30/08/2026
OMOLU – OBALUAIYÊ
Omolu é a Terra! Esta afirmação resume perfeitamente o perfil do Orixá, um dos mais temidos entre todos os deuses africanos, o mais terrível Orixá da varíola e de todas as doenças contagiosas, o poderoso “Rei Dono da Terra”.
É preciso esclarecer, no entanto, que Omolu está ligado ao interior da terra (ninù ilé) e isso denota uma íntima relação com o fogo, já que esse elemento, como comprovam os vulcões em erupção, domina as camadas mais profundas do planeta.
Tanto no Candomblé quanto na Umbanda é sinônimo de temor, pois ninguém esconde nada deste Orixá. Ele é capaz de enxergar qualquer detalhe da vida de uma pessoa.
É também o responsável pela morte já que rege a terra e é dela que tudo nasce e tem seu fim. Mas, por outro lado, é o protetor dos doentes pobres, pois ele conhece o sofrimento de carregar uma enfermidade e não quer que ninguém passe por essa dor, assim ele está associado também a cura.
Toda a reflexão em torno de Omolu ocorreu colocando-o como um Orixá ligado à terra, o que é correto, mas não se pode desconsiderar a sua relação com o fogo do interior da terra, com as lavas vulcânicas, como os gases etc. O que pode ser mais devastador que o fogo? Só as epidemias, as febres, as convulsões lançadas por ele.
Orixá cercado de mistérios, Omolu é um deus de origem incerta, pois em muitas regiões da África eram cultuados deuses com características e domínios muito próximos aos seus. Omolu seria rei dos Tapas, originário da região de Empé. Em território Mahi, no antigo Daomé, um deus poderoso, guerreiro, caçador, destruidor e implacável, mas que se torna tranquilo quando recebe suas oferendas preferidas.
Nenhum humano pode ver Omolu sem a palha, seu brilho é intenso como o Sol, tal evento mataria qualquer um rapidamente, por isso ele se apresenta vestido de Filá e Azé, as roupas de palha. Ele está sempre curvado, como quem sente intensa dor e sofrimento. Senhor dos espíritos, mediador entre o mundo material e espiritual, sua significância vai muito além da aparência. Sua veste é a palha que esconde o segredo da vida e da morte.
Na África são muitos os nomes de Omolu, que variam conforme a região. Entre os Tapas era conhecido Xapanã (Sànpònná); entre os Fon era chamado de Sapatá-Ainon, que signif**a ”Dono da Terra”; os Iorubás o chamam Obaluaiyê e Omolu. Por prudência, é preferível chamá-lo Obaluaiyê, o "Rei, Senhor da Terra" ou Omolu, o "Filho do Senhor". Quando Xapanan se instalou entre os Mahis recebeu, em uma nova terra, o nome de Sapatá. Aí, também, era preferível chamá-lo Ainon, o "Senhor da Terra", ou então, Jeholú, o "Senhor das pérolas". O fato de ser chamado Jeholú e Ainon causou mal-entendidos entre Sapatá e os reis do Daomé, pois eles também usavam estes títulos. Enciumados, os Jeholú de Abomey expulsaram, várias vezes, Jeholú-Ainon do Daomé e obrigaram-no a voltar, momentaneamente, à terra dos Mahis. Jeholú Ainon vingou-se: vários reis daomeanos morreram de varíola! Atotô!
Omolu nasceu com o corpo coberto de chagas e foi abandonado pela sua mãe, Nanã Buruku, na beira da praia. Nesse contratempo, um caranguejo provocou graves ferimentos na sua pele. Iemanjá encontrou aquela criança e criou-a com todo amor e carinho; com folhas de bananeira curou as suas feridas e pústulas e transformou-o num grande guerreiro e hábil caçador, que se cobria com palha-da-costa (ikó) não porque escondia as marcas de sua doença, como muitos pensam, mas porque se tornou um ser de brilho tão intenso quanto o próprio sol.
Por essa passagem, o caranguejo e a banana-prata tornaram-se os maiores ewò (proibição) de Obaluaiyê.
O capuz de palha-da-costa (aze) cobre o rosto de Obaluaiyê para que os seres humanos não o olhem de frente (já que olhar diretamente para o próprio sol pode prejudicar a visão). A história de Omolu explica a origem dessa roupa enigmática, que possui um signif**ado profundo relacionado à vida e à morte. O aze guarda mistérios terríveis para simples mortais, revela a existência de algo que deve f**ar em segredo, revela a existência de interditos que inspiram cuidado medo, algo que só os iniciados no mistério podem saber. Desvendar o aze, a temível máscara de Omolu, seria o mesmo que desvendar os mistérios da morte, pois Omolu venceu a morte. Debaixo da palha-da-costa, Obaluaiyê guarda os segredos da morte e do renascimento, que só podem ser compartilhados entre os iniciados.
