as Culturas sedimentadas nas Tradições de Matriz Africana. O Cristianismo europeu não reconhecia o Deus dos Africanos como o mesmo Deus de seus ensinamentos. Apesar de na Crença Tradicional Africana constar a existência de um Deu Supremo, Criador(a) de todas as coisas, o Grande Criador, ou a Grande Mãe, eles não viam nenhuma semelhança entre o Deus deles e dos colonizados; ou seja, todos que não entoavam “glorias e louvores a todo o momento” eram selvagens que precisavam ser salvos, mas salvos de que?
O colonizador destruiu muitas convicções tradicionais, valores sociais e rituais que eram considerados em sua maioria nada, pelo cristão europeu, além de valores pagãos e superstições sem papel nenhum para a cultura. Este mesmo paradigma repete-se na conjuntura educacional e política da sociedade contemporânea.
Vivemos em um Estado Laico. Isto quer dizer, simplesmente, que a história não pode se repetir com as desapropriações e a inserção de valores sociais importados nas sociedades. A Cosmo Visão de Mundo Africano nos faz crer na natureza e nas forças da Mãe Natureza. O nosso sagrado não pode ser delimitado, por reservas ou espaços demarcados. Estaríamos criando versões dos campos de concentração. Compete lembrar que a própria Constituição, estatuiu que “é livre exercício do direito de manifestação cultural coletiva”.
Claro que temos que nos adaptar aos novos tempos e, com a perda do território, o plantar de nossas oferendas tornou-se complexo. Temos que pensar num projeto que nos coloque acima de leis inconstitucionais, como limpeza urbana e abate religioso, lei do silencio, lei do meio ambiente, ou alguma nova lei que delimite nossos espaços para oferendas (os quais podem virar grandes lixões e servir de arma contra nosso povo), todo este processo, como se fossemos a causa de todos os males sociais. Hoje estamos despertando para a necessidade de engajamento, criamos Fóruns e grupos para lutar com intuito de que certas atrocidades não se repitam.
O papel de explorador e algoz, no passado exercido pelo cristianismo, passou a ser uma função do sistema sócio educacional e do racismo institucional que tenta visualizar os seres humanos pela cor de sua pele ou pela Fé que possuem, pois a partir do momento que a educação é uma fórmula pronta, num pais de dimensões continentais como o nosso e onde pessoas não conhecem a história do seu povo e da sua região, observamos várias vezes a pergunta que não quer calar: por que meu nome é Souza, Araújo, Marques, Silva... se não possuo em meu arquétipo nenhum traço do europeu Ibérico?
O resgate cultural é um processo lento e penoso, por isso temos que ter muito cuidado com a formulação de leis sem uma fundamentação cultural, baseadas no achismo de governantes, instituições e pessoas, sem um comprometimento nas discussões e no resgate dos valores desta grande parcela da sociedade.
A ameaça iminente está em um cerceamento do mais simples dos direitos: o de ir e vir e o direito de culto; ambos grifados na carta dos direitos humanos e no documento de Durban.
Doem os olhos ao ler que para gente do próprio Povo de Tradicional de Matriz Africana nosso valor seja baixo. Temos muito valor e, quem tenta nos comprar não tem dinheiro para pagar, porque se no passado não sabíamos nosso valor, hoje sabemos e entendemos que não somos mais uma simples moeda de troca ou uma turba desorganizada que serve como massa de manobra. Não temos preço, temos sim vontade política de construir, pois somos cidadãos e cidadãs, moramos em algum lugar, pagamos impostos, consumimos no mercado formal e informal. Enfim, somos uma parcela integrada com as diretrizes desta sociedade e queremos sim sair do anonimato.
Nossos ancestrais, os quais nos deixaram este legado, eram reis e rainhas. Claro que um povo não se salva por meia dúzia de intelectos iluminados e sim pela vontade do próprio povo. Temos que dizer não a todo tipo intolerância, principalmente as mascaradas por atos públicos de falsa preocupação com os destinos dos Cultos de Matriz Afro-brasileira, Federações e Organizações que nunca lutaram realmente, pelo respeito, dignidade e valorização do nosso Povo. Devemos sim fazer uma retomada a antigos valores e nos lembrar que a nossa verdadeira referência, enquanto Povo de Terreiro, esta materialmente longe daqui, está em solo africano.
