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Página criada apenas para o Estudo e discussão de assuntos relacionados com Judaísmo e sua aprendizagem; não são permitidas publicações de contexto ou natureza política .

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23/01/2026

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24/12/2025

PARASHAT VAIGASH – Livro BERESH*T (Gênesis) 44:18-47:27
HAFTARÁ (LEITURA DOS PROFETAS) – EZEQUIEL 37:15-28

José se revela a seus irmãos, 1817. Peter von Cornelius, pintura.

QUEM SOMOS NÓS?
Em Gênesis 14:13, lemos sobre Abraão, o hebreu, HaE’vri, Abraão que veio do oeste! Seu clã nômade era chamado de hebreus, mas esse é um termo que se aplica somente aos tempos bíblicos. No início do livro de Êxodo, encontramos o termo B’nei Israel, os filhos de Israel, ou israelitas, o povo que foi escravizado pelo Faraó, mas que, por fim, foi libertado para experimentar o Sinai e receber a Torá. Essa é uma expressão bíblica que não é usada após o início da Diáspora em 70 d.C. Não é surpreendente que Abraão e Jacó influenciem o que somos chamados, mas não há nada que nos ligue a Moisés, o líder e profeta bíblico mais signif**ativo que conheceu a Deus ‘face a face’ e nos conduziu da escravidão à liberdade.
Muitos historiadores associam os judeus à tribo de Judá, que vivia no território bíblico do Sul, chamado Judeia. Assim como os I’vrim (hebreus) e os B’nei Israel (israelitas), nosso nome pode ter sido determinado pela antiga língua bíblica. Mas eu gostaria de pedir que reservássemos um tempo para olhar além dessa influência e considerarmos o homem chamado Iehuda/Judá, um dos 12 filhos de Jacó. A porção da Torá desta semana nos oferece uma profunda lição de ética que acredito explicar por que somos chamados de judeus!
A Parashat Vaigash em Beresh*t é uma das narrativas mais dramáticas de toda a Bíblia Hebraica. Todos os filhos de Jacó – os B’nei Israel – estão no Egito buscando alimento durante a fome.
José é o Grão-Vizir do Faraó, mas seus irmãos não sabem quem ele é, mesmo enquanto ele tenta manter Benjamim no Egito. Iehuda/Judá, inesperadamente, se adianta – se aproxima de José – Vaigash, para proteger seu irmão e pai ! Judá aceita o risco de ultrapassar o limite — de f**ar sozinho para assumir a responsabilidade pela vulnerabilidade de seu irmão mais novo e de seu pai idoso.
A porção da Torá começa com uma frase simples, mas profunda: “Judá se aproximou e disse…”. O mundo antigo não tinha filósofos como Buber e Levinas ensinando ética e o risco de um diálogo real, mas nossa Torá descreve essa experiência familiar única entre irmãos! O ato de Judá leva José a mandar embora todos os servos, e José chora e pergunta: “Eu sou José. Meu pai ainda está bem?” O impulso ético inesperado de Judá literalmente retrocedeu o tempo; o irmão vendido como escravo agora está em um trono de poder, perguntando sobre seu pai, Jacó.
Ensino que somos chamados judeus por causa de Judá, o irmão que quebrou o silêncio do passado e se arriscou a chegar perto da fonte do medo, protegendo os vulneráveis. Judá, que não é o primogênito, Judá, que sugeriu vender José em vez de abandoná-lo em um poço. Novamente, Judá intervém e muda o destino de sua família e do nosso povo. Não somos meramente nomeados em homenagem a uma antiga tribo bíblica ou àqueles que por acaso viviam em uma área chamada Judeia, mas sim carregamos um nome que ilumina a sensibilidade ética de saber quando arriscar e avançar, não importam os riscos.
Judá conta a história de sua família, concluindo com a ligação única entre Benjamim e seu pai: "Pois como poderei voltar para meu pai se o menino não estiver comigo? Que eu não seja testemunha da desgraça que sobrevirá a meu pai!" [Gênesis 44:34] Judá assume a responsabilidade tanto por seu irmão quanto por seu pai, um momento de coragem ética que revela o segredo que José vinha guardando.
Os judeus podem ser mais definidos histórica e textualmente por palavras e mapas antigos, mas esta única frase na Torá, Vaigash, "E ele se aproximou e falou…", é o legado moral que sempre motiva minha identidade. Hoje, em meio a tanta indiferença polarizada e insensível, oro para que os judeus encontrem a força para serem como Judá e afastem os medos e o caos, lembrem-se da história que nos define e se aproximem para explicar que entendemos nossa responsabilidade para com os vulneráveis e não recuaremos diante das ameaças do poder.

