24/07/2026
Quando um "não" pode ser o princípio de um "sim"
Nestes dias de inscrições e renovações da catequese para o próximo ano pastoral, decidi acrescentar duas perguntas muito simples aos formulários das minhas paróquias.
A primeira: "Estaria interessado(a) em participar, uma vez por mês, numa formação cristã para pais?"
A segunda: "Estaria disponível para exercer algum serviço na comunidade?"
Quando comecei a ler as respostas, confesso que fiquei muito tempo em silêncio. A grande maioria respondeu: não.
Não à formação. Não ao serviço.
Durante alguns instantes, foi inevitável pensar que continuamos a pedir muito à Igreja, mas poucos querem sentir-se Igreja. Que muitos desejam a catequese para os filhos, mas não encontram tempo para alimentar a própria fé. Como se fosse possível ensinar uma criança a amar Jesus sem que ela veja esse amor acontecer dentro de casa.
Mas depois percebi que tinha diante de mim uma escolha.
Podia lamentar-me. Podia transformar as palavras em queixas. Podia tornar-me um "catador de lixo", recolhendo apenas aquilo que falta. Ou podia acreditar que cada "não" esconde uma história, um cansaço, uma desilusão, uma fé adormecida ou, simplesmente, alguém que nunca foi verdadeiramente convidado.
Recuso-me a desistir de sonhar com uma Igreja onde todos se sintam parte. Não uma Igreja de consumidores de sacramentos, mas de discípulos que caminham juntos.
A catequese não pode ser apenas um compromisso social ou uma etapa do crescimento dos filhos. É uma oportunidade única para anunciar novamente o Evangelho aos pais. Talvez sejam eles os primeiros a precisar de reencontrar Cristo.
Talvez tenhamos de mudar menos as pessoas e mais a forma como as acolhemos. Em vez de reuniões administrativas, criar encontros que toquem a vida. Em vez de apenas pedir ajuda, oferecer primeiro pertença. Em vez de esperar colaboradores, formar discípulos. Talvez a catequese dos filhos seja, afinal, a porta que Deus escolheu para voltar a bater ao coração dos pais.
A Igreja do futuro não será construída apenas por catequistas, sacerdotes ou movimentos. Será construída por famílias que descobrem que a fé não se delega: vive-se, celebra-se e transmite-se.
E eu continuo a acreditar que um dia muitos destes "nãos" se transformarão num grande "sim". Porque Deus nunca desiste de bater à porta. E nós também não deveríamos desistir.
Foto: Hugo Delgado, in Presépio ao Vivo de Priscos