03/10/2020
A bem da verdade...
Biografias & Biografias: nossa pequena homenagem ao grande Espírito ALLAN KARDEC no dia em que comemoramos o seu nascimento (e também o de Pélagie Baudin).
Comparemos a biografia feita na Revista Espírita de maio de 1869 [1], bem como aquelas feitas por Anna Blackwell, Maurice Lachâtre, Henri Sausse, Carlos Imbassahy, Júlio Abreu Filho, Chrysanto de Brito, André Dumas, André Moreil, Marcel Souto Maior e pela wikipedia [2], com os livros de Zêus Wantuil & Francisco Thiesen [3], Jorge Damas Martines & Stenio Monteiro de Barros [4], e com os textos de Charles Kempf [5] e a monografia "Hypolite Léon Denizard Rivail, parentes e relacionados" [6]. Temos também informações biográficas inseridas na obra de Paulo Henrique de Figueiredo [7], que traz uns poucos dados novos, e na de Adriano Calsone [8], que faz uma homenagem ao mestre, porém trata prioritariamente do período pós-Kardec. Obviamente não utilizamos aquelas biografias de Allan Kardec que foram simplesmente transcritas ou traduzidas, e.g., a de "Oeuvres posthumes" ou a de José Maria Fernández Colavida na Revista Espiritista de maio de 1869 [9], respectivamente transcrita e traduzida daquela Revista Espírita; assim como algumas outras mais recentes, e.g., a "Sur les traces d'un pape sans tiare", de Jean Marc Harel Ramond [10]. Claro que pesquisas mais precisas só são possíveis agora, nos dias atuais, devido aos recursos tecnológicos como a digitalização dos acervos de bibliotecas e cartórios, além de arquivos governamentais, etc. E hoje em dia temos ainda acesso a vários manuscritos, provenientes de acervos distintos, como o da FEAL, do AKOL e da USFF de Tours. Comparemos então somente alguns poucos aspectos:
a) Quantas línguas Allan Kardec falava?
No Guia Prático para Estudo dos Manuscritos de Kardec [11] encontramos:
Kardec irá informar em várias outras cartas que não conhece o italiano, nem o espanhol; e que conhecia o alemão na juventude, mas já tinha esquecido grande parte. Este é, dentre vários outros, mais um erro de Henri Sausse, que afirmava que Kardec era "linguista insigne, conhecia a fundo e falava corretamente o alemão, o inglês, o italiano e o espanhol; conhecia também o holandês". E é replicado (e às vezes "contado e aumentado um ponto") pelo mundo afora, por exemplo em:
• Wikipedia: "conhecia a fundo os idiomas francês, alemão, inglês e neerlandês, além de dominar perfeitamente os idiomas italiano e espanhol"
• Carlos Imbassahy (1884-1869): "conhecia o alemão, o inglês, o italiano, o espanhol, o holandês, sem falar na língua materna"
• Júlio Abreu Filho (1893-1971): "falava corretamente inglês, alemão, holandês, espanhol, italiano e era grande conhecedor do grego e do latim"
• Chrysanto de Brito: "conhecendo perfeitamente e falando o alemão, o inglês, o italiano, o espanhol e também o holandês"
b) Allan Kardec trabalhou num banco e nalguma empresa agenciadora de atores e atrizes?
Sim, na monografia "Hypolite Léon Denizard Rivail, parentes e relacionados" [6] encontramos dados de sua sociedade em 1839 num Banco de Trocas junto com Maurice Lachâtre, bem como informações que sugerem que ele fez parte da "Reju de Backer & Denizard", agentes dramáticos.
c) O pai de Allan Kardec desapareceu na Espanha durante as guerras napoleônicas?
Naquela mesma monografia descobrimos que na verdade ele morreu aos 75 anos, no dia 26/06/1834, a quase 500 Km de Paris, numa casa em Allées de Tourny, na comuna de Périgueux do departamento da Dordonha.
Não exploraremos mais outras informações que são apresentadas sem as fontes diretas, e portanto não podem ser aceitas como verídicas: Rivail como médico (informação equivocada de Leymarie a Sausse), Rivail como autor da peça de teatro "Une Passion de Salon" (provavelmente se trata de um homônimo chamado H. Rivail, parente de Ampère), quadro de Kardec jovem (que tudo indica ser de Monvoisin), etc.
