31/10/2020
"Recompartilhando"...
SILÊNCIO DIANTE DE DEUS
Rm 3.19-28
Ficar em silêncio: essa é uma postura adequada a ser adotada diante da santidade e da majestade de Deus. Diz o profeta Habacuque: “O SENHOR está no seu santo templo; cale-se diante dele toda a terra” (Hc 2.20). No Salmo 46, Deus mesmo convida o mundo inteiro para que fique em silêncio: “aquietai-vos e sabei que eu sou Deus” (Sl 46.10). Ficar em silêncio é uma atitude que indica respeito, reverência, temor e adoração a Deus; é uma atitude que indica o reconhecimento de como somos pequenos e pecadores e como Ele é um Deus grandioso e santo.
De acordo com isso, na epístola aos Romanos, o apóstolo Paulo diz: “Ora, sabemos que tudo o que a lei diz, aos que vivem na lei o diz para que se cale toda boca, e todo o mundo seja culpável perante Deus” (Rm 3.19). A Lei de Deus revela a sua vontade Santa e perfeita. Ao mesmo tempo, ela revela como todos estamos distantes daquilo que Deus exige de nós, “pois todos pecaram e carecem da glória de Deus” (v.23). Por isso, Paulo diz que a Lei de Deus serve para calar nossas bocas. Ou seja, ela mostra que ninguém pode apresentar alguma justificativa; ninguém pode apresentar provas ou argumentos de defesa que comprovem inocência e que livrem da condenação divina. A Lei de Deus revela que todos merecem receber a sua punição eterna.
No entanto, Deus evidencia isso em sua Lei, não para levar-nos ao desespero, mas para levar-nos à percepção da nossa necessidade de Cristo e de sua obra em nosso favor. No Antigo Testamento, repetidas vezes Ele fazia a promessa de que viria habitar com seu povo. Numa dessas promessas, Ele disse por meio do profeta Zacarias: “Cale-se toda carne diante do SENHOR, porque ele se levantou da sua santa morada” (Zc 2.13). É preciso que nós sejamos calados para que Deus fale e nós ouçamos sua Palavra salvadora, pois “a fé vem pela pregação, e a pregação, pela palavra de Cristo” (Rm 10.17). Somente quando Deus mostra que nós não temos nenhum argumento para provar nossa inocência é que podemos ser consolados com o fato de que Jesus, em sua inocente paixão e morte, já sofreu em nosso lugar a pena e o castigo que nós deveríamos sofrer.
De acordo com uma tradição judaica, antes de Deus criar a luz, as trevas e o silêncio reinavam na criação. Esse silêncio foi rompido quando Deus criou a luz com sua Palavra poderosa. De acordo com essa mesma tradição, também haveria silêncio quando Deus começasse sua nova criação (4 Esdras 6.36, 7.30-36; 2 Baruque 3.5-9).
Se é possível fazer essa consideração, nós precisamos nos lembrar de que Deus já começou sua nova criação a partir da vinda de Cristo. Todos que cremos em Cristo somos novas criaturas (2 Co 5.17). Por isso, no nosso Batismo, Deus também nos silenciou. Naquele dia, Ele calou nossas bocas ao revelar nosso pecado; Ele calou nossas bocas porque, como diz o apóstolo Paulo, fomos sepultados juntamente com Cristo em sua morte (Rm 6.4). Depois disso, assim como Ele criou todas as coisas pelo poder de sua Palavra, Ele também nos recriou pelo poder da Palavra que estava unida com a água. Assim como, no princípio da criação, Ele rompeu o silêncio dizendo: “haja luz”, assim também Ele rompeu o silêncio das trevas da nossa morte espiritual com Sua Palavra, que fez brilhar sobre nós a luz de Cristo (Jo 8.12).
Da mesma forma, Deus continua se relacionando conosco todos os dias. Ele não quer que apresentemos nossas justificativas, desculpas e explicações para nossos pecados. De outra forma, Ele também não quer que nos gabemos por nossas obras e qualidades; Ele não quer que busquemos honra, aplauso e reconhecimento para o que somos e fazemos diante dEle.
Sola Scriptura. Somente a Escritura pode definir e orientar nosso relacionamento com Deus. E a Escritura cala nossas bocas; a Escritura destrói nossos recursos próprios na busca pela Salvação. A Escritura mostra que somente por meio da fé podemos ser salvos.
Por isso, Sola Fide. Somente pela fé podemos ser declarados justos por Deus. Porém a fé que nos salva não é nossa capacidade de acreditar em qualquer coisa. A fé que nos salva é a confiança em Cristo. Não somos acolhidos e salvos por Deus por causa do tamanho ou da força de nossa fé. Mesmo que ela seja do tamanho de um grão de mostarda, o importante é que esteja em Cristo.
Por isso, Sola Gratia. Somente pela graça manifestada em Cristo é que podemos ter perdão e salvação, porque Cristo pagou o preço da nossa liberdade diante do tribunal divino; porque Cristo não foi silenciado pela Lei de Deus e somente ele foi capaz de vencer, por nós, o silêncio da morte.
Portanto, que hoje e sempre, o Espírito Santo cale nossas bocas ao nos lembrar que somos pecadores (Rm 3.19). Da mesma forma, que ele abra nossos lábios para manifestar o louvor a Deus pela justiça concedida em Cristo (Sl 51.14,15); que ele encha nossos corações com a alegria da Salvação, para que, falando com a boca do que o coração está cheio, nós possamos confessar e testemunhar que Jesus é nosso Senhor e Salvador (Mt 13.34,35; Rm 10.8-10).
Em nome dele, amém.
Rev Timóteo Felipe Patrício.