Estes são alguns dos motivos pelos quais não comemoro o Natal de 25 de dezembro, ele não é uma festa da Minha Tradição. Nada tem haver com a cultura Ancestral que norteia minha existência.
Baba Osoiná – Babalorixá Marcelo D´Ogum – Bàbálawo Ifasegun Aworeni
MOTIVOS PARA NÃO COMEMORAR O NATAL
Vamos começar esta narrativa, lembrando que escrevo enquanto um homem, que tem a vida direcionada por uma Cosmo Visão de Mundo Africana pré-colonial.
Ao encerrar o ano, no momento que nos deparamos com Terreiros comemorando o Natal, uma festa Judaico-Cristã e sobretudo comercial, observamos o resultado de um processo de massificação onde a cultura ocidental impõe através de sua arma mais potente, a mídia, um costume a várias outras culturas.
Desta forma, o poder em suas múltiplas instâncias: econômico, militar e ideológico, foram e são utilizados em detrimento aos segmentos ditos "inferiores", isto é, os negros, brancos pobres e Povo Tradicional de Matriz Africana como instrumento a fim de adquirir/agregar bens em prol de uma elite neo colonizadora que enxerga o Brasil como um lugar das grandes oportunidades.
De fato, a história deste Povo é marcada por extensa exploração, perseguição, exclusão e marginalização. Os primeiros portugueses não vieram para o Brasil com finalidade de aqui habitar, mas sim com a intenção de explorar os recursos naturais de sua recém conquistada terra. O escrivão Pero Vaz de Caminha indicou os objetivos fundamentais da colonização portuguesa: "Nela, até agora, não pudemos saber que haja ouro, nem prata, nem coisa alguma de metal ou ferro"; a agricultura- "Águas são muitas; infinitas. E em tal maneira é graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo, por bem das águas que tem"; E esta deve ser a principal semente que Vossa Alteza em ela deve lançar".
A carta de Pero Vaz de Caminha demonstra o interesse dos Portugueses para com o Brasil, no sentido de “fazer América”, isto é, acumular recursos e retornar para a Europa.
Esse fato se repete hoje de uma forma diferente: com a exploração econômica e uma falsa ideia de igualdade e irmandade entre os povos, lançada pelas elites dirigentes, a qual foi contaminada há muito pela política ra***ta e colonial. Por isto, creio que comemorar o Natal nos Terreiros é um processo claro de profanação do Culto Tradicional Africano. Se acreditamos que nosso Orixá é nossa vida, pergunto quando é realmente “nosso Natal”?.
A profanação do Culto Tradicional Africano, pelo poder europeu ocidental, afetou seriamente as Culturas sedimentadas nas Tradições de Matriz Africana. O Cristianismo europeu não reconhecia o Deus dos Africanos como o mesmo Deus de seus ensinamentos. Apesar de na Crença Tradicional Africana constar a existência de um Deu Supremo, Criador(a) de todas as coisas, o Grande Criador, ou a Grande Mãe, eles não viam nenhuma semelhança entre o Deus deles e dos colonizados; ou seja, todos que não entoavam “glorias e louvores a todo o momento” eram selvagens que precisavam ser salvos, mas salvos de que?
O colonizador destruiu muitas convicções tradicionais, valores sociais e rituais que eram considerados em sua maioria nada, pelo cristão europeu, além de valores pagãos e superstições sem papel nenhum para a cultura. Este mesmo paradigma repete-se na conjuntura educacional e política da sociedade contemporânea.
Vivemos em um Estado Laico. Isto quer dizer, simplesmente, que a história não pode se repetir com as desapropriações e a inserção de valores sociais importados nas sociedades. A Cosmo Visão de Mundo Africano nos faz crer na natureza e nas forças da Mãe Natureza. O nosso sagrado não pode ser delimitado, por reservas ou espaços demarcados. Estaríamos criando versões dos campos de concentração. Compete lembrar que a própria Constituição, estatuiu que “é livre exercício do direito de manifestação cultural coletiva”.
