03/09/2025
Por que estamos perdendo jovens para a fé reformada?
Hoje observo dois fenômenos no movimento pentecostal em Angola:
1. Tentativas de calvinizar igrejas pentecostais;
2. O crescente número de jovens que migram do pentecostalismo para a fé reformada;
Por agora, vou me dedicar a falar sobre a migração dos jovens pentecostais a fé reformada. Mas antes, quero deixar claro duas coisas:
- Embora não seja um reformado, tenho grande respeito pelos irmãos dessa tradição. Apesar das divergências tenho eles como irmãos em Cristo, tanto que compartilho com muitos deles a minha jornada na fé.
- Quando falo de pentecostalismo/pentecostal, entenda como uma referência ao pentecostalismo Assembleano (ADP) . Não tenho contacto com outras denominações/vertentes pentecostais angolanas, por isso não me proponho a falar delas.
Dito isso, vamos ao que interessa. Por que estamos perdendo jovens para a fé reformada ?
Bom, são muitas as respostas que poderia colocar aqui, mas vou me dedicar em falar de três potenciais motivos.
1. Teologia
Não existe uma teologia sólida em grande parte das igrejas pentecostais em Angola. O jovem que deseja aprender mais sobre doutrina e Bíblia quase nunca encontra referências locais e, por isso, sua primeira opção é sempre a internet. Lá, é inevitável encontrar teólogos reformados, afinal, eles fazem melhor proveito do mundo digital. Eu sei que você dirá: também existem teólogos pentecostais na internet. Sim, mas aqui surge algumas perguntas:
- Por que a primeira opção é a internet e não o pastor da sua igreja?
- Por que o jovem não pensa em algum teólogo pentecostal da sua comunidade?
- Onde andam nossos teólogos? Como está a nossa produção acadêmica e pastoral?
É fato: a internet oferece tanto conteúdo reformado quanto pentecostal. Mas os reformados souberam aproveitar muito melhor o mundo digital para expandir sua fé. Enquanto isso, nós ficamos quase invisíveis nesse espaço.
Outro ponto grave é que boa parte dos jovens nem sabe que existe uma teologia pentecostal. E aqui eu digo que, dizer que na internet também tem teologia pentecostal não resolve a coisa. Que existe, existe. Mas vocês recomendam teólogos pentecostais? Blog? Algum canal do YouTube ? Não.
São poucos os jovens pentecostais que conhecem nomes como Roger Stronstad, Robert Menzies, Anthony D. Palma, Gordon Fee, Gutierres, Alcino Júnior, César Moisés… e quando conhecem, foi porque ouviram/viram fora da sua igreja local.
É estranho que jovens pentecostais conheçam mais teólogos reformados do que pentecostais.
Outra coisa, não temos conferências sobre Teologia Pentecostal, quase não falamos dessas coisas em nossas comunidades. Ano após ano, repetimos os mesmos temas superficiais, conferência “Ana e Penina”, “Derrote seu gigante”, “Semeie sua vitória”.
Enquanto isso, do outro lado, conferências como a Fiel (reformada) apresentam teologia profunda, exegese séria e literatura abundante.
Resultado? Você já sabe.
2. Pregação
Sejamos honestos, a pregação pentecostal em muitos contextos está desgastada. Grande parte dos sermões se resume a:
Frases de efeito
Gritaria
Espetáculo
Duplos sentidos e trocadilhos apresentados como se fossem revelação profunda.
Há uma debilidade exegética clara. Muitos pregadores não se preparam adequadamente e se apoiam na frase “O Espírito vai falar”. Meus irmãos, a inspiração do Espírito não anula a necessidade de estudo. O mesmo Espírito que revela é o que nos manda manejar bem a Palavra da verdade (2Tm 2:15).
Não podemos esperar muito de um pregador que prepara o sermão às 23h de sábado para pregar às 10h de domingo. Esse pregador não pode esperar pregar com a mesma seriedade de um Hernandes Dias Lopes que dedica horas ao estudo fiel da Palavra.
E aqui surge mais algumas perguntas:
Por que não temos mestres preparados?
Por que não levantamos bons pregadores?
Por que chamamos de bom pregador aquele que grita frases de efeito?
Enquanto isso, quando nossos jovens entram no YouTube para ouvir pregação, quem aparece? Paul Washer, Spurgeon, Augustus Nicodemus, Heber Campos, Franklin Ferreira… todos reformados.
Não é pecado ouvi-los. A questão é: por que eles têm essa autoridade no imaginário do jovem e vocês não?
3. A falta de identidade
Outro ponto crítico é a crise de identidade pentecostal. Descobri a riqueza da identidade pentecostal não dentro da minha igreja local, mas quando tive contacto com autores como Gutierres Siqueira ( que nem é angolano) e mais tarde com o pastor Israel Miranda ( que é uma excessão ). O preocupante é que ele não deveria ser exceção, mas é.
Para muitos jovens, falar em identidade pentecostal soa estranho, porque nunca ouviram falar. Nossa declaração de fé diz uma coisa, mas na prática das igrejas locais encontramos outra. Em algumas congregações o culto parece mais neopentecostal do que outra coisa.
Essa diluição gera confusão. Afinal, o que significa ser pentecostal hoje?
No meio dessa confusão toda não se sabe o que é ser pentecostal.
Perdemos jovens para a fé reformada porque faltam respostas internas. Precisamos reconhecer nossas fragilidades:
Não temos presença teológica relevante
Nossos púlpitos carecem de seriedade exegética
E nossa identidade está em crise.
A migração sempre vai existir, mas poderia ser menor se oferecêssemos aos jovens um espaço onde pensar a fé fosse tão valorizado quanto vivê-la.
Porque no fim das contas a juventude pentecostal não quer apenas fogo, ela também quer fundamento.
Temístocles Carvalho