25/07/2021
Naquele dia eu não quis perguntar o nome dela, mas aquela foi a melhor experiência que vivi em toda minha vida.
Sentado numa cadeira próximo a ela eu lhe observava timidamente. Seus dedos circulavam a borda da taça de cristal enquanto a Sinhá (respeitosamente chamada por ela) pegava seu cigarro.
- Não é este meu cigarro, trague-me outro. Você me conhece a tanto tempo Sinhá deve está mesmo desatenta.
A cambona pediu desculpas pela confusão, tirou o pacote de fumo do bolso e começou a enrolar o tabaco da pomba gira.
Em toda minha vida nunca vi uma moça tão humilde. Enquanto as outras estavam vestidas com plumas e paetês, fumando bons charutos e ci****os de sabor com suas longas piteiras. Lá estava ela sentada com as pernas cruzadas, vestida com um pano de chita e fumando o que matava sua vontade como ela mesma dizia.
A moça, em questões de segundos me alertou do devaneio.
- Tá preocupado porquê meu senhor?
Não !! Não estou preocupado. Só estava aqui pensando...
- Tem certeza moço? Quer dizer que estou mentindo. Você não está preocupado?
Não !! Não estou preocupado.
- tem absoluta certeza meu senhor ? Tudo na sua vida pode ser resolvido sem ajuda ? Sem esforços ? Sem parentes, amigos, colegas ou uma Maria como eu ? Acha mesmo que ele vai voltar com você sentado nessa cadeira, pensando em quantos litros de cachaça eu vou beber ? Acha mesmo que não precisa de um sequer conselho ? Vai decidir fazer tudo sozinho como da última vez, e cair na m***a como sempre, Vai meu senhor?
Fiquei assustado. Rapidamente ela se levantou, me pegou pelos braços e me puxou pro lado externo do terreiro.
- Escute muito bem o que Dona Maria vai te dizer, mesmo depois de falar duas vezes que não precisava de ajuda. Me chamo Maria assim como sua mãe, mas não tenho obrigação nenhuma de passar a mão na sua cabeça e dizer que vai ficar tudo bem.
Ele não gosta de você e se me permitir eu posso te explicar melhor. Posso?
Balancei a cabeça positivamente para que ela continuasse falando.
- Olhe pra mim, no fundo de meus olhos.
Olhei pra ela e subitamente sentir a fumaça de seu tabaco em meu rosto.
Porquê fez isso ? Não consigo enxergar, meu olhos agora estão ardendo.
- Pois é Meu Senhor, foi isso que o amor fez com você. Tapou seus olhos. Enquanto você está aqui tentando consertar e arrumar uma solução pro seu relacionamento onde ele está?
Posso responder se quiser. . .
Mais tudo isso passa e com o tempo, depois da ardência sua visão voltará ao normal.
A fumaça que sentiu em seus ouvidos já passou e se dissipou. Assim é o amor.
Ele ofusca, arde, incomoda e sufoca. Mas também traz clareza, calma e luz depois de uma conversa como esta.
Quem te ama meu Senhor ? Eu ou ele ? Se cuida.
Boa noite !!
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