23/08/2026
Resgate de um registro histórico. Em junho de 1949, há 76 anos, a revista A Cigarra publicou um texto de Roger Bastide, acompanhado de fotografias de Pierre Verger, sobre o que o autor presenciou durante um candomblé no terreiro de Joãozinho da Goméia, na Bahia. Segue a transcrição na íntegra:
Candomblé
Nos flancos sonoros dos navios negreiros vieram não só os filhos da Noite mas também os seus deuses, os Orixás dos bosques, dos rios e do céu africano. É verdade que, no cais dos portos brasileiros, o capelão esperava os nagôs, os jejes, os angolas — capelães das cidades, capelães dos engenhos, para lhes ensinar as preces latinas e os batizar com o Espírito Santo. Os negros confundiriam suas divindades sombrias com os santos católicos, mas continuariam, através dos cantos e das danças tradicionais, a adorar os deuses de além-mar. E assim nasceu o Candomblé, perdurando até os nossos dias, apesar das muitas transformações por que passou.
A partir dos trabalhos de Arthur Ramos e de Nina Rodrigues essa religião afro-brasileira se tornou bem conhecida — pelo menos em suas linhas gerais. Mas existe no Candomblé um outro aspecto, não menos importante, que chamou a atenção dos romancistas do nordeste — o seu aspecto estético. A religião e a arte, que em nossa civilização ocidental se separaram, casam-se aqui em líricos esponsais. E se é possível que o elemento religioso do Candomblé um dia desapareça, é de se esperar que o brasileiro mantenha a herança de beleza que os negros transplantaram para sua nova pátria.
Era nisso que eu ia pensando, enquanto o automóvel me conduzia, junto com alguns amigos, ao "terreiro" de Joãozinho da Gomea. A noite caía sobre a estrada litorânea onde se defrontavam e se confundiam os perfumes das árvores tropicais das flores selvagens da terra e o odor persistente de iodo e de maresia, vindo do mar próximo. Bonfim, onde à sombra da cruz cristã, as filhas de santo vêm oferecer preces a Oxalá, o velho, ia f**ando para trás. E o auto subia a encosta que conduz ao santuário africano.
Alguns dias antes eu havia visto na camarinha, estendidas no chão, apertadas nas faixas litúrgicas, o rosto afogado na brancura da fazenda, as candidatas a esta iniciação, que fará das jovens negras da Bahia, cavalos m***ados pelos deuses. Semelhavam a humildes crisálias, talvez naquele momento à espera do banho de ervas sagradas preparado pelo babalorixá, o qual abriria os corpos e as cabeças à entrada do divino e desvencilharia as asas das dançarinas dos deuses. É hoje a festa de "dar o nome", a entrada das iniciadas na confraria das filhas e dos filhos de santo. Para que a cerimônia não seja perturbada, já se realizou o sacrifício inicial a Exu; a multidão dos vizinhos, dos pais, dos amigos, dos curiosos, dos amadores desses espetáculos de arte, se acotovela no terreiro, ao lado dos fiéis e dos devotos. Enquanto esperam, os moleques correm atrás duma bola de futebol, rindo alegremente.
O candomblé de Joãozinho pertence à nação angola. Portanto, a uma nação bantu. Na verdade, os Orixás desta nação não diferem dos Orixás dos Ketu ou dos Jeje. Mas se a mitologia é a mesma, se o ritual é comum, existe assim mesmo no canto, no ritmo e na liturgia um certo número de diferenças. A nação angola resiste menos às influências estrangeiras que nascem do meio, brotam na nova pátria. Enquanto os nagôs e os dahomeianos permanecem fiéis à pureza africana, o bantu aceita com mais facilidade a linguagem dos portugueses em seus cânticos festivos. E também não despreza os Espíritos dos caboclos. Unem aos deuses de seu país os deuses da terra adotiva. É verdade que o sincretismo não é tão grande quanto na macumba, havendo mais justaposição que assimilação. As festas dos caboclos, por exemplo, não se fazem na mesma época que as dos africanos, as roupas são diferentes. E enquanto o candomblé se desenrola sob o teto do barracão, o candomblé de caboclo se realiza ao ar livre, pois as divindades indígenas são divindades de ar livre.
