23/09/2026
NÃO SOMOS SANTOS. SOMOS PAIS E MÃES NO SANTO.
Hoje não vou falar de Orixás, fundamentos ou rituais.
Hoje vou falar de uma coisa que muita gente esquece:
Quem está do outro lado também é gente.
Pai no Santo e Mãe no Santo não são máquinas espirituais.
Não existem para atender caprichos, alimentar egos, apagar incêndios emocionais a toda a hora ou resolver aquilo que cada um se recusa a enfrentar na própria vida.
Também temos família. Também temos contas. Também temos problemas.
Também nos cansamos. Também adoecemos. Também precisamos de silêncio.
E sim, também existem dias em que nós próprios não sabemos muito bem como resolver a nossa vida.
A diferença é que, muitas vezes, mesmo nesses dias, continuamos a ouvir, orientar, cuidar e segurar quem nos procura.
Mas convém deixar uma coisa muito clara:
entrega espiritual não é servidão.
FILHO É FILHO. NÃO EXISTEM FAVORITOS.
Quem oferece mais não compra lugar.
Quem liga mais não ganha preferência.
Quem está há mais anos na casa não se torna superior.
Quem é mais próximo não passa a mandar nos outros.
E quem conhece mais da vida pessoal dos dirigentes não recebeu um título secreto dentro do terreiro.
Proximidade não é estatuto.
Aliás, quem está mais perto deveria ter ainda mais humildade. Mais discrição.
Mais responsabilidade. E muito menos necessidade de mostrar aos outros que “tem mais confiança”.
Porque, quando alguém precisa de provar constantemente que está mais próximo, talvez o problema não seja espiritual. Talvez seja ego. E ego também se trabalha.
NÃO CONFUNDAM CARINHO COM CUMPLICIDADE
Pai e Mãe no Santo não existem para dizer sempre “sim”.
Nem para validar tudo.
Nem para bater palmas a comportamentos errados
só para não perder a simpatia de alguém. Às vezes cuidar é abraçar.
Mas outras vezes cuidar é dizer:
“Não. Aqui estás errado.”
E quem só aceita orientação quando ela confirma aquilo que já queria ouvir talvez não esteja à procura de direção espiritual.
Talvez esteja apenas à procura de alguém que lhe dê razão. São coisas bem diferentes.
NEM TUDO É URGÊNCIA
Há quem ache que, por ter o número de telefone de um Pai ou de uma Mãe no Santo, ganhou acesso ilimitado 24 horas por dia.
Não ganhou. Uma verdadeira emergência é atendida. Uma necessidade séria é acolhida.
Mas ciúmes, intrigas, disputas, indiretas, carências constantes e dramas repetidos não são automaticamente urgências espirituais.
Nem tudo o que incomoda é demanda.
Nem tudo o que dói é feitiço.
Nem tudo o que corre mal precisa de intervenção espiritual.
Às vezes o que é preciso é maturidade. Às vezes é responsabilidade.
Às vezes é parar de culpar o mundo espiritual por escolhas muito humanas.
E talvez esta seja uma das verdades mais difíceis de ouvir.
VENHO DE UM TEMPO EM QUE O TRABALHO NÃO PRECISAVA DE PALCO
Vi Pais e Mães no Santo levantarem-se de madrugada para procurar folhas.
Vi banhos serem preparados durante horas.
Vi oração, fundamento, cuidado e dedicação feitos no silêncio.
Sem fotografias. Sem vídeos. Sem publicações. Sem aplausos.
O filho muitas vezes nem sabia o trabalho que existia por trás daquilo que recebia.
E ninguém precisava de anunciar: “Olhem tudo o que fiz por vocês.”
Fazia-se. Porque era esse o compromisso.
Hoje parece que, se não foi fotografado, publicado ou comentado, quase não aconteceu.
Eu continuo a acreditar no contrário.
Muito do verdadeiro trabalho espiritual acontece precisamente onde ninguém vê.
NÃO NOS COLOQUEM NUM PEDESTAL
Também não queremos ser adorados. Um dirigente espiritual não precisa de fãs. Precisa de filhos conscientes.
Não precisamos de pessoas a disputar quem está mais próximo.
Nem de frases como:
“Ela fala mais comigo.”
“Eu sei coisas que vocês não sabem.”
“Eu estou mais dentro da casa.”
Isso não demonstra evolução. Demonstra necessidade de importância.
E uma casa espiritual não deveria ser um concurso de proximidade.
Quem precisa de estatuto talvez ainda não tenha percebido o sentido de servir.
TAMBÉM NÃO SOMOS PROPRIEDADE DE NINGUÉM
Podemos ter amizade. Podemos jantar juntos. Podemos rir.
Podemos conhecer alguém há vinte anos e outra pessoa há seis meses.
Mas, quando chega o momento da direção, existe uma fronteira que tem de ser respeitada.
A amizade não pode mandar na direção.
Porque, se para manter uma amizade eu tiver de deixar de corrigir, orientar ou colocar limites, então já não estou a dirigir. Estou a agradar.
E agradar a todos nunca foi sinónimo de conduzir bem uma casa.
POR TRÁS DO TÍTULO EXISTE UMA PESSOA
Uma pessoa que também precisa de descanso. Que também precisa de carinho.
Que também gosta de receber uma mensagem que não venha acompanhada de um problema para resolver.
Que também gosta que lhe perguntem:
“Estás bem?”
Sem que, dez segundos depois, venha um pedido.
Também erramos. Também aprendemos. Também temos limites. Também temos dias maus.
Também precisamos de ser tratados como seres humanos.
Não somos santos.
Somos Pais e Mães no Santo.
E talvez a palavra mais importante seja mesmo:
PAI.
MÃE.
Porque um verdadeiro pai e uma verdadeira mãe não criam filhos eternamente dependentes.
Criam filhos para crescer. Para pensar. Para assumir responsabilidades.
Para cair e levantar-se. Para fazer escolhas. Para construir carácter.
Para aprender a caminhar sem precisar permanentemente de alguém a segurar-lhe a mão.
E talvez uma das maiores vitórias de um dirigente espiritual seja olhar para um filho e pensar:
“Já não precisa de mim para tudo. Cresceu.”
Isso não é perder um filho. É sim cumprir a missão.
E digo isto com paz:
NÃO QUERO FILHOS PRESOS À MINHA MÃO. QUERO FILHOS FIRMES NO PRÓPRIO CAMINHO.
Sou profundamente abençoada pela Casa que construímos todos os dias.
Uma casa forte não se constrói com dependência, favoritismo, ego ou rivalidades.
Constrói-se sim com:
Verdade, Humildade, Responsabilidade, Respeito e Muito AXÉ.
Mãe Ainél de Yemanjá 📿🔥