Shabat Shalom!
Rabino Joseph Edelheit
ARI Assoc. Religiosa Israelita

27/01/2025

SE ISTO É UM
Vós que viveis tranquilos
Nas vossas casa aquecidas,
Vós que encontrais regressando à noite
Comida quente e rostos amigos:
Considerai se isto é um homem
Quem trabalha na lama
Quem não conhece paz
Quem luta por meio pão
Quem morre por um sim ou por um não
Considerai se isto é uma mulher,
Sem cabelos e sem nome
Sem mais força para recordar
Vazios os olhos e frio o regaço
Como uma rã no inverno.
Meditai que isto aconteceu:
Recomendo-vos estas palavras.
Esculpi-as no vosso coração
Estando em casa andando pela rua,
Ao deitar-vos e ao levantar-vos;
Repeti-as aos vossos filhos.
Ou então que desmorone a vossa casa,
Que a doença vos entreve.
Que os vossos filhos vos virem a cara.
PRIMO LEVI
Químico, escritor e sobrevivente da SHOA

18/12/2024

PARASHAT VAYESHEV – LIVRO BERESH*T(Gênesis) 37:1 – 40:23
Nesta semana lemos a parashat Vayeshev, que narra a história de Iossef (Joseph), filho de
Iaacov (Israel), o último dos 3 patriarcas da Torá. A Torá revela que Iossef era o filho
preferido, e, por isso, despertava ciúmes nos irmãos. Na passagem, Iossef conta a eles que
sonhou que seriam seus servos, despertando, além dos ciúmes, grande ira. Diante disso, os
irmãos resolvem jogá-lo no poço e vendê-lo como escravo para o Egito.
Segundo a parashá, tudo o que Iossef fazia era abençoado, o que lhe rendeu alto posto na
casa de seu “dono”, enquanto servia como escravo a Potifar, chefe da guarda do faraó. No
entanto, o destino estava prestes a mudar novamente, quando a esposa de Potifar acusa
Iossef de violentá-la, depois que ele se recusa a deitar-se com ela. Iossef é preso. Ele, então,
reergue-se uma vez mais, conquistando os presos e tornando-se chefe da prisão.
A parashá se conecta totalmente com as nossas vidas e com as dificuldades pelas quais
passamos. Nós também nascemos nas casas de nossos pais onde somos amados. Mas a
vida é cheia de desafios que nos jogam no fundo do poço, nos mandam para longe, para os
porões escuros nos quais a mente humana pode habitar. Iossef, contudo, é um exemplo de
como devemos nos portar!
Na liturgia judaica, os homens são chamados pelo seu nome seguido de “filho de". Assim,
Iossef é “Iossef ben Iaacov (Israel)”. Israel, aquele que lutou com Deus e venceu. Aquele
que enfrentou a força mais poderosa que existe e venceu, perseverou, seguiu e continuou
no caminho de bondade e da luz. O povo judeu também é chamado de "Bnei Israel", filhos
de Israel. E assim como Iossef, passamos por momentos sombrios como indivíduos e,
principalmente, como povo.
Desde o início da nossa história, lidamos com adversidades e eventos que ainda nos
assombram. Episódios como o 7 de outubro e as manifestações antissemitas mundo afora
seguem tentando nos jogar no poço. Querem nos mandar para longe, nos dividir. Mas os

filhos de Israel aprenderam com Iossef uma lição extremamente valiosa: vamos lutar! Vamos
nos reerguer e vencer! Diariamente manteremos nossas lutas internas e contra aqueles que
tentam nos destruir. E vamos perseverar, sempre no caminho da bondade, da “tzedek”, da
justiça e da luz.
Am Israel Chai. O povo de Israel vive! E o povo de Israel continuará vivendo enquanto
incorporarmos, todos os dias, um pouco de Iossef nas nossas vidas.
Shabat Shalom
Alan e Alessandra Sauberman
ARI NEWS

