24/05/2026
VOZES E ROSTOS II
É preciso preservar e cultivar a dignidade do ser humano. É o que transparece, com meridiana clareza, na mensagem que o Papa Leão XIV dirige ao mundo por ocasião do LX Dia Mundial das Comunicações Sociais. O ideal é ter acesso integral ao texto. Selecionei alguns trechos para tornar conhecido o pensamento do Papa.
Os modelos do IA estão moldados pela visão do mundo de quem os constrói e podem impor modos de pensar, replicando estereótipos e preconceitos presentes nos dados a que acedem. O risco é grande. O poder de simulação é tal que IA pode também iludir-nos com a construção de “realidades” paralelas, apropriando-se de nossos rostos e de nossas vozes. Estamos imersos numa multidimensionalidade, onde se torna cada vez mais difícil distinguir a realidade da ficção. A isto acrescenta-se o problema da falta de precisão. A falta de verificação das fontes, que implica um trabalho contínuo de recolha e verificação de informações nos locais onde os eventos ocorrem, pode favorecer um solo ainda mais fértil para a desinformação, provocando uma crescente sensação de desconfiança, desorientação e insegurança. O desafio que nos espera não é impedir a inovação digital, mas, sim, orientá-la.
Esta proposta é possível, mas tem de se basear em três pilares: responsabilidade, cooperação e educação. A responsabilidade pode ser definida como honestidade, transparência e coragem. Ninguém pode fugir à sua responsabilidade quanto ao futuro que estamos a construir. Isto significa que as plataformas sejam norteadas por uma visão que tenha em conta o bem comum. A mesma responsabilidade é pedida aos legisladores que têm a função de zelar pelo respeito à dignidade humana. A confiança do público se conquista com a precisão e a transparência. A autoria e a propriedade soberana do trabalho dos jornalistas e outros criadores de conteúdo devem ser protegidas. A informação é um bem público.
Todos somos chamados a cooperar. Todas as partes interessadas devem estar envolvidas na construção e na efetivação de uma cidadania digital consciente e responsável. O objetivo da educação é aumentar as capacidades pessoais para refletir criticamente, avaliar a credibilidade das fontes e os possíveis interesses por trás da seleção de informações que nos chegam. Na condição de católicos, podemos e devemos dar nosso contributo para que as pessoas, especialmente os jovens, adquiram a capacidade de pensamento crítico e crescem na liberdade do espírito. É importante educar e educar-se para utilizar a IA de forma intencional e, neste contexto, proteger a própria imagem (fotos e áudio), o próprio rosto e a própria voz, para evitar que sejam utilizados na criação de conteúdos e comportamentos prejudiciais, que violam a privacidade e a intimidade das pessoas sem o seu consentimento.
É necessário que o rosto e a voz voltem a individualizar a pessoa. É necessário preservar o dom da comunicação como a mais profunda verdade do ser humano, para a qual também se deve orientar toda a inovação tecnológica.