30/04/2026
Futebol, Champions League e a necessidade de ordenar os afetos
O futebol continua sendo uma das grandes liturgias seculares do nosso tempo. Nos últimos dias, a Champions League voltou ao centro das atenções, e o jogo entre Liverpool e PSG, em 14 de abril, empurrou o tema de volta ao noticiário e às buscas: o PSG venceu por 2 a 0 em Anfield e avançou à semifinal com 4 a 0 no agregado. É natural que o esporte mova paixões, una famílias e produza memória afetiva. O problema começa quando a paixão legítima se converte em devoção desordenada.
A Bíblia não condena alegria, celebração ou competição justa. Pelo contrário, usa imagens atléticas para falar de perseverança, disciplina e foco. O ponto é outro: o coração humano fabrica absolutos. Para muitos, o futebol deixa de ser jogo e passa a ser identidade final. A derrota produz ódio, a vitória produz soberba, e a linguagem usada em torno de clubes, ídolos e rivais frequentemente revela uma religião informal. A pessoa talvez não ore, não leia as Escrituras e não participe fielmente da comunidade cristã, mas conhece cada estatística do time e organiza a vida ao redor disso. Nessa hora, o esporte deixou de ser criação e virou senhor.
Há ainda uma lição moral importante. O futebol, como quase toda atividade humana, mostra grandeza e miséria misturadas. Ele exibe talento, beleza, disciplina e trabalho em equipe, mas também exalta egos, dinheiro sem freio e violência verbal. O cristão pode apreciar o jogo, mas precisa manter a alma livre. “Onde estiver o seu tesouro, aí estará também o seu coração” (Mt 6.21, NAA). Essa palavra vale igualmente para arquibancadas, mesas-redondas e timelines esportivas.
A fé reformada ensina a receber os bens da criação com gratidão, sem absolutizá-los. O futebol pode ser desfrutado como dom comum de Deus, desde que permaneça no seu lugar. Nem toda paixão é pecado, mas toda paixão precisa ser submetida ao senhorio de Cristo. O problema não é gostar muito de futebol. O problema é amar qualquer coisa mais do que a Deus.
Rev. Augustus Nicodemus