21/11/2024

PARASHAT CHAIEI SARA /
(Reis) 1:1-31
ONDE SEPULTAR SARA
A Parashat Chaiei Sara começa com o falecimento de Sara, nossa primeira
matriarca, e termina com a morte de Avraham, nosso primeiro patriarca.
A parashá narra episódios marcantes, como a história do casamento de Rivka
com Itzhak e a forma como Avraham concebeu e encomendou a seu servo
Eliezer a missão de encontrar uma esposa para seu filho primogênito.
Mas, curiosamente, o trecho da parashá ao qual a Torá dedica mais tempo,
descrevendo em minuciosos detalhes, é aquele em que Avraham negocia e
compra o pedaço de terra que ele escolheu para enterrar sua esposa e que,
futuramente, será ele mesmo enterrado, assim como seus descendentes: a
caverna de Machpelah.
Essa imagem chama atenção por alguns aspectos.
O nômade Avraham, acostumado a dormir em tendas e ter uma vida itinerante,
determina assertivamente o local de enterro de sua família, numa narrativa com
rara riqueza de detalhes. Esse paradoxo não parece um detalhe menor.
Por que Avraham escolheu aquele local? Qual teria sido a sua motivação em
determinar com tamanha precisão o local de sepultamento de sua esposa, a
ponto de pagar caro por ele após extensa negociação com os Hititas?
Difícil ter a dimensão precisa de suas motivações, mas quando pensamos nos
diálogos prévios de Deus com Avraham e em Suas conversas de terra
prometida, observamos que pela primeira vez Avraham estaria criando uma
verdadeira conexão com aquele lugar fazendo com que esse episódio seja um
dos marcos inaugurais da relação do povo judeu com aquele pedaço de terra,
dando início à sua verdadeira saga.
Além disso, destaca-se que a Torá privilegia o tema da escolha do local e o modo
quase servil com que Avraham se dirige aos Hititas (mesmo sendo chamado por
eles de Príncipe de Deus) ao invés de tecer comentários a qualidades e atributos
sobre a vida de Sara, ou mesmo sobre o ritual do enterro judaico, uma vez que
morria ali a primeira judia da História.
As cavernas de Machpelah se encontram em um local amplamente conhecido
(atualmente, elas não fazem parte do moderno Estado de Israel) servindo como
evidência da histórica conexão dos judeus como povo originário daquela região.
Que as palavras da Torá inspirem os homens na busca por sabedoria para
trazermos a paz e nossos reféns de volta.
Shabat Shalom,
Bruno Gottlieb
Ari news

07/11/2024

PARASHAT: L**H L**HA/ LIVRO BERESH*T (Gênesis) 12:1-17:27
HAFTARÁ (Leitura dos Profetas): YESHAYAHU (Isaías) 40:27-41:16

