25/01/2024
Tenho pensado muito sobre ser uma pessoa de axé e ter prosperidade e uma dúvida insiste em me acompanhar: mas, sobre qual tipo de prosperidade estamos falando?
No dicionário, encontramos os seguintes significados para a palavra prosperidade: 1. estado do que é ou se torna próspero; 2. grande produção de alimentos e bens de consumo; abundância, fartura; acúmulo de bens materiais; fortuna, riqueza.
Os próprios significados da palavra podem nos levar para dois caminhos que, entendo, não precisam necessariamente caminhar um distante do outro.
Ser próprios para algumas pessoas é acumular bens materiais, é provar para as pessoas que possui casa(s), jóias, que tem condições de realizar viagens para a Europa ou até mesmo para o continente africano para “aprender na fonte”, muitas vezes desconsiderando que o candomblé que praticamos no Brasil é genuinamente Brasileiro, não encontrando no solo-mãe, similaridades, haja vista que estamos falando de um culto amalgamado por nossos ancestrais que foram sequestrados.
Ainda nesse pensar, não é raro ouvir de pessoas de axé que sacerdote(isa) que trabalham fora (do terreiro), não tem axé. Mas, não tem axé para quê, mesmo? Entendo ser perfeitamente possível conciliar a vida sacerdotal com outros afazeres, como, por exemplo, trabalhar fora. Comigo, pelo menos, tem dado muito certo. Antes que me interpretem mal, nada contra meus pares que não tenham ofícios outros, além da casa de axé, porém, não posso deixar de oferecer um outro olhar para a mesma questão.
De outro lado, o termo nos apresenta prosperidade como grande produção de alimentos, abundância, fartura, então, seria muito prudente que voltássemos nosso olhar para este outro lado e entendêssemos que ser próspero também é ter a possibilidade de realizar boas trocas, garantindo o nosso – e dos nossos - sustento diário, g***r de boa saúde, ter uma moradia digna, um lar para poder descansar após um dia de ralação.
Também entendo que ter prosperidade é a possibilidade ampla de termos uma família (entendida aqui, como as pessoas que, para além de vínculos sanguíneos, tenham conosco relações respeitosas e de afeto), ter amizades saudáveis, um bom emprego e ter saúde, afinal, de que adiante ter muito dinheiro se não puder usufruir dos benefícios que ele pode nos trazer?
Longe de mim romantizar a pobreza, muito pelo contrário. Sou partidário que tenham a possibilidade de que todes possam ter dignidade e condições de, além de garratir o seu arroz-com-feijão diário, possam, também, usufruir das benesses que o dinheiro pode nos proporcionar. Porém, precisamos entender que ter dinheiro não é tudo e que ser próspero é, também, ter abundância daquilo que o dinheiro não pode pagar.
Desconsiderar que vivemos num país onde a desigualdade social perpassa as relações, é querer fugir da realidade. Inclusive, nas casas de axé podemos ter pessoas que já estão com suas vidas minimamente equilibradas, mas também aquelas que estão no início da jornada, correndo para conseguir estruturar a vida. Pessoas de profissões bem-vistas pela sociedade – engenheiros, professores, médicos, enfermeiros, bem como pessoas cujas profissões estão na base da pirâmide social. Qual é o candomblé que efetivamente queremos em nossas casas?
Faz sentido para vocês?
Xêro!
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