26/08/2026
26 de Agosto | 10º dia da Quaresma
Tema: Curando o patinho feio ( a vergonha)
_Jesus veio trazer salvação_
Entramos hoje na casa de Zaqueu. Este é um dos Evangelhos mais conhecidos e mais belos, porque nos apresenta uma das conversões mais profundas narradas por São Lucas. É a história de um homem que queria ver Jesus, mas que descobriu uma verdade ainda maior: antes que ele conseguisse enxergar Jesus, Jesus já o enxergava. Zaqueu subiu numa árvore para ver Jesus passar. Talvez ele imaginasse que f**aria escondido entre os galhos, apenas como mais uma pessoa curiosa no meio da multidão. Mas Jesus nunca desperdiça a boa vontade do ser humano. Jesus percebe o menor movimento do nosso coração. Ele vê quando alguém dá um pequeno passo em sua direção. Porque essa é uma característica maravilhosa de Deus: Ele pega o nosso pouco e multiplica. Um desejo pequeno de encontrar Jesus se transforma numa grande mudança de vida. Uma pequena abertura do coração se torna uma porta para a graça entrar. O Evangelho diz: “Zaqueu, desce depressa, porque hoje eu devo f**ar na tua casa.” (Lc 19,5). Que palavra forte! Jesus não diz apenas: “Vou passar pela sua cidade”. Ele diz: “Vou entrar na sua casa”. Porque Jesus não veio apenas para visitar lugares; Ele veio para habitar corações. São Lucas nos apresenta uma informação aparentemente simples: Zaqueu era baixinho. Mas essa pequena característica revela algo muito profundo. Zaqueu era um homem rico, poderoso, conhecido, talvez temido por muitos. Mas havia algo que todo o dinheiro do mundo não conseguia mudar: sua pequenez. Existem coisas na nossa vida que o dinheiro não compra, não resolve e não cura. O dinheiro pode comprar uma casa grande, mas não pode comprar um lar cheio de amor. Pode comprar conforto, mas não pode comprar paz. Pode comprar aparência, mas não pode comprar identidade. São Paulo vai dizer na primeira carta a Timóteo: “A raiz de todos os males é o amor ao dinheiro.” (1Tm 6,10) Observe: São Paulo não diz que o dinheiro é a raiz de todos os males.
O problema não é possuir dinheiro, mas permitir que o dinheiro possua o nosso coração. Quantas histórias conhecemos de pessoas que tinham tudo, mas perderam aquilo que realmente importava? Pessoas que por causa do dinheiro se tornaram egoístas, agressivas, desonestas, incapazes de enxergar o sofrimento dos outros. Zaqueu era rico, mas carregava uma pobreza interior. Talvez ele tenha tentado compensar sua pequenez física com grandeza exterior. Talvez tenha pensado: “Se eu não posso ser grande aos olhos das pessoas pela minha aparência, serei grande pelo meu poder, pela minha riqueza, pela minha posição.” E assim ele começou a acumular. Cobrou impostos, explorou pessoas, tornou-se rico. Mas por trás de toda aquela riqueza havia uma ferida escondida. Muitas vezes, aquilo que acumulamos revela aquilo que tentamos esconder. Algumas pessoas acumulam dinheiro porque têm medo de faltar. Outras acumulam conquistas porque precisam provar seu valor. Outras acumulam elogios porque nunca se sentiram amadas. Outras acumulam coisas porque existe dentro delas um vazio que elas não sabem como preencher. O consumismo, as apostas, o desejo exagerado de ter sempre mais revelam uma busca desesperada por preencher algo que somente Deus pode preencher. O demônio tentou Jesus exatamente nessa área. Ele disse: “Eu te darei todos os reinos do mundo e a sua glória, se te prostrares diante de mim.” (Mt 4,9) A proposta era: “Ganhe o mundo.” Mas Jesus nos ensina que existe uma pergunta maior: De que adianta ganhar o mundo inteiro e perder a própria alma? (cf. Mt 16,26) Por isso, uma das grandes curas que precisamos pedir é a cura do apego desordenado ao dinheiro, às coisas e às aparências. Precisamos perguntar: O que será que eu estou tentando esconder quando preciso comprar, possuir