20/09/2026
Nossa Senhora das Angústias (Dia festivo, 20 setembro)
Setembro é o mês que a Igreja dedica às dores sentidas por Nossa Senhora ao longo da sua vida, onde lembrámos as aflições, medos, angústias e adversidades daquela que foi a escolhida de entre todas as mulheres para dar à luz o Filho de Deus.
Nossa Senhora das Angústias tem praticamente o mesmo significado que Nossa Senhora das Dores (e Nossa Senhora da Piedade, Nossa Senhora da Soledade, Nossa Senhora do Calvário, Nossa Senhora da Agonia, entre outras – ver publicação do dia 15 de setembro), mas diferencia-se por ter o seu culto mais fortemente desenvolvido a partir de acontecimentos ocorridos no sul da Península Ibérica.
Embora comemorada em muitas localidades no dia 15 de setembro, o mesmo dia de Nossa Senhora das Dores, noutras o dia escolhido passou a ser o dia 20 de setembro, por ser a data da coroação de Nossa Senhora das Angústias na principal igreja a si dedicada em todo o mundo, situada em Granada, na Espanha. Foi em 20 de setembro de 1913 que Nossa Senhora das Angústias foi coroada canonicamente pelo Papa Bento XV.
A origem da devoção assemelha-se à de Nossa Senhora das Dores, sendo escolhido o termo angústias para os primitivos devotos lembrarem esse sentimento que a Mãe de Deus experimentou em diversas fases da sua vida, desde o anúncio do Anjo.
A consolidação do culto a Nossa Senhora como intercessora para todas as angústias, começa nos primeiros tempos após a reconquista de Granada em 1492 pelos reis católicos de Espanha, quando vários devotos cristãos, membros de uma irmandade, mandaram construir nas imediações da cidade uma ermida que, não se sabe por que motivo, puseram sob a proteção das angústias de Nossa Senhora.
Nessa ermida, os seus fundadores resolveram colocar uma imagem de Nossa Senhora que tivesse o aspeto e figura que lembrava as dores da Santíssima Virgem, mas que se diferenciasse um pouco das imagens de Nossa Senhora das Dores. Contatados vários artífices que produziam essas esculturas, o tempo foi passando sem que fosse escolhida alguma. No entanto a ermida mantinha-se aberta aos cristãos que aqui vinham frequentemente rezar.
Mas eis que um facto extraordinário iria acontecer: numa certa tarde entraram na ermida dois jovens homens com uma senhora coberta por um manto preto. Chegados os três ao pé do altar, aí permaneceram em oração durante muito tempo. Ao escurecer retiraram-se os dois moços, ficando a senhora a orar, segundo lhes parecia. Os confrades e o sacristão, apesar de estar quase na hora de fechar a ermida, não quiseram perturbar a devoção da enlutada senhora e decidiram esperar que acabasse suas orações.
Mas o tempo passava, já era noite cerrada e a necessidade de fechar a ermida impôs-se aos confrades, e assim um deles aproximou-se discretamente da senhora, anunciando-lhe que iam fechar a ermida, mas não obteve resposta, continuando a senhora na mesma imobilidade. O confrade foi então dar conta aos companheiros da singularidade do caso e, passado mais algum tempo, decidiram ir todos manifestar à misteriosa senhora a necessidade de sair da capela.
Assim o fizeram. Porém, não tendo sido atendidas as suas corteses observações, um dos confrades se adiantou para chamar-lhe a atenção e, ao olhar para seu rosto, ficou estupefato, e sem palavras: a misteriosa senhora tinha no rosto a mesma imobilidade que se notava em seu corpo! Em uma palavra: o que os confrades tinham tomado por um ser humano era uma perfeitíssima escultura!
Seu assombro não teve limites diante de tão extraordinária descoberta! Tinham em sua presença a exata representação das angústias da Virgem Maria ao ver e sentir os martírios da paixão e morte de seu Divino Filho. Era a imagem que os confrades tinham em mente para ser colocada no altar da ermida. O prodígio deixou-os estasiados, porque se via claramente, em tudo aquilo, a intervenção milagrosa da providência de Deus.