L**H L**HÁ, “VÁ POR SI MESMO”
Aqui começa uma nova dinâmica na narrativa bíblica. Aqui começa a saga de nossos patriarcas e matriarcas, a trajetória de personagens que irão protagonizar seus atos diante de conflitos e dilemas tipicamente… humanos! Aqui são selados um pacto e uma ousada promessa. Mais uma parashá cheia de histórias e temas densos para explorar.
Convocado por Deus, Abrão, como é inicialmente chamado, deixa sua terra para iniciar uma nova dinastia, encarando o desconhecido, levando Lot, seu sobrinho, e Sarai, sua esposa. Diante da fome, o trio e seus acompanhantes descem ao Egito. Com medo de ser morto, Abrão sugere à sua formosa esposa que finja ser sua irmã. Mais tarde, Sarai entrega sua escrava para dar um filho a Abrão, já que ela não consegue engravidar. Marcada pela circuncisão dos homens, uma aliança é travada com Abrão, implicando também na mudança no nome do casal para Sara e Abraão.
São muitos pontos relevantes que podem despertar importantes debates, mas hoje escolho uma pequena passagem para me aprofundar. Abraão levou seu sobrinho Lot para sua jornada ao lado de sua esposa, suas riquezas e as pessoas “que haviam adquirido” (Gên 12:5). Abro parênteses para mencionar que nossos sábios dizem que além dos servos, essas “pessoas adquiridas" eram também pessoas que Sara e Abrão haviam convertido (Beresh*t Rabá 39:14), em meio ao mundo pagão e idólatra em que viviam.
Abrão e Lot se separam por causa da disputa entre seus pastores. Abrão, conhecido como um tsadic, ofereceu ao sobrinho o benefício da escolha de onde se estabeleceria. Lot então escolheu se assentar na fértil planície do Jordão, que por sua vez era habitada por pessoas inescrupulosas. Lá, em meio a uma guerra regional de quatro contra cinco reis, entre eles o rei de Sodoma, Lot é intencionalmente sequestrado, pois, de acordo com o exegeta italiano Sforno, seus algozes sabiam da riqueza de seu tio.
Nosso patriarca então, para surpresa do leitor, promove um ataque surpresa durante a noite, junto com um exército de 318 agregados. Seu time resgata Lot e outros cativos, junto com seus bens que também haviam sido confiscados. É então quando o rei de Sodoma propõe a Abrão que leve os bens e deixe as pessoas, mas Abrão se recusa, e ainda deixa 10% de tudo para o monarca.
Constatamos que a humanidade sempre recorreu a guerras como estratégias de conquistas. As guerras podem mudar de propósito, sofisticar suas armas e migrar de cenário, mas não são invenções recentes. O sequestro de pessoas também sempre foi uma poderosa tática para negociações, e desde o período bíblico, há aqueles que priorizam a vida, e aqueles que priorizam a causa.
Quanto vale uma vida? Quem está disposto a ceder para salvar vidas? Como devemos proceder para o retorno de reféns? Negociar ou lutar? São escolhas, são dilemas. Abrão escolheu lutar.
“Depois disso, a palavra do Eterno chegou a Abrão numa visão, dizendo: ‘Não tenha medo, Abrão, eu estou te dando uma recompensa de presente” (Gênesis 15: 1). Mas Abrão não parecia ter medo, estava vitorioso na batalha, não tinha motivo para medo. Teria ele se arrependido de sua escolha? Quantas vezes o medo ou a insegurança, nos paralisam? O medo pode nos paralisar ou nos impulsionar a atitudes desesperadas que nos desviam de decisões coerentes e conscientes. Ao contrário, a coragem nos fortalece para seguir adiante com confiança. Talvez Deus esteja alertando seu escolhido para que ele “vá por si mesmo” (L**h L**há), mas com planejamento e não impulso.
Independente do julgamento acerca da escolha de Abrão, seu objetivo era salvar vidas. Acredito que nesse quesito, mais do que diante da questão do monoteísmo, podemos lacrar um preceito judaico, talvez abalado no cenário atual:
(Kol Israel arevim zé bezé) שכל ישראל ערבים זה בזה
Todo povo judeu é responsável um pelo outro (Shevuot 39a:22)
O termo do início da Parashá é intrigante e revelador. “L**h lechá" poderia ser apenas “lech” - vá, pois afinal era esse o comando do Eterno - Vá Abrão, leve sua esposa, seu sobrinho e tudo (e todos) que te pertence(m). Mas as palavras têm força. Ao mesmo tempo que essa saga começa com um pequeno núcleo familiar, sabemos que a promessa de uma vasta descendência é cumprida nos próximos capítulos e mantida, apesar de tudo, e contra a vontade de muitos, pelos milênios seguintes.
Nosso primeiro patriarca vai por si e por nós, e assim seguimos. Ir por si não recai apenas em si, respinga no coletivo. Somos responsáveis uns pelos outros, e assim seguimos.
“Se eu não for por mim mesmo, quem será por mim? Mas se for apenas para mim mesmo, o que sou? E se não for agora, quando?” Pirkei Avot 1:14
SHABAT SHALOM,
Sílvia (BILBA) Grinstein
Ari news

01/11/2024

PARASHAT NOACH / LIVRO BERESH*T (Gênesis) 6:9-11:32
HAFTARÁ (Leitura dos Profetas): YESHAYAHU (Isaías) 66:1-24

