10/08/2026
QUANDO UMA IGREJA NOS ENSINA PELO EXEMPLO: O caso IEIA Piloto, no Bié
Moniz Sebastião
As placas nas fachadas das igrejas deveriam servir apenas para indicar a localização. Em teoria, todos adoramos o mesmo Deus, seguimos a mesma Bíblia e professamos a mesma fé. As diferenças doutrinárias existem, mas nunca deveriam ser tão grandes a ponto de impedir a comunhão, o respeito e a aprendizagem mútua entre irmãos.
A minha formação cristã é baptista, na IEBA (Igreja Evangélica Baptista de Angola), igreja onde fui conduzido pelos meus tutores desde muito cedo. Contudo, ao longo da vida, Deus permitiu-me conhecer outras comunidades. Enquanto estudava no Sumbe, província do Kwanza-Sul, congreguei na Convenção Baptista de Angola, depois na Igreja Metodista Unida, na Igreja Presbiteriana e na Assembleia de Deus Pentecostal.
Mais tarde, quando fui trabalhar no Cuito, província do Bié, tornei-me membro em plena comunhão da Igreja Evangélica dos Irmãos de Angola (IEIA), mediante transferência assinada pelo meu pastor da IEBA. Ali servi também na equipa de pregadores.
Foi uma experiência que me marcou profundamente. Não apenas pelas mensagens, mas, sobretudo, pela forma como aquela igreja vive o Evangelho no dia a dia.
A comunidade do Bairro Piloto nasceu em 22 de Setembro de 2009 a partir de um pequeno trabalho com cerca de vinte crianças, iniciado pelo Pr. Hermenegildo Pinto e pela sua esposa, Cristina Pinto. O propósito era claro: fazer discípulos numa geração globalizada, ser uma igreja relevante no contexto urbano, plantar novas igrejas e investir em missões. Hoje tem oito pastores efectivos, sustenta missionários, controla cerca de 1300 almas em células, que chamam GD ( grupos de crescimento) e já autonomizou várias congregações e continua a expandir a obra.
O que mais me impressionou, porém, foi o ambiente de verdadeira fraternidade.
Ali, o serviço não depende de títulos. Qualquer membro em plena comunhão, reconhecido pelo seu bom testemunho, pode servir na liturgia, ministrar a Palavra ou servir a Ceia do Senhor. As grandes decisões não pertencem a um pequeno grupo de líderes; são tomadas pela assembleia da igreja. Cada irmão tem voz, responsabilidade e participação.
Essa abertura também se manifesta na relação com outras igrejas.
Todos os anos, a comunidade realiza congressos e convida irmãos de diferentes igrejas irmãs para integrarem o painel de prelectores. E há um detalhe que considero particularmente bonito: não é necessário ser pastor para ser convidado. O que parece contar é o testemunho, a experiência e a contribuição que a pessoa pode oferecer ao corpo de Cristo.
Eu próprio tive o privilégio de ser prelector num desses congressos, assim como o Pr. António Kilandani. São encontros profundamente abençoados, nos quais as fronteiras denominacionais parecem perder importância diante daquilo que nos une: Cristo, a Palavra e a missão.
Outro aspecto digno de destaque é a transparência financeira.
No início de cada ano, a igreja aprova o seu orçamento. No último ano em que participei, o alvo estava fixado em 42.000.000 de kwanzas. Todos os domingos, antes do encerramento do culto, são apresentados em tela os valores arrecadados em ofertas e dízimos, o total acumulado, o objectivo anual e a percentagem já alcançada. É uma prática rara na maior parte das igrejas que conheço.
Curiosamente, durante os quatro anos em que ali congreguei, nunca ouvi um sermão centrado em dinheiro. Nunca ouvi alguém da liderança fazer um apelo por algum tipo de contribuição financeira. Nem um.
Isso intrigava-me. Como podia uma igreja falar tão pouco sobre finanças e, ao mesmo tempo, ver longas filas de irmãos entregando voluntariamente os seus dízimos na tesouraria, e não no balaio?
Sim, durante o culto de celebração existem dois balaios, apenas para tornar mais célere o momento da oferta. Os dízimos, porém, são entregues directamente na tesouraria da igreja.
Nunca perguntei qual era o segredo dessa entrega dos fiéis. Até hoje continuo sem uma resposta definitiva. Mas suspeito que a confiança, a transparência, a oração e o testemunho da liderança falam mais alto do que qualquer campanha de arrecadação.
Também me chamou a atenção o facto de os pastores exercerem profissões seculares, recebendo apenas um subsídio para despesas ministeriais. Nenhum deles recebe salário da igreja. E mais: nem todos os pastores pregam com regularidade nos cultos de celebração. Cada um assume uma área específica — famílias, aconselhamento, discipulado, intercessão, Escola Bíblica Dominical, missões, entre outras — compreendendo que o pastorado é um serviço e não um privilégio.
Até a disposição das cadeiras comunica uma mensagem. Não existem lugares reservados para líderes ou pessoas importantes. O pastor principal pode sentar-se ao lado de alguém que entra pela primeira vez num templo. Ali, a autoridade não se afirma pela distância, mas pela proximidade.
O Pr. Hermenegildo Pinto, fundador da comunidade, nunca cultivou uma imagem de protagonismo. Sempre o vi como um irmão mais velho, disponível para aconselhar, ouvir e servir. É doutorado em Linguística, docente universitário e autor de diversas obras, mas nada disso o afastou das pessoas. Continua simples, acessível e próximo — daqueles líderes que, como se costuma dizer, "cheiram a ovelhas".
Não escrevo estas linhas para estabelecer comparações nem para afirmar que existe um único modelo de igreja. Cada comunidade tem a sua identidade e a sua forma de organização.
Partilho esta experiência porque acredito que boas práticas merecem ser conhecidas. Quando encontramos comunidades marcadas pela humildade, pela participação, pela transparência, pela abertura e pelo serviço, devemos celebrá-las e permitir que inspirem outras.
No fim de contas, a igreja torna-se mais parecida com Cristo quando o poder dá lugar ao serviço, quando os títulos cedem espaço ao testemunho, quando as paredes denominacionais não nos impedem de reconhecer irmãos e quando a autoridade é exercida com simplicidade, amor e integridade.
Talvez seja esta uma das maiores lições que aquela pequena comunidade do Bairro Piloto me deixou: podemos ser diferentes na forma de organizar a igreja sem sermos diferentes naquilo que realmente importa — servir a Cristo e uns aos outros.