Geograf**amente, o terreiro da Gomea desenha esta justaposição dos cultos. Eis, depois da cabana de Exu, bem junto à porta, a cruz de Oxalá, que acolhe os visitantes. Mas Oxalá nunca foi crucif**ado e esta cruz, plantada no umbral do santuário africano, é o catolicismo do branco. Um pouco além, eis a árvore de Camujupitiá [nome africano do caboclo Pedra Preta], o caboclo protetor de Joãozinho, cercada de uma barreira tabu cobrindo com a folhagem rasteira, com a verde sombra, pratos de alimentos, vasilhas de terra e a pedra negra, fálica. Um caminho tranquilo conduz os passos do visitante à árvore de Jucá, de frutos interditos, de tronco oco onde o vento se engolfa com um suspiro doloroso, da qual não se pode aproximar sem trazer na mão a folha protetora. É nos ramos frondosos desta árvore que dormem, enquanto não se reencarnam ou desaparecem, as almas das filhas de santo do terreiro. Os candomblés jeje têm uma casa dos mortos onde depois da morte do babalorixá ou da mãe de santo, a alma se recolhe enquanto espera sua substituição ou sua volta à terra, sob a forma de uma branca sombra que transmite aos fiéis suas últimas vontades. Esta cabana não existe no terreiro de Joãozinho e é a árvore poderosa, povoada de cantos de pássaros, de gemidos de vento, em cuja rama se agarra o manto da noite, que serve de repouso aos mortos. Os deuses africanos, a não ser algumas raras exceções como Exu, Ossain, as divindades da vegetação em geral, não são adorados fora, mas no interior da casa, no "peji". Ainda aqui vemos que o sincretismo se limita a uma simples justaposição: não há dúvida que a influência católica pode se refletir na decoração, nos padrões de beleza aprendidos na contemplação das capelas barrocas; não obstante, o "peji" é africano, com as oferendas de pratos odorantes, de doces, de frangos, com as pedras sagradas — ou "itá" — seixos rolados pela vaga marinha, pedras de raio, as ferragens de Ogum, os pedaços de giz de cores simbólicas. Quanto ao santuário católico, está separado do "peji"; se eleva num canto do barracão, com seus santos — sem dúvida equivalentes aos Orixás, Santa Bárbara identif**ada a Yansã, São Jorge a Oxóssi, São Sebastião a Omolu. Mas estes não recebem culto, apenas presidem à festa pagã.
Os três tambores, Rum, Rumpi e Lé, estão em seus postos. Eles são deuses. Foram batizados, receberam o sangue do animal sacrif**ado, habita-os a alma dos Orixás. E quando as mãos ágeis dos músicos — dança negra de dedos sobre a pele tensa — ferem o tambor, os deuses falam aos corpos. O tã-tã mágico não é somente a saudade da África, nem a lembrança deste outro tã-tã, o reboar das vagas no flanco do navio negreiro, mas a descida dos Orixás na cabeça, nos músculos, no coração de seus filhos. Quem entra vem saudá-los, deitar-se diante do instrumento sagrado, tocando sucessivamente a terra e o tambor, com a mão trêmula de emoção. As danças e os cantos começam, numa ordem determinada, sempre a mesma — o "xirê" —, cada deus recebendo, obrigatoriamente, três cânticos.
Sobre o caminho que liga a casa de Joãozinho ao barracão, os braços estendidos no ar sustentam o pano branco — o "alá", que eu já havia encontrado em outro lugar, no batuque de Porto Alegre, há centenas e centenas de quilômetros de distância, servindo a outros fins litúrgicos, e que reflete, eu creio, uma sobrevivência maometana. Os Malês, que durante um momento sacudiram o Brasil com suas insurreições, já se foram ou morreram, e o culto de Alá se extinguiu; seus traços, contudo, ainda hoje perduram nos candomblés.
