20/03/2021
LENDA DE MARIWÔ
(Cortinas Sagradas)
Uma antiga lenda, conta que havia um mercado na cidade de Ire, conhecido por ser um mercado cheio de sofrimento, mas que apesar do sofrimento, o grande Deus da adivinhação, Orunmilá conseguiu lá a sua prosperidade. Sabendo disso, Òxàlá também almejou a prosperidade, procurando saber com Orunmilá, o que ele deveria fazer para passar pelo sofrimento e conseguir o seu objetivo. Orunmilá recomendou à Òxàlá que fosse ao mercado, mas que tivesse muita paciência, pois assim conseguiria sua prosperidade. Assim Òxàlá o fez. Na primeira ida ao mercado, Òxàlá não encontrou nada, somente um Ìgbín (caramujo consagrado à Òxàlá), cobrando-lhe pedágio. Òxàlá novamente foi ao mercado e não encontrou a Labelabe, além do sofrimento e do Ìgbín que novamente lhe cobrou o pedágio. Mesmo a contragosto, Òxàlá recordou-se que deveria ter paciência, caso desejasse a prosperidade. Na terceira vez que foi ao mercado, ele novamente pagou o pedágio ao Ìgbín, contudo, ao invés de sofrimento, ele encontrou uma grande riqueza, o tornando um grande Rei próspero. Ao saber que Òxàlá havia conseguido sua prosperidade no mercado do sofrimento, Ògún também procurou saber com Orunmilá, como também tornar-se próspero. Orunmilá lhe disse que ele deveria ser paciente e, em hipótese alguma, deveria usar o seu Alada (Facão) e seu Porrete (Kumo). Ògún de posse das orientações de Orunmilá, foi até o mercado do sofrimento, chegando lá se deparou com um cachorro no portão, cobrando-lhe pedágio para entrar. Ògún achou inaceitável um cachorro lhe cobrar pedágio e, num impulso imediato, pegou seu Alada, ferindo o cachorro até a morte.
Todos gritaram: “Ele matou o Onibode” (o guardião do portão), todos começaram a chorar e, com vergonha, Ògún correu mata adentro, onde havia uma grande plantação de (uma planta cortante, chamada em Salvador de Tiririca). As folhas de labelabe cortaram toda a roupa de Ògún. Quando ele saiu da mata, chegando a praça principal da cidade, ele estava completamente nu. As pessoas então gritaram “Ògún Kolaso” (Ogun não se cobre com roupas). Novamente envergonhado, Ògún olhou um Igi Ope, arrancando-lhe o broto e vestindo-se com o Màrìwò. As pessoas, por sua vez, exclamaram: “Màrìwò Asò Ògún-o Màrìwò” (Mariwo é a roupa de Ògún, o Mariwo). Como forma de arrependimento, Ògún desde então, passou a usar o Màrìwò como a sua vestimenta, sendo que as palavras entoadas na ocasião são cantadas até os dias de hoje, nas festas dedicadas à Ògún.
Das folhas do dendezeiro (Igi Ope) fazem-se as franjas do mariwo, cortinas sagradas que têm por finalidade resguardar e separar o sagrado do profano.
Um canto louvado em Nagô e ketu mostra o poder do mariwo:
Biri-biri bò wón lójú,
Ogbéri ko mo Mariwo!
As trevas cobrem seus olhos,
O não iniciado não pode conhecer o mistério do Mariwô!
O dendezeiro (Igi Ope) é a árvore sagrada de Ifá e é de seus frutos que se obtêm os negros caroços que representam ORUNMILÁ em seus assentamentos, além de servirem para as consultas ao oráculo de Ifá onde o próprio Orunmilá é contatado por seus sacerdotes, os Babalawo. Aos caroços assim consagrados dá-se o nome de “IKIN”.
IBALÚ são os talos que são retirados das folhas do igi ope quando estão fazendo as franjas do mariwo, o Ibalú é um elemento de ancestralidade que os sacerdotes usam na confecção dos símbolos sagrados, o Orixa Obaluaiye e do Orixa Nana e dos orisa Oxumare e Osayim, transmitem a força de axé, que estes orixas possuem .
Do tronco do Igi Ope (dendezeiro) é retirado o Emú uma bebida usada no culto do Orixá Ogun, conhecido tradicionalmente como vinho de palma.
Mariô ou Mariwô, chamado de (igi ôpê) pelo povo do santo, é o nome da folha do dendezeiro, nome científico “Elaeis guineensis”, desfiado, utilizado nas portas e janelas dos terreiros. O mariô é consagrado a Ogum, assim, é muito comum vê-lo nos assentamentos e nas vestes deste Orixá.
Segundo a mitologia do candomblé, a função do mariô é espantar as energias negativas e espíritos perturbadores, tendo esta função, a Orixá Oyá Igbalé (mais conhecida como Iansã do Balé), a divindade que preside sobre os Eguns, carrega-o também sobre as suas vestes.
e as suas vestes.
Todo integrante do culto aos Egungun é chamado de Mariwô.