A INTEGRALIDADE DA CRIAÇÃO
A parashá dessa semana se inicia com Deus instruindo Noach – o único homem justo num mundo devastado pela violência e corrupção – a construir uma grande arca de madeira para que pudesse enfrentar um dilúvio de 40 dias e 40 noites que estaria por vir. As instruções ainda incluem “De tudo o que vive, de toda a carne, levarás dois de cada para a arca, para conservares vivo contigo; macho e fêmea serão.”
Após um ano do dilúvio, quando finalmente a terra está totalmente seca, Deus ordena que Noach deixe a arca e repovoe a Terra. Um altar é construído e sacrifícios são oferecidos a Deus, que por sua vez promete nunca mais destruir toda a humanidade por causa de seus atos. Desse novo pacto, o arco-íris se torna símbolo. A parashá fala ainda da construção da Torre de Babel, fruto da prepotência e vaidade humanas, a que Deus responde confundindo a linguagem do povo e o separando em 70 nações espalhadas pelo mundo.
O texto da Torá fala de um desastre natural de grandes proporções, fruto da ira de Deus, e busca ressaltar a sacralidade da vida. Mas hoje, por outro lado, vivemos um momento em que nossa prepotência e vaidade, além, é claro, da ganância de muitos, nos têm levado a destruir a natureza e a causar, nós mesmos, os desastres naturais que retiram a vida de tantos seres humanos e animais.
A existência de inúmeras espécies da flora e fauna está ameaçada. Hoje, segundo a IUCN (União Internacional para Conservação da Natureza), mais de um milhão de espécies, entre plantas e animais, estão ameaçadas de extinção. Nossa incapacidade de nos compreender e nos respeitar a despeito da diferença de raças, nacionalidades, religiões ou qualquer outro aspecto que possa nos distinguir, tem levado a guerras que só trazem destruição e sofrimento para todos. A desigualdade social tem exposto milhões de pessoas à fome e à insegurança alimentar.
Consumimos os recursos naturais como se fossem infinitos. Agimos como se o mundo e a natureza servissem única e exclusivamente para atender aos nossos interesses momentâneos, como se coubesse a nós estabelecer o valor de cada ser, de cada bioma. Agimos como se também nós não dependêssemos da preservação do planeta para nossa própria sobrevivência.
Mas não é isso que a Torá nos ensina. Cada criatura tem seu valor e um papel único e específico na preservação da vida como um todo. Como lemos em Gênesis, ao final da criação, Deus contemplou sua obra e viu que tudo era bom. Tudo, não apenas o homem. Esse aspecto é ressaltado pelo Rabino Stan Zamek, em comentário sobre a parashá Noach, quando destaca que o pacto de Deus de não trazer novamente a destruição ao mundo se refere a “toda carne”, representando, portanto, um compromisso com a integralidade da Criação.
Mas para que essa Criação permaneça boa e permita a continuidade da vida, é preciso que também o homem assuma seu papel na preservação do meio ambiente, na busca de convivência harmônica entre as diferentes nações, valorize mais o que nos une a todos do que o que nos diferencia, faça sua parte no pacto pela vida e se perceba como mais uma entre as tantas criaturas perfeitas que Deus prometeu a Noach não voltar a destruir, a despeito de nossas falhas.
Desmatamento, queimadas, contaminação de rios e mares, emissões de gases poluentes, mudanças climáticas, fome, guerras talvez sejam os “nossos dilúvios”, aqueles com que nós, os seres humanos, estamos colocando a vida em risco. E estamos f**ando sem tempo para que também nós façamos o pacto pela vida, assumamos o nosso papel na construção de um mundo melhor para todo e qualquer ser vivente, para que possamos parar esses “dilúvios” e, como Deus, reconhecer que toda Sua criação é muito boa e deve ser preservada.
SHABAT SHALOM,
Selma Castilho
ARI NEWS

