04/07/2026
"Apascentai o rebanho de Deus que está entre vós, tendo cuidado dele, não por força, mas voluntariamente; nem por torpe ganância, mas de ânimo pronto; nem como dominadores dos que vos foram confiados, mas servindo de exemplo ao rebanho." (1 Pedro 5:2-3)
A cada Copa do Mundo surge uma discussão que, sinceramente, diz mais sobre a forma como alguns enxergam a fé do que sobre o futebol em si. De um lado estão aqueles que acreditam que alterar o horário de um culto ou deixar de comparecer a uma reunião da igreja para assistir a um jogo é uma demonstração de fraqueza espiritual. Do outro lado estão os que entendem que a igreja pode, sem qualquer prejuízo à sua missão, adaptar horários e permitir que seus membros participem de um evento que mobiliza milhões de pessoas. A questão que precisamos responder não é o que a tradição religiosa diz sobre isso, mas o que as Escrituras realmente ensinam.
Muitos recorrem a 1 João 2:15 para sustentar sua posição: "Não ameis o mundo, nem o que no mundo há". Contudo, o problema começa quando esse texto é retirado do seu contexto e transformado em uma proibição genérica contra tudo aquilo que não acontece dentro das quatro paredes de um templo. João não está ensinando que devemos rejeitar a vida, a cultura ou qualquer atividade humana legítima. Afinal, vivemos neste mundo, trabalhamos nele, constituímos família nele e aguardamos a volta de Cristo enquanto estamos nele. O apóstolo está condenando um sistema de valores que se opõe a Deus, não a existência humana em si.
Se adotarmos a interpretação mais rígida possível desse versículo, logo cairemos em contradição. Como alguém pode afirmar que não devemos amar nada do que existe no mundo e, ao mesmo tempo, agradecer a Deus pela família que possui? Como alguém pode celebrar o casamento, o nascimento de um filho, o crescimento profissional ou uma amizade verdadeira sem reconhecer que tudo isso acontece dentro da realidade deste mundo? A própria Bíblia ensina que toda boa dádiva vem de Deus. Portanto, não amar o mundo não significa rejeitar a criação de Deus, mas recusar-se a viver segundo os valores corrompidos que se rebelam contra Ele.
É justamente nesse ponto que surge um problema muito comum dentro dos ambientes religiosos. Existe uma diferença entre zelo espiritual e desejo de controle. Ao longo da história da igreja sempre existiram pessoas que encontraram mais satisfação em regulamentar a vida dos outros do que em conduzi-las para mais perto de Cristo. São homens e mulheres que transformam preferências pessoais em regras universais, tratando suas opiniões como se fossem mandamentos divinos. O resultado é uma fé baseada no policiamento constante da conduta alheia, e não na transformação do coração pelo Evangelho.
Por isso, a pergunta correta não é onde está a religião durante a Copa do Mundo, mas onde está Jesus. E a resposta é simples: Jesus continua onde sempre esteve. Ele está presente nas igrejas, mas também está presente nos lares. Está com o pastor que prega e com a família que se reúne diante da televisão. Está com o missionário no campo e com o trabalhador que aproveita um momento de descanso para assistir a uma partida de futebol. Se Cristo é Senhor de todas as coisas, então não existe um território onde sua presença seja anulada porque uma bola está rolando em campo.
Alguns insistem em dizer que o futebol é "coisa do mundo". Mas essa afirmação levanta uma questão inevitável: qual critério está sendo utilizado? Se futebol é automaticamente condenado por ser uma manifestação cultural, então a coerência exigiria a mesma postura em relação a inúmeras outras atividades. Seria necessário condenar filmes, séries, redes sociais, programas de televisão, celebrações nacionais e praticamente qualquer forma de entretenimento, principalmente musical. Mais do que isso, seria preciso condenar também o comércio aquecido pela Copa, os empregos gerados por ela e todas as oportunidades econômicas que muitos cristãos aproveitam sem qualquer constrangimento de consciência.