Claro que temos que nos adaptar aos novos tempos e, com a perda do território, o plantar de nossas oferendas tornou-se complexo. Temos que pensar num projeto que nos coloque acima de leis inconstitucionais, como limpeza urbana e abate religioso, lei do silencio, lei do meio ambiente, ou alguma nova lei que delimite nossos espaços para oferendas (os quais podem virar grandes lixões e servir de arma contra nosso povo), todo este processo, como se fossemos a causa de todos os males sociais. Hoje estamos despertando para a necessidade de engajamento, criamos Fóruns e grupos para lutar com intuito de que certas atrocidades não se repitam.
O papel de explorador e algoz, no passado exercido pelo cristianismo, passou a ser uma função do sistema sócio educacional e do racismo institucional que tenta visualizar os seres humanos pela cor de sua pele ou pela Fé que possuem, pois a partir do momento que a educação é uma fórmula pronta, num pais de dimensões continentais como o nosso e onde pessoas não conhecem a história do seu povo e da sua região, observamos várias vezes a pergunta que não quer calar: por que meu nome é Souza, Araújo, Marques, Silva... se não possuo em meu arquétipo nenhum traço do europeu Ibérico?
O resgate cultural é um processo lento e penoso, por isso temos que ter muito cuidado com a formulação de leis sem uma fundamentação cultural, baseadas no achismo de governantes, instituições e pessoas, sem um comprometimento nas discussões e no resgate dos valores desta grande parcela da sociedade.
A ameaça iminente está em um cerceamento do mais simples dos direitos: o de ir e vir e o direito de culto; ambos grifados na carta dos direitos humanos e no documento de Durban.
Doem os olhos ao ler que para gente do próprio Povo de Tradicional de Matriz Africana nosso valor seja baixo. Temos muito valor e, quem tenta nos comprar não tem dinheiro para pagar, porque se no passado não sabíamos nosso valor, hoje sabemos e entendemos que não somos mais uma simples moeda de troca ou uma turba desorganizada que serve como massa de manobra. Não temos preço, temos sim vontade política de construir, pois somos cidadãos e cidadãs, moramos em algum lugar, pagamos impostos, consumimos no mercado formal e informal. Enfim, somos uma parcela integrada com as diretrizes desta sociedade e queremos sim sair do anonimato.
Nossos ancestrais, os quais nos deixaram este legado, eram reis e rainhas. Claro que um povo não se salva por meia dúzia de intelectos iluminados e sim pela vontade do próprio povo. Temos que dizer não a todo tipo intolerância, principalmente as mascaradas por atos públicos de falsa preocupação com os destinos dos Cultos de Matriz Afro-brasileira, Federações e Organizações que nunca lutaram realmente, pelo respeito, dignidade e valorização do nosso Povo. Devemos sim fazer uma retomada a antigos valores e nos lembrar que a nossa verdadeira referência, enquanto Povo de Terreiro, esta materialmente longe daqui, está em solo africano.
Estes são alguns dos motivos pelos quais não comemoro o Natal de 25 de dezembro, ele não é uma festa da Minha Tradição. Nada tem haver com a cultura Ancestral que norteia minha existência.
Baba Osoiná – Babalorixá Marcelo D´Ogum – Bàbálawo Ifasegun Aworeni
MOTIVOS PARA NÃO COMEMORAR O NATAL
Vamos começar esta narrativa, lembrando que escrevo enquanto um homem, que tem a vida direcionada por uma Cosmo Visão de Mundo Africana pré-colonial.
Ao encerrar o ano, no momento que nos deparamos com Terreiros comemorando o Natal, uma festa Judaico-Cristã e sobretudo comercial, observamos o resultado de um processo de massificação onde a cultura ocidental impõe através de sua arma mais potente, a mídia, um costume a várias outras culturas.
Desta forma, o poder em suas múltiplas instâncias: econômico, militar e ideológico, foram e são utilizados em detrimento aos segmentos ditos "inferiores", isto é, os negros, brancos pobres e Povo Tradicional de Matriz Africana como instrumento a fim de adquirir/agregar bens em prol de uma elite neo colonizadora que enxerga o Brasil como um lugar das grandes oportunidades.
