21/03/2025
O culto sincrético chamado Santidade e os primeiros passos do catolicismo popular.
O culto sincrético da Santidade.
Enquanto os colonos, o clero e a Coroa discutiam sobre a melhor forma de conduzir a questão indígena, os nativos tentaram, de várias maneiras, resistir à dominação portuguesa.Foi neste contexto de resistência indígena que surgiu o que ficou conhecido pelo nome de Santidade, a Santidade era um sincretismo entre a cultura religiosa Tupinambá e o Catolicismo e ocorreu inicialmente em São Vicente em 1551, ganhando força em Ilhéus e no Recôncavo Baiano, no final do século XVI. Oprimidos pelas ações dos jesuítas e dos colonos, os indígenas usaram como forma de resistência os próprios símbolos de seus dominadores, os símbolos da religião católica, seus rituais e figuras. Elaboraram um culto sincrético e messiânico, misturando suas crenças e ritos aos da religião católica e dando origem, assim, a este novo culto religioso, a Santidade.
Os nativos adotaram os símbolos e a hierarquia da Igreja Católica. Seus líderes proclamavam-se "papas", que nomeavam "bispos" e também enviavam "missionários" para difundir o culto e pregar a resistência contra os portugueses. Rezavam usando um terço, colocavam tábuas sagradas, como símbolos, em suas igrejas, localizadas nas propriedades dos senhores. Nelas instalavam um ídolo ao qual chamavam de Maria. Alguns senhores de engenho, como, por exemplo, Fernão Cabral de Ataíde, aderiram ao movimento e permitiram a celebração desses rituais em suas fazendas, motivo pelo qual foram perseguidos pelas autoridades da Coroa.
No período entre 1560 e 1627, a Santidade sobreviveu no sul da Bahia. Indígenas e, mais tarde, negros escravisados africanos ou crioulos fugidos, uniam-se em operações militares contra os povoados habitados por portugueses, especialmente contra as plantações de cana-de-açúcar e os engenhos do sul do Recôncavo. Assim, tornavam-se cada vez mais ameaçadores e temidos.
Conforme o relato do governador Diogo de Menezes, em 1610, havia mais de 20 mil índigenas e escravisados fugidos nas aldeias, onde ainda se praticava a nomeação de "bispos e papas". Com o exacerbamento dessa situação, a metrópole, em 1613, agiu mais drasticamente. Declarou uma guerra de extermínio a essas aldeias, devolvendo os fugitivos aos seus donos e vendendo os índigenas como escravos para outras capitanias.
A ação portuguesa foi vitoriosa, apesar de até o século XVIII haver notícias de guerra entre os colonos e os indígenas, especialmente no interior da Bahia. A última referência específica sobre a Santidade data de 1627, quando um bando atacou o engenho de Nicolau Soares, matando escravisados, saqueando a propriedade e levando os indígenas ali residentes.
A Santidade foi reprimida e devassada
pelo governador e pelo Santo Ofício. Durante o processo inquisitorial, por ocasião da
visitação do Santo Ofício, foi constatada significativa participação dos brancos na Santidade. Havia freqüentadores ilustres, como a esposa de um grande senhor de engenho, Margarida da Costa, confessou ter participado durante dois meses dos ritos indígenas, por ter convicção de que se tratava de prática católica:
"Tinha para si e dizia que não podia ser aquilo
demônio, senão alguma coisa santa de Deus, pois traziam cruzes de que o demônio foge, e pois faziam reverências às cruzes e traziam contas e nomeavam Santa Maria.".
*A Santidade é uma ponta do remanescente ancestral da Umbanda, já que o catolicismo popular foi sendo absorvido nas praticadas afro/indígenas e posteriormente nas religiões de Umbanda, Jurema, Terecô, etc, etc...
(T.E.U. Santo Antônio Bauru SP)