A verdade é que a Copa do Mundo não se tornou alvo por causa de um princípio bíblico claro, mas porque certos setores religiosos desenvolveram o hábito de escolher temas específicos para demonstrar rigor espiritual. O problema, porém, é que rigor não é sinônimo de santidade. Uma pessoa pode abrir mão de assistir a todos os jogos da Copa e ainda assim ser dominada pela soberba, pela inveja, pela maledicência e pela falta de amor. Da mesma forma, alguém pode assistir a uma partida com sua família, agradecer a Deus pelos momentos de comunhão e continuar sendo um discípulo fiel de Cristo. O Evangelho sempre avaliou primeiro o coração, e não apenas o comportamento externo.
Além disso, é impossível ignorar que a Copa do Mundo representa algo muito maior do que uma simples competição esportiva. Trata-se de um evento que acontece apenas uma vez a cada quatro anos e que mobiliza povos inteiros. Durante esse período, pessoas compartilham expectativas, emoções e experiências coletivas que raramente acontecem em outros contextos. Muitos encontram nesses momentos uma pausa para suas preocupações diárias, uma oportunidade de convivência familiar e até mesmo uma porta aberta para relacionamentos que podem se tornar espaços de evangelização. O SENHOR é contra isso também?
Curiosamente, aqueles que enxergam apenas o lado negativo desses eventos costumam ignorar tudo o que Deus também realiza nesses ambientes. Já vimos jogadores orando em campo, atletas declarando sua fé diante de milhões de espectadores e seleções inteiras reconhecendo publicamente sua dependência de Deus. Mas quando o coração está excessivamente comprometido com a função de juiz da conduta alheia, torna-se difícil enxergar qualquer manifestação de graça fora dos limites da própria tradição religiosa. A ascese pessoal passa a ser considerada o único modelo legítimo de espiritualidade, e qualquer expressão de alegria é vista com suspeita.
As igrejas, portanto, não deveriam ter receio de adaptar horários durante a Copa do Mundo. Não porque o futebol seja mais importante do que a adoração, mas porque a adoração não está presa a um horário específico. A igreja existe para servir pessoas, e não para criar obstáculos desnecessários à sua participação na vida comunitária. Alterar o horário de uma reunião para que famílias possam acompanhar um jogo não enfraquece a fé de ninguém. Pelo contrário, demonstra maturidade pastoral, bom senso e compreensão de que a vida cristã não acontece apenas dentro do templo.
No final das contas, o verdadeiro debate não é sobre futebol. É sobre a maneira como enxergamos a liberdade cristã. Se uma pessoa transforma a Copa em ídolo, ela está errada. Mas se outra transforma suas preferências pessoais em lei para todos os demais, também está errada. O Reino de Deus é grande demais para ser ameaçado por noventa minutos de uma partida de futebol. O que realmente ameaça a saúde da igreja é quando o legalismo assume o lugar do Evangelho e passa a determinar a espiritualidade das pessoas por critérios que Deus jamais estabeleceu.
Particularmente, muitas pessoas vivem na tristeza, na depressão, na solidão e em lutas que somente elas e Deus conhecem. Existem batalhas silenciosas sendo travadas dentro de casas aparentemente normais, por pessoas que sorriem em público, mas carregam pesos enormes em seu coração. A Copa do Mundo, para muitos, representa um raro momento de alegria, de reunião familiar, de confraternização e de esperança. Eu não vou me opor a um momento de alegria por causa de um dilema religioso criado por homens. Não vou transformar noventa minutos de futebol em uma questão de santidade quando a própria Escritura não faz isso. Se uma família pode se reunir, sorrir, conversar, fortalecer seus laços e até abrir portas para compartilhar o Evangelho, então vejo mais valor nisso do que em uma religiosidade que mede espiritualidade pela capacidade de proibir. O Reino de Deus não é inimigo da alegria legítima. Pelo contrário, o Evangelho veio para trazer vida em abundância. E enquanto alguns estão preocupados em controlar a consciência dos outros, eu prefiro lembrar que Cristo não morreu para nos tornar especialistas em proibições, mas para nos libertar do pecado e nos ensinar a viver cada momento da vida sob o seu senhorio.
Em Cristro,
João Fonseca