29/08/2026
INANNA: A DEUSA QUE DESCEU AO SUBMUNDO
Hoje eu quero falar de uma figura que considero fascinante justamente porque ela não cabe naquela imagem confortável de uma “deusa do amor”.
Inanna é muito maior do que isso.
Na antiga tradição suméria, Inanna está associada ao amor, ao desejo e à sexualidade, mas também ao poder, à soberania e à guerra.
Ela não representa apenas aquilo que é agradável.
Ela também representa aquilo que exige coragem.
E talvez seja por isso que uma das histórias mais conhecidas sobre ela seja justamente uma descida.
🌑 A Descida de Inanna ao Submundo.
Inanna decide entrar no reino de sua irmã, Ereshkigal, soberana do mundo dos mortos.
Para chegar até lá, precisa atravessar sete portões.
Em cada portão, um de seus atributos é retirado.
Coroa.
Joias.
Vestimentas.
Objetos que representavam sua posição e seu poder.
A cada passagem, Inanna f**a mais despojada daquilo que, no mundo de cima, ajudava a definir quem ela era.
Até chegar ao submundo.
E lá está Ereshkigal.
Não uma vilã de história infantil.
Mas uma soberana com seu próprio domínio.
O encontro entre as duas leva Inanna à morte e, posteriormente, ao processo que possibilita seu retorno.
Mas voltar não signif**a simplesmente apagar o que aconteceu.
Existe uma consequência.
Existe uma transformação.
E é justamente aqui que eu gosto de parar e pensar.
Porque nós também atravessamos nossos próprios portões.
Às vezes perdemos um relacionamento.
Um trabalho.
Uma identidade.
Uma certeza.
Uma versão de nós que acreditávamos que seria permanente.
E, quando aquilo que nos sustentava desaparece, podemos sentir que perdemos quem somos.
Mas talvez algumas coisas precisem ser retiradas para que descubramos quem somos sem elas.
🌹 E aqui faço uma distinção importante.
Quando eu falo que os sete portões representam “sete etapas psicológicas de transformação”, isso é uma interpretação simbólica contemporânea.
Não estou dizendo que os antigos sumérios escreveram o mito pensando exatamente nessa leitura.
O que temos é o mito.
A interpretação é nossa.
E respeitar essa diferença também é respeitar a história.
Isso é algo que eu considero essencial quando falamos de espiritualidade, magia e tradições antigas:
não precisamos inventar uma origem para tornar um símbolo poderoso.
A história que já existe é poderosa o suficiente.
🔥 Inanna nos oferece uma imagem que atravessou milhares de anos:
Uma mulher que entra em um lugar desconhecido.
Que perde seus símbolos externos.
Que enfrenta aquilo que está abaixo da superfície.
Que passa pela morte.
E que retorna.
Não necessariamente igual.
Transformada.
E talvez seja essa a parte que mais conversa comigo.
Porque existe uma romantização enorme sobre transformação.
As pessoas querem falar do renascimento.
Mas quase ninguém gosta de falar da parte anterior.
A parte em que você não sabe quem é.
A parte em que tudo parece ter desmoronado.
A parte em que você precisa deixar alguma coisa morrer sem saber ainda o que vai nascer no lugar.
Essa é a descida.
🌑 E nem toda descida é fracasso.
Às vezes, é iniciação.
Às vezes, é confronto.
Às vezes, é simplesmente a vida obrigando você a olhar para aquilo que vinha evitando.
E quando você finalmente atravessa?
Você pode até recuperar algumas coisas.
Mas talvez não queira mais recuperar todas.
Porque depois de conhecer determinadas verdades, algumas versões antigas simplesmente deixam de servir.
🌹 Então, se hoje você está atravessando uma fase estranha, confusa ou silenciosa, não tenha tanta pressa de chamar isso de fim.
Talvez você esteja apenas atravessando um dos seus portões.
E talvez ainda não consiga enxergar quem estará esperando por você do outro lado.
Não tenha medo da mulher que pode nascer depois dessa travessia.
Ela pode ser muito diferente daquela que entrou.
Mais consciente.
Mais inteira.
Mais soberana.
Mais livre.
E talvez, quando olhar para trás, você finalmente entenda:
não era o fim da sua história.
Era a descida.
E algumas das mulheres mais poderosas que podemos nos tornar nascem justamente depois dela.
🔥 Essa é a fala da Bruxa de hoje.
Não romantize o sofrimento.
Não procure dor para se transformar.
Mas, quando a vida inevitavelmente colocar você diante de uma travessia, não pense automaticamente que perdeu tudo.
Talvez você esteja descobrindo o que realmente é seu quando todo o resto cai.
Jenni d’Oya — A Bruxa de Pandora 🌹🌑✨