20/11/2025
*A FORÇA DAS NOSSAS VERDADES ESPIRITUAIS*
Inquieta-me profundamente a proliferação de debates — muitas vezes estéreis e intermináveis — acerca das supostas “verdades” que permeiam nossas tradições religiosas de matrizes africanas.
Quando me refiro às matrizes africanas, falo especif**amente do Candomblé e do Culto de Ifá: dois sistemas religiosos iorubanos distintos em estrutura, mas complementares em essência. O Candomblé, enquanto reconfiguração brasileira do Culto Lése Orixá, e Ifá, vinculado ao destino e ao odu pessoal de cada indivíduo sobre a Terra, regido pelo Orixá Orunmila, desmontam por si só a ideia — sustentada por alguns — de que apenas africanos e seus descendentes na diáspora teriam sua ancestralidade espiritual vinculada ao continente ancestral. Tal questão, porém, merece tratamento próprio em outro ensaio mais detalhado.
É sabido que, embora esses cultos tenham surgido em solo africano, muitos se reconfiguraram na diáspora, preservando, em alguns casos, elementos que sequer subsistem no continente. No final do século XIX e início do século XX, ocorreram diversos intercâmbios entre África e Brasil visando restaurar aqui aspectos que lá se haviam perdido — intercâmbio este que, em menor escala, também se deu em sentido inverso.
Contudo, a cada dia despontam novas “verdades”: novas divindades, novos métodos de oferendar, novas formas de cantar e dançar — quase sempre relegando ao equívoco tudo aquilo que aqui foi construído, como se apenas aquilo que chega revestido de modernidade e legitimado como “tradicional” fosse a única expressão autêntica da religião.
O mesmo ocorre com Ifá. A nós, da tradição afro-cubana, acusam frequentemente de sermos inventores ou praticantes de um Ifá “deturpado”, esquecendo-se de que a ilha preservou o culto tal como o recebeu dos velhos africanos que ali chegaram desterrados. Cuba não inventou: conservou. E preserva até hoje as metodologias, doutrinas, liturgias e teologias transmitidas pelos primeiros sacerdotes. Praticamos Ifá como nos foi legado há mais de duzentos anos, mantendo ritos e normas estáveis, sem variações entre países — diferentemente do que se observa no Brasil, onde vemos africanos praticarem aqui rituais que jamais realizariam em suas próprias terras.
Minhas inquietações partem de três premissas fundamentais:
Primeiro, observo a fragilidade da convicção religiosa daqueles que, subitamente, descartam tudo o que aprenderam porque alguém afirmou que “em África não é assim”, como se a ancestralidade fosse um argumento que legitimasse rupturas sem reflexão.
Segundo, causa-me desconforto a postura desrespeitosa de muitos desses neófitos que, ao abandonarem a tradição que os formou, passam a agir como portadores exclusivos da verdade absoluta.
Por fim, incomoda-me a figura daquele que, após duas ou três viagens ao continente africano e a visita a meia dúzia de aldeias, retorna como se fosse o maior especialista da Terra, tratando todos os que aqui permanecem como ignorantes sedentos por seu saber singular e inquestionável.
A verdade religiosa reside naquilo que nos faz bem, nos traz resultados concretos e assegura a paz de espírito. Pouco me importa se, em algum recanto distante, Xangô não aceita quiabo. Interessa-me que, há quinhentos anos, o cultuamos dessa forma no Brasil e sempre recebemos sua resposta.
Recordo-me de um dos primeiros teólogos cristãos, que, diante da ausência de provas históricas sobre a existência material de Jesus Cristo, afirmou: “A mim pouco importa se Ele existiu ou não. O que importa é que creio.” Assim também penso eu. Não me importam as “verdades” de cada um; importa-me no que creio — e disso não abro mão. Um religioso que renuncia às suas crenças fragiliza-se moralmente e torna-se irresponsável para com aqueles que o seguem.
É evidente que não devemos nos tornar fundamentalistas ou dogmáticos. Devemos aprender sempre, absorver novos conhecimentos que venham como aporte, como robustecimento daquilo que já nos foi legado. Sabemos que, no Culto aos Òrìṣás, por mais que vivamos, jamais aprenderemos tudo. Contudo, há um limite: o novo não pode se opor frontalmente aos fundamentos tradicionais, pois nossa religião repousa também sobre costumes, práticas e legados transmitidos pelos mais velhos.
Minhas verdades coexistem com as verdades alheias, e assim seguimos. Busco sempre conhecer mais, mas minha fé permanece firmemente assentada naquilo que recebi, vivenciei e comprovei. Não imponho minhas verdades a ninguém, mas tampouco admito que tentem impor as suas a mim. Esta é uma postura da qual não me desvio.
Àṣẹ tó ibáń ẹṣù.
Babalawo Marcio Obeate Ifairawo