09/02/2020
Da liturgia do Quarto Domingo do tempo comum...
Estamos nos versículos sucessivos àqueles das Bem-aventurança, da vida feliz e santa como o caminho mais autêntico de seguimento que Jesus nos abriu. Jesus continua falando aos discípulos, aos que são chamados a bem-aventurança do seu seguimento: “Vós sois o sal da terra. Vós sois a luz do mundo.” (Mt 5,13-14). Ser sal e luz aparece então como chamado e consequência do caminho das bem-aventuranças!
Sal e luz, no nosso mundo, e mais ainda no mundo antigo, são realidades extremamente importantes para a vida, e por isso mesmo tão significativas. O sal dá sabor, mas também conserva os alimentos, a luz ilumina, permitindo ver melhor as coisas, os passos que precisamos dar, mas também aquece, mantendo o calor da vida, mantendo o ânimo e as forças. A luz e o sal, tomadas no seu significado mais largo, nos reenviam a sabedoria, que oferece sabor preservando a vida, que ilumina os passos e anima o coração caminhando na direção da liberdade e do bem.
Jesus é a Sabedoria do Pai, o seu caminho das bem-aventuranças é caminho de incomparável sabor e luz que alegra e torna fecunda a vida como nenhum outro, tão diferente das muitas pretensas sabedorias do nosso mundo (Cf. 1Cor 2,1-5). Quem por ele se decide não somente tem a vida “temperada e iluminada” pelo seu mistério, mas vê transformado a si mesmo em belo reflexo desse sabor e dessa luz nova. O evangelho revela a nossa mais autêntica vocação de cristãos, a vocação de toda Igreja, que se rejuvenesce e renova a sua fecundidade na medida que vive o mistério do seu Senhor: “Vós sois o sal da terra. Vós sois a luz do mundo.” (Mt 5,13-14).
O caminho das bem-aventuranças é caminho de amor segundo os sentimentos do coração do Filho, portanto de amor concreto e empenhado a Deus e aos irmãos, que não permanece no nível de conceitos e abstrações distantes da vida e das nossas ações de todos os dias: Da primeira carta de João: “Quem diz que está na luz mas odeia o seu irmão continua nas trevas. Quem ama o seu irmão permanece na luz e não tropeça. Quem odeia o seu irmão está em trevas e não sabe onde vai, pois a escuridão lhe cega os olhos” (1Jo 2,9-11). Da profecia de Isaías: “Se destruíres teus instrumentos de opressão, e deixares os hábitos autoritários e a linguagem maldosa; se acolheres de coração aberto o indigente e prestares todo o socorro ao necessitado, nascerá nas trevas a tua luz e tua vida obscura será como o meio-dia.” (Is 58,7-10)
Já somos luz e sal, pelo batismo, pela graça que nos alcança de tantas formas todos os dias, mas ainda precisamos nos tornar o que somos. Seno assim, é preciso cuidar para que não se perca a luz e o sabor, para que não nos percamos dos seus caminhos de vida e para vida: “Ora, se o sal se tornar insosso, com que salgaremos? Ele não servirá para mais nada, senão para ser jogado fora e ser pisado pelos homens.” (5,13b). Lembrando que sim, podemos perde a luz e o sabor pela ausência, o que pede de nós um contínuo alimentar a vida nas fontes da fé; mas da mesma forma se perde o sabor, a luz da vida e da fé com o excesso. Ser sabor nunca pode ser entendido como “salgar”, e ser luz como um brilhar de forma tão exagerada ao ponto de cegar quem está ao nosso redor. A luz e o sabor de Cristo nada tem a ver com a arrogância do saber e a prepotência do impor, que como a maioria das coisas sem fundamento acabam não perdurando no tempo. Essas são como um fósforo, acendem com força e intensidade e pouco tempo depois apagam, por não terem consistência. Quanto brilho aparente, e tantas vezes inutilmente dispendioso, até financeiramente, dentro e fora da Igreja, quanto brilho aparente dentro e fora de nós, que encantam com engano o olhar e logo depois a “traça” corrói, os “ladrões” roubam, desfazem-se como bola de sabão. O Sabor de Cristo que contagia de vida e amor, a luz de Cristo que brilha com ternura e firmeza se parece muito mais com a chama de uma rústica lamparina, plena daquela beleza discreta e consistente, tão rara em nossos dias, que nos foi generosamente acesa na Encarnação e continua assim ao longo dos tempos, porque é eterna, porque nela arde o amor eterno de Deus, sempre disponível. Mas que para dela nos aproximarmos precisamos reaprender a apagar nossas luzes de prepotência enganosa, precisamos fazer corajosamente a experiência das nossas trevas e também das nossas mais profundas esperanças, precisamos reaprender a assumir os percursos interrompidos e empoeirados da nossa história e daquela dos nossos irmãos, reaprender a aproximar nossa vida do mistério sempre novo de Deus, e dos homens na sua luz, de modo que nos tornemos luz e sabor, de modo que com Jesus e nele também brilhe a nossa luz diante dos homens, para que vejam as nossas boas obras e louvem o vosso Pai que está nos céus (cf. Cf. Mt 5,16). Nele sempre encontro razões para a apologia da beleza discreta e consistente, que nada tem a ver com desleixo, pois é harmonia e transparência do mistério que a supera, beleza tão necessária em nossos tempos!
*Pe. Valdes