Portanto o acesso às fontes diretas nos permite atualmente revisitar todas as biografias realizadas até então, fazendo inúmeras correções. E mais ainda, como no caso do pai de Kardec, mesmo as informações mais recentemente obtidas através de fontes indiretas (contrato e certidão de casamento de Kardec), precisam ser corrigidas quando fontes diretas são encontradas (certidão de óbito do pai de Kardec). Sem falar em novas interpretações com base em novas evidências, e.g., no caso das cartas do Sr. Émile Malet, e não do Sr. Émile Muller, falando sobre a morte e o féretro de Allan Kardec; ou de novas conclusões a partir de novas descobertas, como o fato de Kardec estar em Paris, como cabo da Guarda Nacional durante a revolução de 1832, que aliás foi retratada no livro/filme "Os miseráveis".
Infelizmente também há a propagação de dados errados, mesmo depois de revelada as fontes. Já sabemos que muitos do movimento espírita ainda acham que as irmãs Baudin eram jovenzinhas, quando já ficou demonstrado que não eram [12]. Que dizer então de informações que já estavam disponíveis desde 1862 e 1865? Em 1862, na Revista Espírita de junho, Allan Kardec afirmava: "Para começar, jamais morei em Lyon, portanto, não vejo como lá me tivessem conhecido pobre.". E no dicionário de Lachâtre de 1865: "Chefe e fundador da Doutrina Espírita, nascido em Lyon, no dia 3 de outubro de 1804, originário de Bourg en Bresse, departamento do Ain.". Em outras palavras, Kardec viveu em Bourg en Bresse, e não em Lyon, com muitos ainda pensam.
Referências:
[1] https://www.retronews.fr/journal/la-revue-spirite/1-mai-1869/1829/3285409/1 (1969)
[2] Disponíveis nos seguintes endereços:
• https://bit.ly/2H9pDO2 (Anna Blackwell, Maurice Lachâtre, Henri Sausse, Carlos Imbassahy, Júlio Abreu Filho, Chrysanto de Brito e Andre Dumas), em ordem cronológica:
1. Maurice Lachâtre: Allan Kardec, Uma breve biografia publicada no Nouveau Dictionnaire Universel (1865)
2. Anna Blackwell: Biografia de Allan Kardec no Prefácio da Tradutora em O Livro dos Espíritos, edição em Inglês (1875)
3. Henri Sausse: "Biographie d'Allan Kardec" (1901, com a mais antiga em 1896)
4. Chrysanto de Brito: Allan Kardec e o Espiritismo - Editora Eco (1983, com a mais antiga em 1935)
5. Júlio Abreu Filho: Biografia de Allan Kardec -Edição: PENSE - Pensamento Social Espírita (1973)
6. André Dumas: Allan Kardec, sua vida e sua obra (Edição: PENSE - Pensamento Social Espírita), traduzido do original "Allan Kardec, sa vie et son oeuvre" (1983)
7. Carlos Imbassahy: A Missão de Allan Kardec - Edição conjunta de: FEP, FEC, FERGS, USESP e USERJ (1988)
• http://spirite.free.fr/ouvrages/moreil0.htm (André Moreil): "La vie et l'oeuvre d'Alln Kardec" (1961)
• https://books.google.com.br/books?id=lVbiAAAAQBAJ (Marcel Souto Maior): Kardec, a biografia (2013)
• https://fr.wikipedia.org/wiki/Allan_Kardec e https://pt.wikipedia.org/wiki/Allan_Kardec (2020)
[3] Zêus Wantuil e Francisco Thiesen: Allan Kardec, meticulosa pesquisa biobibliográfica, Volumes 1, 2 e 3 (1973)
[4] Jorge Damas Martines e Stenio Monteiro de Barros: Allan Kardec: análise de documentos biográficos (1999)
[5] http://www.feparana.com.br/topico/?topico=2255 (2015)
[6] Disponível em um dos seguintes endereços:
• https://www.allankardec.online/pdf/125 (2020)
• https://kardecpedia.com/obra/79 (2020)
[7] Revolução Espírita (2016)
[8] Em nome de Kardec (2017)
[9] https://drive.google.com/file/d/1s8EXFBRm38YzwDENsGpmrFgJE2J9psv4/view (1869)
[10] https://data.bnf.fr/fr/temp-work/bfdc48f067a1fd03a4291cc9748fc8ec/ (2019)
[11] Disponível em um dos seguintes endereços:
• https://www.allankardec.online/pdf/148 (2020)
• https://kardecpedia.com/obra/82 (2020)
[12] https://sites.google.com/site/jeespiritas/volumes/volume-7---2019/resumo---art-n-010202 (2019)