24/10/2024

PARASHAT BERESH*T – BERESH*T/GÊNESIS 1:1−6:8
HAFTARÁ (LEITURA DOS PROFETAS): IESHAIAHU (ISAÍAS) 42:5-43:10
CANÇÕES, BÊNÇÃOS, BERESH*T → PAZ
Estamos já no ano de 5785 e a noção de continuidade religiosa está expressa até mesmo na forma física da Torá, a nossa também chamada Árvore da Vida: rolos. Assim, em nosso chag de Simchat Torá, lemos Ve Zot Habrachá, última parashá dos rolos e retornamos ao princípio, Beresh*t. A importância deste ato de retorno e de lermos todos os anos as mesmas parashiot é para que estudemos de verdade e para dizermos a nós mesmos: “O que posso aprender desta vez?”
Nosso estudo e, principalmente, nossa sede de aprender, deve ser perpétua, mesmo porque as mensagens contidas nos rolos dependem muito mais de nós mesmos do que dos textos propriamente ditos, nossa interpretação do que lemos. Além de conter a história de nosso povo, estes dois rolos contêm intermináveis lições de moral e ética que devem ser extraídas/relembradas. As lições dadas por nosso mestre maior, Moshé Rabeinu, têm de ser entendidas na sua integridade.
Em Haazinu, Deuteronômio 32:1-52, antepenúltima parashá, temos uma canção de Moshé, um apelo final e um adeus (como explicado pelo Rabino Plaut z´l em “A Torá- Um Comentário Moderno”), uma vez que se aproxima a sua morte. Uma canção cujo foco é Deus e a não idolatria.
Já em Ve Zot Habrachá, bênçãos poeticamente escritas por outrem que não Moshé, porém ditas por ele a cada chefe de tribo, um a um, e cujo foco é Israel, a nação. Assim, e terminando com sua missão de mestre, no final desta parashá, Deut. 34:5-11, Moshé - o grande professor, silenciosamente morre e é enterrado em local desconhecido.
Neste ano que passou, justamente em Simchat Torá, em Israel, sofremos um terrível, indescritível golpe não só aos nossos irmãos, como à humanidade, a civilização como a entendemos. Lições de barbáries indescritíveis não importando quantos infindáveis relatos, fotos, reportagens presenciamos; não há adjetivos suficientes para explicar o horror, apenas inferior aos do holocausto ocorrido durante o nazismo. E uma guerra que me soa interminável em sua essência, pois é alimentada por um ódio estarrecedor ensinado às crianças desde cedo, e um mundo “livre” onde o racismo e o antissemitismo estão enraizados.
Como encontrar co***lo na Torá, na Canção, nas Bênçãos que mencionei acima, nos fatos que vivenciamos neste ano? Esta pergunta está com certeza em muitos corações de nossa gente, assim como no meu. Escrever este pequeno comentário, confesso, foi um desafio muito grande, pois precisava antes de uma resposta a esta pergunta. Uma foto que vi hoje no Jerusalem Post me acordou: no meio dos escombros de Gaza, na porta de uma sucá improvisada, um soldado de kipá com as 4 espécies na mão e um sidur rezando as preces de Sucot. Simples assim, a resposta é, e sempre será, a nossa fé inabalável em nosso Deus, nossa união como povo judeu e nossa resiliência que já nos fizeram vencer tantos Amalek´s que ameaçaram nossa existência em nossa história.
E isto me transporta a Beresh*t, onde lemos sobre a Criação, o Jardim do Éden, Caim e Abel, a Humanidade Primitiva, e quando em Gênesis 6:5-8, Deus se entristeceu e arrependeu-se, conseguiu encontrar Noach para começar tudo de novo. Baseados em nossa fé, vamos acreditar que é possível sim apagar este ódio senão em todos, em suficientes para encontrarmos a paz.
Shabat shalom.
Sergio Wajnberg
ARI NEWS

29/08/2024

HAFTARÁ (LEITURA DOS PROFETAS): IESHAIÁHU (ISAÍAS) 54:11-55:5
PROFETAS E SONHOS
O verbo hebraico “LIROT” literalmente signif**a VER, e assim começa nossa parashá desta semana:
“Veja, neste dia Eu ponho diante de vocês Bênção e maldição; benção, se vocês obedecerem aos mandamentos do Eterno seu Deus que Eu lhes ordeno neste dia; e maldição, se vocês não obedecerem aos mandamentos do Eterno seu Deus, mas se afastarem do que Eu lhes ordeno neste dia e seguirem outros deuses que vocês não vivenciaram.” Deuteronômio 11: 26-28.
“Veja”, aqui então, signif**ando o sentido figurativo deste verbo que é de “prestar máxima atenção”. Trata-se de um momento solene onde Moisés discursa ao povo, antes da entrada na Terra Prometida e antes de sua morte.
Trata-se assim de uma parashá bastante extensa neste sentido que engloba com detalhes, por exemplo, as regras de cashrut, que apesar de não serem seguidas por uma boa parte dos judeus, inegavelmente têm muita importância dentro do judaísmo que resiste ao longo do tempo, apesar da incredulidade destes. Muitas linhas da parashá são voltadas a este tema como a outros também.
Como mencionei, muitos outros temas importantes são aqui orientados, mandatórios, como por exemplo a importância das doações. Mas neste momento, o que mais me chama a atenção é o tema que presumo ser tratado mais resumidamente, porém, sem muitas explicações, mas com uma ordem muito afirmativa devido à sua inegável importância. E, lamentavelmente, apesar desta importância, tão frequentemente esquecida pelo ser humano atual. Refiro-me ao tema dos falsos profetas, dos sonhadores, salvadores da pátria.
Diz a Torá: “Se aparecer entre vocês um profeta ou um adivinhador que lhes der um sinal ou um presságio, dizendo: “Sigamos e sirvamos a outro deus” - que vocês não vivenciaram -, mesmo se o sinal ou presságio a vocês anunciado venha a ser verdade, NÃO DÊEM ouvidos às palavras deste profeta ou adivinhador de sonhos...”Deuteronômio 13:2-4
O alerta aqui é que os falsos profetas/adivinhadores virão, acontecerão, falsos deuses serão criados que não servem para outra coisa a não ser desviar-nos dos caminhos Divinos, causar mal. E não é que vieram e vêm sempre? Mas, não é como a Torá descreve, que eles nos são colocados por Deus mesmo para “testar-nos”, nós mesmos os criamos no nosso dia-a-dia ou deixamos que sejam criados, divulgados e assim influenciam os acontecimentos que vivenciamos.
Que isto sirva-nos de alerta, pois estamos muito perto de eleições importantes, definições políticas em várias partes do mundo que nos são importantes. Nestas ocasiões aparecem muitos “profetas”.
Shabat shalom.
Sergio Wajnberg
ARI NEWS