“Oba” signif**a Rei (Oni), “Ilu” espíritos e “Aiyê” signif**a terra, ou seja, Rei de Todos os Espíritos do Mundo.
A relação de Omolu com a morte dá-se pelo fato de ele ser a terra, que proporciona os mecanismos indispensáveis para a manutenção da vida. O homem nasce, cresce, desenvolve-se, torna-se forte diante do mundo, mas continua frágil diante de Omolu, que pode devorá-lo a qualquer momento, pois Omolu é a terra, que vai consumir o corpo do homem por ocasião da sua morte.
Obaluaiyê andou por todos os cantos de África, muito antes, inclusive, de surgirem algumas civilizações. Do ponto de vista histórico, Omolu é a idade anterior à Idade dos Metais. Ele peregrinou por todos os lugares do mundo, conheceu todas as dores do mundo, superou todas. Por isso Omolu se tornou o médico dos pobres, pois muito antes da ciência, salvava a vida dos necessitados. Durante a escravidão, só não pôde superar a crueldade dos senhores, mas de doenças livrou muitos negros e até hoje muitos pobres só podem recorrer a Omolu que nunca lhes falta.
Registram-se 12 caminhos atribuídos a esse Orixá, que também é considerado um dos mais antigos do Panteão Afro, sendo os mais conhecidos: Sapatá, Xapanan, Xankpanan, Babalu, Azoane, Ajagum, Ajunsun e Avimage.
Caminhos de Obaluaiyê:
Afomam – Carrega duas bolsas de onde retira as chagas e caminha com Ogum.
Agòrò – Sua roupa possui barras com palha e é de cor branca.
Akavan – Se veste de estampado e caminha com Oyá.
Ajágùnsí – Tem ligação com Nanã e Oxumarê.
Azoani – Veste palha vermelha e tem ligação com Oyá, Oxumarê e Iemanjá.
Azonsu – Carrega uma lança em suas mãos. Veste branco e tem ligação com Oxalá, Oxumarê e Oxum.
Jagun Agbá – Caminha com Iemanjá e Oxalufan.
Jagun Ajòjí/Sergi – Caminha com Ogum, Oxaguian e Exu.
Jagun – Ligado a Oyá e Oxaguian.
Jagun Igbonà – Tem ligação com Oxaguian e Obá.
Jagun Itunbé - Não gosta de feijão preto e está ligado a Oxaguian e Oxalufan.
Jagun Odé – Tem ligação com Ogum, Logunedé e Oxaguian.
Obaluaiyê carrega uma lança de madeira, o lagdigbá e o Xaxará para espantar as energias ruins e os eguns.
O colar que o simboliza é o lagdigbá, cujas contas são feitas da semente existente dentro da fruta do Igi-Opê ou Ogi-Opê, palmeiras pretas. Usa também Brajá, um colar grande de cauris (búzios).
Saudação: Atotô! Ajuberó!
Dia da semana: segunda feira
Elemento: terra seca
Domínio: doença e cura
Cores: preto / branco, vermelho/preto/branco, roxo, marrom
Metal: chumbo
Partes do corpo que rege: pele e pulmões
Período de vida que rege: dos 50 aos 60 anos, quando podem se manifestar problemas de saúde que levarão aos interesses pela vida espiritual como conforto.
Comidas: As pipocas (doburu) são as oferendas prediletas, coco fatiado regado com mel, farofa de amendoim, feijão preto refogado com milho, abadô, latipá, aberém e guguru.
Bebida: água de arroz, aguardente, vinho licoroso
Frutas: abacaxi, jaca
Ervas: jurubeba, canela de velho, agoniada, umbaúba, picão, erva de bicho, carqueja, velame, sabugueiro, babosa, alfavaca roxa, folha de berinjela, costela de adão, espinheira santa, urtiga mamão.
No sincretismo praticado pela Umbanda, dia 16 de agosto (São Roque) e 17 de dezembro (São Lázaro) são dias consagrados às comemorações de Omolu e Obaluaiyê.
Na Tradição do Batuque do Sul, este Orixá é chamado de Xapanã/Sapatá e seu dia consagrado é a quarta feira.
Saudação: Abao!
Suas cores são o vermelho/preto (Jubeteí e Belujá) e o roxo (Sapatá).
A comida preferida oferendada é o amendoim com feijão preto e milho.
Sincretismo: Nosso Senhor dos Passos, São Lázaro e São Roque
Ferramentas: A ele é entregue uma vassoura com 7 cores com a finalidade de limpeza espiritual, xaxará, ca****bo, revólver e todas as armas de fogo
(Babalorixá Marcelo D´Ogum )
Bibliografia:
– Cacciatore, Olga Gudolle, Dicionário dos Cultos Afro Brasileiros (1977);
- Pierre Fatumbi Verger e Carybé - Lendas Africanas dos Orixás - Editora Corrupio (1997);