ou provar algo? Zaqueu subiu numa árvore porque queria ver Jesus. Mas aquela árvore também representa muitas coisas que nós subimos para nos proteger. Às vezes subimos na árvore da aparência: queremos mostrar que está tudo bem. Subimos na árvore do orgulho: não queremos que ninguém veja nossas fraquezas. Subimos na árvore da vergonha: achamos que nosso passado nos define. Subimos na árvore da rejeição: carregamos marcas das palavras que ouvimos e das feridas que recebemos. Talvez Zaqueu tenha sofrido muito por ser pequeno. Talvez tenha ouvido palavras que feriram sua dignidade. Talvez tenha carregado durante anos a sensação de ser inferior. E Jesus olha para ele e não diz: “Zaqueu, esconda-se melhor.” Jesus diz: “Desce depressa.” Desce dessa árvore da vergonha. Desce dessa árvore do pecado. Desce dessa árvore das falsas compensações. Desce dessa necessidade de provar seu valor. Porque antes de você fazer alguma coisa por Jesus, Jesus já fez tudo por você. Ele não diz: “Mude primeiro e depois eu entrarei na sua casa.” Ele diz: “Hoje eu devo f**ar na tua casa.” A presença de Jesus é que gera a transformação.
Nesta Quaresma de São Miguel, nós também subimos numa árvore. As práticas espirituais da vida católica são esta árvore em que subimos e nos elevamos do meio da multidão para ver Jesus! Subimos porque queremos ver Jesus. Mas fazemos isto não só por devoção e piedade. Fazemos isto por nós mesmos, como que dizendo: “Senhor, apesar das minhas conquistas, apesar das minhas capacidades, apesar de tudo aquilo que consegui construir, existe dentro de mim uma ferida que eu não consigo curar sozinho.” “Existe um medo que me acompanha.” “Existe uma rejeição que ainda dói.” “Existe uma parte da minha história que ainda precisa da tua misericórdia.” E Jesus olha para nós e diz: “Eu te vejo. Desce depressa. Eu quero entrar na tua casa.” Hoje vamos pedir a Jesus a cura da baixa autoestima, da vergonha e dos sentimentos de rejeição. Talvez alguém tenha sido rejeitado pela aparência, pela condição social, pela história familiar, pelos erros do passado ou pelos próprios pecados. Muitos de nós nos consideramos e sentimos o patinho feio da família, da roda de amigos, da comunidade paroquial. Mas Jesus diz: “Patinho feio, desce depressa. Eu quero f**ar na tua casa.”
ORAÇÃO
Pai amado e misericordioso, eu Te agradeço porque Tu me vês antes mesmo que eu consiga Te procurar. Muitas vezes eu me sinto pequeno, inferior, rejeitado ou incapaz de ser amado, e deixo que essas feridas definam a maneira como enxergo a mim mesmo. Peço perdão pelas vezes que esqueci que sou Teu filho amado e que o meu valor nasce do Teu amor. Jesus, meu Salvador e amigo fiel, chama-me para descer de toda árvore onde tenho me escondido. Muitas vezes eu tento esconder a minha dor por trás da aparência, do orgulho, das conquistas e da necessidade de provar que sou importante. Peço perdão pelas vezes que busquei nas coisas, no dinheiro ou na aprovação dos outros aquilo que somente a Tua presença pode preencher. Espírito Santo, visita as feridas mais profundas da minha história e cura em mim toda vergonha e todo sentimento de rejeição. Muitas vezes eu acredito que os meus erros, o meu passado ou as palavras que ouvi dizem quem eu sou. Peço perdão pelas vezes que me fechei para a Tua graça e não permiti que a verdade de Deus renovasse a minha identidade. São Miguel Arcanjo, defendei-me de toda mentira que tenta afastar-me de Jesus e diminuir a minha dignidade. Muitas vezes eu me deixo prender pelo apego, pelo medo e pelas falsas compensações que roubam a liberdade do meu coração. Guardai-me no combate e conduzi-me para perto de Deus. Jesus, eu desço aos Teus pés e abro a porta da minha casa. Entra em minha vida, cura as minhas feridas e faz de mim uma pessoa livre para amar e ser amada. Amém.