É então que, cercadas da alegria da multidão, no meio dos gritos e entre pétalas de flores, entram as iniciadas, as "iaôs". A procissão hierática desfila ao som do mesmo cântico monótono e cada filha de santo vem acompanhada de sua "keti", incumbida de ampará-la na hora do êxtase, de enxugar-lhe o suor do rosto com uma toalha imaculada. Elas vêm dançando, a parte inferior do corpo envolta numa saia branca que, subindo, contorna o busto; mas as costas e os braços estão nus, cobertos de manchas brancas. As manchas brancas salpicam ainda o rosto e a cabeça, que se raspou para que o deus possa mais facilmente entrar e subjugar sua m***aria. Em nenhuma parte eu havia visto cerimônias iguais, em que os "iaôs" entrassem enfileirados, com as vestimentas dos Orixás. Joãozinho, que é um admirável "maitre de ballet", aqui, abandonou-se certamente à sua fantasia de criador estético. A cena é grandiosa e os corpos negros pintalgados de branco são como noites estreladas da África, que chegam até nós, dançando.
A estrutura das cerimônias afro-brasileiras é conhecida. Os cantos chamam os deuses e os deuses descem:
Ogum ôburucan
imbaô balé
Ogum ô lojo
babaim nagô
erum jelé;
os pés batem no chão, as mãos se estendem ou se abaixam, as ancas giram, o tã-tã martela o peito:
ô ami luô
má nô
ô ami luô
má nô
xarangô lá nu aeô
má nô
ami luô
má nô
As "quedas de santo" se sucedem. Cada vez que um homem cai em transe, tiram-lhe os chinelos, o paletó, o chapéu; o corpo das mulheres estremece sob os golpes dos deuses, os olhos fecham-se, estáticos, às vezes a possessão é tão violenta que o filho ou a filha de santo cai por terra. Mas não devemos pensar que o candomblé nos apresenta cenas de histeria. A possessão se realiza musicalmente; mesmo na violência — que é rara — obedece ao ritmo do cântico. Ela começou com a dança e com a dança terminará; ela é, em si mesma, uma dança, selvagem, liricamente selvagem. As pessoas em transe são carregadas para a "camarinha" e lá envergam as vestimentas características de seus Orixás. Roupa de Xangô, branca e vermelha com o chapéu redondo, a saia curta, a calça até os pés, o machado duplo. Estranha e assustadora vestimenta de Omolu, o deus da varíola, cobrindo a cabeça e o corpo de palha da costa.
Às vezes a possessão demora. Então, o ritmo faz-se mais rápido, mais feroz. Joãozinho persegue os corpos que resistem ao transe divino, agita o "agogô", desenha, à volta das cabeças suadas, um rendilhado de sinetas sacudidas. Ele próprio, o pai de santo venerado de sua nação, será m***ado por Yansã e envergará sua vestimenta feminina, pois Yansã é a mulher de Xangô. E dançará admiravelmente, perdidamente, e será também Oxóssi, o deus caçador. Enquanto isso, nos intervalos em que os tambores calam, ouve-se na relva dos campos à volta o canto noturno dos grilos — grito de amor que a terra da Bahia lança ao céu profundo e luminoso.
Entre as dançarinas reconheço a neta da "mãe pequena" do terreiro de Joãozinho; é uma menina [de] Xangô, de doze anos. Está doente, mas assim mesmo o Orixá se apossou dela e ela dança, estática, entre as companheiras. Só Oxalá não dança. Sentado no trono, pois Oxalá é o deus supremo, o rei dos Orixás...
Oxalá-rei ô i, babá ô é
Oxalá-rei
.. preside à festa, recebe as homenagens dos Orixás, dá à cerimônia o caráter hierárquico que faz da mitologia yorubá uma tradução sobrenatural das realezas africanas.
A festa está terminando. Segundo o costume, vou comer o resto do alimento dos deuses. E depois, partirei só. Quero descer, rumo à cidade adormecida, levando a braçada de músicas, que continuam em minha memória. Tomarei o último bonde que geme nos trilhos. Perto de mim, entre os passageiros, alguma filha de santo, de novo na roupa triste de trabalho, ainda trará nos olhos o brilho do amplexo dos deuses.
Wolkartt
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