Nunca se soube quem foram os rapazes que carregaram aquela bela imagem, nem o escultor da mesma, provavelmente alguém que saberia do desejo dos confrades a tivesse encomendado a um distinto artífice, dado que os escultores da zona não tinham capacidades para realizar tal magnificência.
Para os confrades aquela santa imagem tratou-se de um presente do céu! Prostrados ante a sagrada imagem, permaneceram longo tempo a orar. Uma vez satisfeito esse primeiro impulso de sua devoção, partiram para a cidade, para dar notícia da prodigiosa aparição.
Desde aquela hora não cessaram os fiéis de acorrer então para ver e admirar a formosa imagem da Virgem angustiada, com o corpo perfeitíssimo de seu Filho no regaço. Foi tal a concorrência que não foi possível entrarem todos de uma vez naquele reduzido espaço, tendo sido preciso dividir os fiéis em turnos para que pudessem todos contemplar as sagradas imagens.
Estabeleceu-se rapidamente em Granada e em outros povos dos arredores o culto de Nossa Senhora das Angústias na ermida construída para esse fim, e logo os milagres que nela se operaram deram testemunho da procedência divina da sagrada imagem. Por esse motivo tornou-se logo insuficiente a modesta capela; a primitiva irmandade, composta então de um número reduzido de humildes devotos, aumentou logo em número e qualidade de confrades, a ponto de tornar-se uma das mais importantes da região de Granada. Em 1545 é oficializada a irmandade.
Querendo os confrades aumentar as dimensões da ermida para acolher o elevado número de devotos e peregrinos, uma piedosa concorrência se estabeleceu entre os confrades e várias ordens religiosas, quando todos desejavam tomar a seu cargo o culto da imagem milagrosa e do seu espaço. Interveio então o Arcebispo de Granada que tratou da compra dos terrenos adjacentes e transformou a capela em igreja paroquial. Em 1609 começou a funcionar a nova paróquia, que rapidamente seria uma das mais populosas e formosas de Granada.
Desde então que a agora Basílica de Nossa Senhora das Angústias é das principais igrejas de Granada, cidade conhecida pelos seus imponentes monumentos religiosos, e Santa Maria, sob esta invocação, foi proclamada pela Santa Sé no século XIX padroeira da cidade. As missas à noite também são uma tradição, bem como a imponente procissão em honra de Nossa Senhora das Angústias realizada no último Domingo de Setembro, com o andor a percorrer a cidade carregado por dezenas de homens em simultâneo. Nos dias 15 e 20, este o dia litúrgico principal, outras grandes cerimónias acontecem, e são feitos grandiosos tapetes de flores nas ruas e ofertas de flores pelos fiéis à Virgem Maria.
A imagem misteriosa com a representação de Jesus postado no colo da sua Mãe está situada ao centro do imponente altar-mor. A devoção a Nossa Senhora das Angústias assemelha-se à de Nossa Senhora das Dores, mas a piedade popular gosta de atribuir estes títulos à Nossa Mãe, pois ela é a Mãe humilde de Nazaré que em todas as ocasiões socorre os seus filhos, nas tribulações, nas dores, nas tristezas, nas angústias. Foi a partir de Granada que o culto a Nossa Senhora das Angústias se espalhou com mais força por Espanha, Portugal e outras regiões missionadas com a expansão marítima.
Em Vila Seca, Nossa Senhora das Angústias é venerada na Capela do Senhor do Socorro, encontrando-se a sua imagem no altar-mor da capela, junto de seu Filho Jesus, invocado como o Senhor do Socorro. A imagem de Nossa Senhora não se encontra cravejada com sete espadas no coração, apenas uma (uma das formas de a diferenciar das imagens da Senhora das Dores), mas a sua coroa em forma de resplendor tem sete estrelas pontiagudas, para lembrar as sete dores descritas nos Evangelhos. A Capela do Senhor do Socorro encontra-se aberta em vários dias da semana e ao domingo.
Nossa Senhora das Angústias, Capela do Senhor do Socorro, Vila Seca