De fato, a história deste Povo é marcada por extensa exploração, perseguição, exclusão e marginalização. Os primeiros portugueses não vieram para o Brasil com finalidade de aqui habitar, mas sim com a intenção de explorar os recursos naturais de sua recém conquistada terra. O escrivão Pero Vaz de Caminha indicou os objetivos fundamentais da colonização portuguesa: "Nela, até agora, não pudemos saber que haja ouro, nem prata, nem coisa alguma de metal ou ferro"; a agricultura- "Águas são muitas; infinitas. E em tal maneira é graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo, por bem das águas que tem"; E esta deve ser a principal semente que Vossa Alteza em ela deve lançar".
A carta de Pero Vaz de Caminha demonstra o interesse dos Portugueses para com o Brasil, no sentido de “fazer América”, isto é, acumular recursos e retornar para a Europa.
Esse fato se repete hoje de uma forma diferente: com a exploração econômica e uma falsa ideia de igualdade e irmandade entre os povos, lançada pelas elites dirigentes, a qual foi contaminada há muito pela política ra***ta e colonial. Por isto, creio que comemorar o Natal nos Terreiros é um processo claro de profanação do Culto Tradicional Africano. Se acreditamos que nosso Orixá é nossa vida, pergunto quando é realmente “nosso Natal”?.
A profanação do Culto Tradicional Africano, pelo poder europeu ocidental, afetou seriamente as Culturas sedimentadas nas Tradições de Matriz Africana. O Cristianismo europeu não reconhecia o Deus dos Africanos como o mesmo Deus de seus ensinamentos. Apesar de na Crença Tradicional Africana constar a existência de um Deu Supremo, Criador(a) de todas as coisas, o Grande Criador, ou a Grande Mãe, eles não viam nenhuma semelhança entre o Deus deles e dos colonizados; ou seja, todos que não entoavam “glorias e louvores a todo o momento” eram selvagens que precisavam ser salvos, mas salvos de que?
O colonizador destruiu muitas convicções tradicionais, valores sociais e rituais que eram considerados em sua maioria nada, pelo cristão europeu, além de valores pagãos e superstições sem papel nenhum para a cultura. Este mesmo paradigma repete-se na conjuntura educacional e política da sociedade contemporânea.
Vivemos em um Estado Laico. Isto quer dizer, simplesmente, que a história não pode se repetir com as desapropriações e a inserção de valores sociais importados nas sociedades. A Cosmo Visão de Mundo Africano nos faz crer na natureza e nas forças da Mãe Natureza. O nosso sagrado não pode ser delimitado, por reservas ou espaços demarcados. Estaríamos criando versões dos campos de concentração. Compete lembrar que a própria Constituição, estatuiu que “é livre exercício do direito de manifestação cultural coletiva”.
Claro que temos que nos adaptar aos novos tempos e, com a perda do território, o plantar de nossas oferendas tornou-se complexo. Temos que pensar num projeto que nos coloque acima de leis inconstitucionais, como limpeza urbana e abate religioso, lei do silencio, lei do meio ambiente, ou alguma nova lei que delimite nossos espaços para oferendas (os quais podem virar grandes lixões e servir de arma contra nosso povo), todo este processo, como se fossemos a causa de todos os males sociais. Hoje estamos despertando para a necessidade de engajamento, criamos Fóruns e grupos para lutar com intuito de que certas atrocidades não se repitam.
O papel de explorador e algoz, no passado exercido pelo cristianismo, passou a ser uma função do sistema sócio educacional e do racismo institucional que tenta visualizar os seres humanos pela cor de sua pele ou pela Fé que possuem, pois a partir do momento que a educação é uma fórmula pronta, num pais de dimensões continentais como o nosso e onde pessoas não conhecem a história do seu povo e da sua região, observamos várias vezes a pergunta que não quer calar: por que meu nome é Souza, Araújo, Marques, Silva... se não possuo em meu arquétipo nenhum traço do europeu Ibérico?
O resgate cultural é um processo lento e penoso, por isso temos que ter muito cuidado com a formulação de leis sem uma fundamentação cultural, baseadas no achismo de governantes, instituições e pessoas, sem um comprometimento nas discussões e no resgate dos valores desta grande parcela da sociedade.
A ameaça iminente está em um cerceamento do mais simples dos direitos: o de ir e vir e o direito de culto; ambos grifados na carta dos direitos humanos e no documento de Durban.
