11/05/2020
A importância do caminho espiritual
Tic tac, tic tac, tic tac... Nossa vida é uma luta constante contra o relógio. Precisamos nos dividir entre diversas atividades sendo algumas prazerosas e outras nem tanto. Com o tempo cada vez mais escasso, muitos podem se perguntar: porque devo reservar parte do meu tempo para uma prática espiritual?
Para exemplif**ar, contarei uma lenda que gosto muito. Há muito tempo atrás um homem que vivia ao norte do Tibete juntou-se a alguns amigos e decidiu fazer uma peregrinação até a residência do Dalai Lama, o Palácio Potala em Lhasa, local considerado sagrado.
Ao chegar lá, o homem ficou maravilhado com a imponência do palácio. Por curiosidade, enfiou a cabeça em uma abertura bastante estreita para conseguir ver melhor o interior. Após algum tempo, seus amigos o chamaram para ir embora e o homem percebeu que não conseguia tirar a cabeça daquele pequeno vão.
Ao perceber que estava entalado, o homem pede para que o grupo retorne para casa sem ele e que digam a sua família que ele morreu no melhor lugar possível, o Palácio Potala. Os amigos concordaram e partem em seguida.
Pouco tempo depois, ao realizar sua ronda tradicional, o zelador do templo vê a cabeça do homem e o questiona sobre o que ele estava fazendo ali. O homem diz que está morrendo, pois sua cabeça estava entalada. O zelador pergunta como o homem colocou a cabeça naquele local. O homem explica e o zelador diz para que ele tire a cabeça do mesmo modo que a colocou. Seguindo o conselho do zelador, o homem desprende-se da fresta.
Assim como esse homem, se todos nós conseguirmos ver de que forma estamos presos, poderemos então nos libertar e auxiliar os outros a fazer o mesmo. Porém, antes de tudo, é necessário que compreendamos como nós viemos parar onde estamos.
Todos nós viemos ao mundo para sermos felizes e passamos nossa vida em busca da felicidade. Porém, embora nós a encontremos diversas vezes durante nossa vida, ela é sempre temporária. Sentimo-nos muitas vezes fracassados e questionando por muito tempo o que é felicidade e porque ela se esvai por nossas mãos. Somos como atiradores de flechas, que as lançam em alvos que acreditamos serem os corretos, mas com o tempo vemos que não passaram de ilusão. Para alcançar a felicidade, precisamos mudar o alvo: precisamos erradicar o sofrimento e o dos outros de modo definitivo.
Nossa mente é fonte tanto de sofrimento quanto de felicidade. Ela é quem nos coloca para o alto ou para baixo, como uma montanha russa. Deixamo-nos levar por seus caprichos e esquecemos que cada pensamento, palavra e ação gera uma semente ao qual colheremos no futuro seu fruto. Como a pedra que lançada ao lago produz ondulações em círculos e esses círculos ao baterem na margem voltam ao centro, assim são nossas ações. Cada ação possui uma reação. Isto é o que chamamos de carma.
Vivenciamos os resultados que nós mesmos criamos e nossas reações produzem mais causas, mais resultados, ininterruptamente... É como se nossa vida fosse uma roda movida por nossas ações e a cada reação, um novo impulso é dado. E assim se passa nossa vida em ciclos, vida após vida... O interminável samsara, a existência cíclica.
Muitas pessoas acreditam que o remédio para o sofrimento e a solução de seus problemas está nas mãos de Deus, de Buda, de Alá, em algo exterior a ela. Infelizmente não. Se você está sujo, por exemplo, e se olha em um espelho, não adianta esfregar o espelho: a sujeira permanecerá lá! Portanto, as enrascadas que estamos somos nós mesmos que entramos, portanto, cabe a nós sair delas.
Buda disse uma vez a seus discípulos: “Eu lhes mostrei o caminho que leva à felicidade. Seguir por esse caminho é algo que depende de vocês.” Desse modo, por mais que recebamos a chave do conhecimento que nos permite conhecer, transformar e ensinar nossa mente a ser usada de modo positivo, somente nós é que decidimos se esta chave será usada ou não. Essa chave, uma vez usada, abrirá uma porta onde enxergaremos a verdade mais profunda de nossa mente, expondo nossa natureza búdica (ou pureza imortal) e suas infindáveis capacidades. Quando a natureza verdadeira de nossa mente é revelada, ou seja, quando alcançamos a iluminação, podemos finalmente encontrar a felicidade duradoura e auxiliar o próximo a conseguir o mesmo. Esse é o verdadeiro objetivo do caminho espiritual.
Portanto, independente da estrada que você trilhará seu caminho espiritual, não se esqueça de enxergar a si mesmo e os outros. Quando fazemos isso, nosso coração se enche de compaixão. A compaixão nos faz valorizar cada boa situação em nossa vida e nos inspira a sermos generosos conosco e com os demais. É disso que o mundo precisa: boas ações, bons pensamentos, boas ações, amor ao próximo e compaixão. Que seu caminho seja iluminado!
Tashi Delek!
Texto de autoria de A.C.F.N.