11/07/2024

PARASHAT CHUKAT – BAMIDBAR/NÚMEROS 19:1−22:1
HAFTARÁ (LEITURA DOS PROFETAS): SHOFTIM (JUÍZES) 11:1-33
Estamos no final do livro de Números – Vaikrá, o povo já está às portas da terra de Israel, chegando ao fim do longo “exílio itinerante” de 40 anos pelo deserto. Os israelitas que saíram do Egito têm, enquanto coletividade, uma mentalidade pouco confiante, e demonstram pouca gratidão pelos óbvios favorecimentos de
Deus durante a epopeia que estão vivendo. A relação com a liderança é ambígua, em certos momentos demonstram grande capacidade de organização e mobilização e em outros fazem exigências de forma exagerada e ostensiva. Levando-se em conta que se trata de um grupo que nasceu na escravidão e está em marcha há quase 40 anos, suas fraquezas são compreensíveis.
Ao longo do livro de Bamidbar foi-se construindo uma organização social dos judeus, mas em momentos de dificuldade, Moisés tem que lidar com as lamúrias e prover soluções quase que por conta própria. Deus já vinha abdicando de agir diretamente em benefício do povo; nas últimas parashiot, Moisés chega a ser obrigado a interceder junto a Deus para amainar a Sua fúria (em Shlach L**há) e tem que lidar com a contestação desmedida e organizada ao seu poder (em Korach).
Agora o povo tem sede e se junta contra Moisés e Arão: “Por que nos trouxe a esse deserto, para nós e nossos animais morrermos (...) se ao menos tivéssemos perecido (...) por que nos fez deixar o Egito para nos trazer a esse lugar miserável?” [Num. 20:4-5]. Moisés e Arão f**am desesperados. O Eterno aparece e ordena que peguem o cajado, reúnam a comunidade e ordenem a rocha a dar água.
A Torá, em tradução para o português, apresenta assim a passagem: “Moisés e Aarão assim o fazem dizendo: ‘Ouçam seus rebeldes, poderemos conseguir água para vocês dessa rocha?’ E Moisés ergueu sua mão e golpeou a rocha duas vezes com seu cajado. E jorrou água abundantemente, e a comunidade e seus animais beberam.” [Num. 20:10-11].
Deus irou-se com a atitude e essa é a explicação para que Moisés e Aarão não adentrem na Terra Prometida. Moisés demonstra insensibilidade ao desespero do
povo. E advoga para si o mérito de fazer o milagre, estaria assim demonstrando um poder que não é deles próprios, mas de Deus. A punição é severa, ambos terão um fim melancólico após terem sido os alicerces da construção de um povo.
Nos momentos críticos f**a claro que mesmo um líder brilhante, em certos momentos, vai errar e decepcionar muita gente. Mesmo que bem-intencionado, até mesmo se estiver ao lado de Deus, será acometido por arrogância e insegurança, como todos os humanos. O povo demanda soluções rápidas e anseia por demonstrações de poder. Por isso o populismo é tão atraente, foi nesse sentido que Moisés agiu. Entregou o mais fácil, resolveu o desejo imediato de maneira espetaculosa e deu a entender que o mérito de resolver as demandas populares era seu.
Tudo muito similar ao que vivemos hoje em todo o mundo, a Torá ensina a importância da cooperação coletiva, a exigir de maneira razoável e a não esperar soluções milagrosas. Com mais Torá teríamos líderes melhores.
Shabat shalom,
Eduardo Londres Pinha
ARI NEWS