Doem os olhos ao ler que para gente do próprio Povo de Tradicional de Matriz Africana nosso valor seja baixo. Temos muito valor e, quem tenta nos comprar não tem dinheiro para pagar, porque se no passado não sabíamos nosso valor, hoje sabemos e entendemos que não somos mais uma simples moeda de troca ou uma turba desorganizada que serve como massa de manobra. Não temos preço, temos sim vontade política de construir, pois somos cidadãos e cidadãs, moramos em algum lugar, pagamos impostos, consumimos no mercado formal e informal. Enfim, somos uma parcela integrada com as diretrizes desta sociedade e queremos sim sair do anonimato.
Nossos ancestrais, os quais nos deixaram este legado, eram reis e rainhas. Claro que um povo não se salva por meia dúzia de intelectos iluminados e sim pela vontade do próprio povo. Temos que dizer não a todo tipo intolerância, principalmente as mascaradas por atos públicos de falsa preocupação com os destinos dos Cultos de Matriz Afro-brasileira, Federações e Organizações que nunca lutaram realmente, pelo respeito, dignidade e valorização do nosso Povo. Devemos sim fazer uma retomada a antigos valores e nos lembrar que a nossa verdadeira referência, enquanto Povo de Terreiro, esta materialmente longe daqui, está em solo africano.
Estes são alguns dos motivos pelos quais não comemoro o Natal de 25 de dezembro, ele não é uma festa da Minha Tradição. Nada tem haver com a cultura Ancestral que norteia minha existência.
Baba Osoiná – Babalorixá Marcelo D´Ogum – Bàbálawo Ifasegun Aworeni
MOTIVOS PARA NÃO COMEMORAR O NATAL
Vamos começar esta narrativa, lembrando que escrevo enquanto um homem, que tem a vida direcionada por uma Cosmo Visão de Mundo Africana pré-colonial.
Ao encerrar o ano, no momento que nos deparamos com Terreiros comemorando o Natal, uma festa Judaico-Cristã e sobretudo comercial, observamos o resultado de um processo de massificação onde a cultura ocidental impõe através de sua arma mais potente, a mídia, um costume a várias outras culturas.
Desta forma, o poder em suas múltiplas instâncias: econômico, militar e ideológico, foram e são utilizados em detrimento aos segmentos ditos "inferiores", isto é, os negros, brancos pobres e Povo Tradicional de Matriz Africana como instrumento a fim de adquirir/agregar bens em prol de uma elite neo colonizadora que enxerga o Brasil como um lugar das grandes oportunidades.
De fato, a história deste Povo é marcada por extensa exploração, perseguição, exclusão e marginalização. Os primeiros portugueses não vieram para o Brasil com finalidade de aqui habitar, mas sim com a intenção de explorar os recursos naturais de sua recém conquistada terra. O escrivão Pero Vaz de Caminha indicou os objetivos fundamentais da colonização portuguesa: "Nela, até agora, não pudemos saber que haja ouro, nem prata, nem coisa alguma de metal ou ferro"; a agricultura- "Águas são muitas; infinitas. E em tal maneira é graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo, por bem das águas que tem"; E esta deve ser a principal semente que Vossa Alteza em ela deve lançar".
A carta de Pero Vaz de Caminha demonstra o interesse dos Portugueses para com o Brasil, no sentido de “fazer América”, isto é, acumular recursos e retornar para a Europa.
Esse fato se repete hoje de uma forma diferente: com a exploração econômica e uma falsa ideia de igualdade e irmandade entre os povos, lançada pelas elites dirigentes, a qual foi contaminada há muito pela política ra***ta e colonial. Por isto, creio que comemorar o Natal nos Terreiros é um processo claro de profanação do Culto Tradicional Africano. Se acreditamos que nosso Orixá é nossa vida, pergunto quando é realmente “nosso Natal”?.
A profanação do Culto Tradicional Africano, pelo poder europeu ocidental, afetou seriamente as Culturas sedimentadas nas Tradições de Matriz Africana. O Cristianismo europeu não reconhecia o Deus dos Africanos como o mesmo Deus de seus ensinamentos. Apesar de na Crença Tradicional Africana constar a existência de um Deu Supremo, Criador(a) de todas as coisas, o Grande Criador, ou a Grande Mãe, eles não viam nenhuma semelhança entre o Deus deles e dos colonizados; ou seja, todos que não entoavam “glorias e louvores a todo o momento” eram selvagens que precisavam ser salvos, mas salvos de que?
