02/05/2026
A tragédia que se abate sobre a Região Metropolitana do Recife, a Zona da Mata e o Agreste é a negação do direito à paz. O poema de Dom Helder Camara é, em sua essência, um grito de “não” à indiferença. Ao dizer “Mas deixe em paz os mocambos da minha gente”, o Dom impõe um limite sagrado: a chuva não deve avançar sobre quem já nada tem; a água não pode ser o carrasco de quem já enfrenta a “fome impertinente”.
Nas barreiras que deslizam e nas casas invadidas pela lama, o que se ouve é o eco desse não. Um não ao medo de dormir e não ter onde acordar; um não à realidade triste que obriga o trabalhador a vigiar o céu enquanto deveria descansar. Essa vulnerabilidade é acentuada pela denúncia de Flávio José na música Filho do Dono, que expõe a ferida aberta da nossa estrutura social: “Desigualdade rima com hipocrisia não tem verso nem poesia que console um cantador, a natureza na fumaça se mistura, morre a criatura e o planeta sente a dor”.
A frase de Dom Helder Camara, proferida em 1966, destaca que a natureza não deve castigar os esquecidos e que a sociedade não pode aceitar goteiras e alagamentos como um destino inevitável. Trata-se de um apelo para que a dignidade humana não seja levada pela correnteza, reafirmando a urgência de sossego, segurança e, acima de tudo, do fim dessa vulnerabilidade que se repete a cada inverno.
O povo pernambucano precisa de sossego, segurança e, acima de tudo, do fim desse ciclo onde a dor do planeta e a dor do homem se confundem em meio ao abandono.