13/06/2024

PARASHAT NASSÓ – BAMIDBAR/ NÚMEROS
BIRKAT KOHANIM: A BUSCA PELA PAZ E HARMONIA

A Parashat Nassó, a mais longa das parashiot, integra diversos temas aparentemente desconexos através de um princípio unif**ador: shalom, paz.
Rabi Jonathan Sacks argumenta que cada elemento desta leitura – desde o censo das famílias levitas até a descrição das ofertas dos líderes das tribos de Israel – contribui para a construção de uma vivência em paz, com harmonia e espiritualidade.
A passagem que mais se destaca nesta leitura é o Birkat HaKohanim, a bênção sacerdotal. É através desta bênção, uma das fórmulas litúrgicas mais antigas ainda em uso hoje, que a mensagem de shalom atinge seu clímax, condensando em poucas linhas poéticas a aspiração por proteção, graça e paz que define a essência espiritual da parashá.
A Torá instrui que os Kohanim, descendentes de Aarão, têm a responsabilidade de abençoar o povo de Israel com a bênção sacerdotal, conforme encontrado em Números 6:23-27. Esta bênção possui uma estrutura literária precisa, com cada linha representando um aspecto diferente da bênção divina, enfatizando a profundidade espiritual invocada.
"Que o Senhor te abençoe e te guarde" é uma súplica que vai além das bênçãos materiais, envolvendo um profundo desejo de shalom – um estado de paz, completude e harmonia espiritual e emocional. Quando pedimos que Deus nos abençoe, estamos buscando uma infusão de energia divina que ilumina e enriquece nossa vida interior, proporcionando uma conexão íntima e contínua com a presença divina. Rabi Naftali Berlin nos ensina que a proteção que se segue à bênção abrange não apenas a segurança física, mas também a salvaguarda do nosso bem-estar espiritual e emocional, protegendo-nos das ansiedades e dos medos que podem perturbar nossa paz interior e afastando-nos do yetzer hará, a inclinação para o mal.
No segundo versículo da Bênção Sacerdotal, "Que o Senhor faça resplandecer o rosto sobre ti e tenha misericórdia de ti”, Rashi entende "faça resplandecer o rosto" como um sinal do favor divino, onde Deus ilumina a vida da pessoa com Sua bondade, trazendo luz, clareza e orientação. Por sua vez, Nahmanides interpreta a misericórdia como uma expressão da bondade gratuita e incondicional de Deus, transcendente ao merecimento humano. Essas interpretações juntas revelam um relacionamento divino multifacetado: Deus ilumina e guia os fiéis com Sua presença benevolente, ao mesmo tempo que estende misericórdia e compaixão de forma incondicional, fomentando a paz na vida da pessoa.
"Que o Senhor volte o Seu rosto para ti e te dê paz" encerra a bênção sacerdotal com uma profundidade espiritual signif**ativa. Segundo Maimônides, esta luz ilumina a mente e o espírito, proporcionando uma paz que transcende todas as coisas terrenas. O terceiro versículo da oração encapsula a esperança de uma vida completa e equilibrada, onde a presença de Deus é sentida e onde a paz reina suprema. É uma lembrança poderosa da aspiração eterna por um mundo onde a harmonia divina permeia todos os aspectos da existência humana.
Segundo o Rabino Joseph Soloveitchik, a bênção sacerdotal invoca proteção, misericórdia e paz divinas, promovendo um estado de coesão e harmonia, shalom, que abrange tanto o indivíduo quanto a comunidade como um todo. A continuidade dessas palavras ao longo dos milênios reforça a conexão profunda e inabalável do povo judeu com sua fé e tradição, inspirando-nos a viver de acordo com os princípios de bondade, compaixão e harmonia.
A Parashat Nassó, através de suas diversas leis e práticas, ilustra a integração de todos os aspectos da vida – material, moral e espiritual – em um todo harmonioso e pacífico. A bênção sacerdotal, com sua invocação de proteção, misericórdia e paz, sintetiza este ideal, lembrando-nos da constante presença divina que nos guia e sustenta. Ao vivermos de acordo com esses princípios, promovemos uma sociedade mais justa e amorosa, refletindo o verdadeiro signif**ado de shalom.

Shabat shalom.
Ariel Assayag
ARI NEWS

Endereço

Lisbon

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