O colonizador destruiu muitas convicções tradicionais, valores sociais e rituais que eram considerados em sua maioria nada, pelo cristão europeu, além de valores pagãos e superstições sem papel nenhum para a cultura. Este mesmo paradigma repete-se na conjuntura educacional e política da sociedade contemporânea.
Vivemos em um Estado Laico. Isto quer dizer, simplesmente, que a história não pode se repetir com as desapropriações e a inserção de valores sociais importados nas sociedades. A Cosmo Visão de Mundo Africano nos faz crer na natureza e nas forças da Mãe Natureza. O nosso sagrado não pode ser delimitado, por reservas ou espaços demarcados. Estaríamos criando versões dos campos de concentração. Compete lembrar que a própria Constituição, estatuiu que “é livre exercício do direito de manifestação cultural coletiva”.
Claro que temos que nos adaptar aos novos tempos e, com a perda do território, o plantar de nossas oferendas tornou-se complexo. Temos que pensar num projeto que nos coloque acima de leis inconstitucionais, como limpeza urbana e abate religioso, lei do silencio, lei do meio ambiente, ou alguma nova lei que delimite nossos espaços para oferendas (os quais podem virar grandes lixões e servir de arma contra nosso povo), todo este processo, como se fossemos a causa de todos os males sociais. Hoje estamos despertando para a necessidade de engajamento, criamos Fóruns e grupos para lutar com intuito de que certas atrocidades não se repitam.
O papel de explorador e algoz, no passado exercido pelo cristianismo, passou a ser uma função do sistema sócio educacional e do racismo institucional que tenta visualizar os seres humanos pela cor de sua pele ou pela Fé que possuem, pois a partir do momento que a educação é uma fórmula pronta, num pais de dimensões continentais como o nosso e onde pessoas não conhecem a história do seu povo e da sua região, observamos várias vezes a pergunta que não quer calar: por que meu nome é Souza, Araújo, Marques, Silva... se não possuo em meu arquétipo nenhum traço do europeu Ibérico?
O resgate cultural é um processo lento e penoso, por isso temos que ter muito cuidado com a formulação de leis sem uma fundamentação cultural, baseadas no achismo de governantes, instituições e pessoas, sem um comprometimento nas discussões e no resgate dos valores desta grande parcela da sociedade.
A ameaça iminente está em um cerceamento do mais simples dos direitos: o de ir e vir e o direito de culto; ambos grifados na carta dos direitos humanos e no documento de Durban.
Doem os olhos ao ler que para gente do próprio Povo de Tradicional de Matriz Africana nosso valor seja baixo. Temos muito valor e, quem tenta nos comprar não tem dinheiro para pagar, porque se no passado não sabíamos nosso valor, hoje sabemos e entendemos que não somos mais uma simples moeda de troca ou uma turba desorganizada que serve como massa de manobra. Não temos preço, temos sim vontade política de construir, pois somos cidadãos e cidadãs, moramos em algum lugar, pagamos impostos, consumimos no mercado formal e informal. Enfim, somos uma parcela integrada com as diretrizes desta sociedade e queremos sim sair do anonimato.
Nossos ancestrais, os quais nos deixaram este legado, eram reis e rainhas. Claro que um povo não se salva por meia dúzia de intelectos iluminados e sim pela vontade do próprio povo. Temos que dizer não a todo tipo intolerância, principalmente as mascaradas por atos públicos de falsa preocupação com os destinos dos Cultos de Matriz Afro-brasileira, Federações e Organizações que nunca lutaram realmente, pelo respeito, dignidade e valorização do nosso Povo. Devemos sim fazer uma retomada a antigos valores e nos lembrar que a nossa verdadeira referência, enquanto Povo de Terreiro, esta materialmente longe daqui, está em solo africano.
Estes são alguns dos motivos pelos quais não comemoro o Natal de 25 de dezembro, ele não é uma festa da Minha Tradição. Nada tem haver com a cultura Ancestral que norteia minha existência.
Baba Osoiná – Babalorixá Marcelo D´Ogum – Bàbálawo Ifasegun Aworeni