07/11/2024
PARASHAT: L**H L**HA/ LIVRO BERESH*T (Gênesis) 12:1-17:27
HAFTARÁ (Leitura dos Profetas): YESHAYAHU (Isaías) 40:27-41:16
L**H L**HÁ, “VÁ POR SI MESMO”
Aqui começa uma nova dinâmica na narrativa bíblica. Aqui começa a saga de nossos patriarcas e matriarcas, a trajetória de personagens que irão protagonizar seus atos diante de conflitos e dilemas tipicamente… humanos! Aqui são selados um pacto e uma ousada promessa. Mais uma parashá cheia de histórias e temas densos para explorar.
Convocado por Deus, Abrão, como é inicialmente chamado, deixa sua terra para iniciar uma nova dinastia, encarando o desconhecido, levando Lot, seu sobrinho, e Sarai, sua esposa. Diante da fome, o trio e seus acompanhantes descem ao Egito. Com medo de ser morto, Abrão sugere à sua formosa esposa que finja ser sua irmã. Mais tarde, Sarai entrega sua escrava para dar um filho a Abrão, já que ela não consegue engravidar. Marcada pela circuncisão dos homens, uma aliança é travada com Abrão, implicando também na mudança no nome do casal para Sara e Abraão.
São muitos pontos relevantes que podem despertar importantes debates, mas hoje escolho uma pequena passagem para me aprofundar. Abraão levou seu sobrinho Lot para sua jornada ao lado de sua esposa, suas riquezas e as pessoas “que haviam adquirido” (Gên 12:5). Abro parênteses para mencionar que nossos sábios dizem que além dos servos, essas “pessoas adquiridas" eram também pessoas que Sara e Abrão haviam convertido (Beresh*t Rabá 39:14), em meio ao mundo pagão e idólatra em que viviam.
Abrão e Lot se separam por causa da disputa entre seus pastores. Abrão, conhecido como um tsadic, ofereceu ao sobrinho o benefício da escolha de onde se estabeleceria. Lot então escolheu se assentar na fértil planície do Jordão, que por sua vez era habitada por pessoas inescrupulosas. Lá, em meio a uma guerra regional de quatro contra cinco reis, entre eles o rei de Sodoma, Lot é intencionalmente sequestrado, pois, de acordo com o exegeta italiano Sforno, seus algozes sabiam da riqueza de seu tio.
Nosso patriarca então, para surpresa do leitor, promove um ataque surpresa durante a noite, junto com um exército de 318 agregados. Seu time resgata Lot e outros cativos, junto com seus bens que também haviam sido confiscados. É então quando o rei de Sodoma propõe a Abrão que leve os bens e deixe as pessoas, mas Abrão se recusa, e ainda deixa 10% de tudo para o monarca.
Constatamos que a humanidade sempre recorreu a guerras como estratégias de conquistas. As guerras podem mudar de propósito, sofisticar suas armas e migrar de cenário, mas não são invenções recentes. O sequestro de pessoas também sempre foi uma poderosa tática para negociações, e desde o período bíblico, há aqueles que priorizam a vida, e aqueles que priorizam a causa.
Quanto vale uma vida? Quem está disposto a ceder para salvar vidas? Como devemos proceder para o retorno de reféns? Negociar ou lutar? São escolhas, são dilemas. Abrão escolheu lutar.
“Depois disso, a palavra do Eterno chegou a Abrão numa visão, dizendo: ‘Não tenha medo, Abrão, eu estou te dando uma recompensa de presente” (Gênesis 15: 1). Mas Abrão não parecia ter medo, estava vitorioso na batalha, não tinha motivo para medo. Teria ele se arrependido de sua escolha? Quantas vezes o medo ou a insegurança, nos paralisam? O medo pode nos paralisar ou nos impulsionar a atitudes desesperadas que nos desviam de decisões coerentes e conscientes. Ao contrário, a coragem nos fortalece para seguir adiante com confiança. Talvez Deus esteja alertando seu escolhido para que ele “vá por si mesmo” (L**h L**há), mas com planejamento e não impulso.
Independente do julgamento acerca da escolha de Abrão, seu objetivo era salvar vidas. Acredito que nesse quesito, mais do que diante da questão do monoteísmo, podemos lacrar um preceito judaico, talvez abalado no cenário atual:
(Kol Israel arevim zé bezé) שכל ישראל ערבים זה בזה
Todo povo judeu é responsável um pelo outro (Shevuot 39a:22)
O termo do início da Parashá é intrigante e revelador. “L**h lechá" poderia ser apenas “lech” - vá, pois afinal era esse o comando do Eterno - Vá Abrão, leve sua esposa, seu sobrinho e tudo (e todos) que te pertence(m). Mas as palavras têm força. Ao mesmo tempo que essa saga começa com um pequeno núcleo familiar, sabemos que a promessa de uma vasta descendência é cumprida nos próximos capítulos e mantida, apesar de tudo, e contra a vontade de muitos, pelos milênios seguintes.
Nosso primeiro patriarca vai por si e por nós, e assim seguimos. Ir por si não recai apenas em si, respinga no coletivo. Somos responsáveis uns pelos outros, e assim seguimos.
“Se eu não for por mim mesmo, quem será por mim? Mas se for apenas para mim mesmo, o que sou? E se não for agora, quando?” Pirkei Avot 1:14
SHABAT SHALOM,
Sílvia (BILBA) Grinstein
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