Centro de Missões JMC

Centro de Missões JMC O Centro de Missões JMC é um núcleo interno do Seminário Rev. José Manoel da Conceição. O Centro de Missões - JMC é um núcleo interno do Seminário Rev.

José Manoel da Conceição, composto por seminaristas, sob a orientação do professor Rev. Jair de Almeida, Coordenador do Centro de Missões - JMC. Por iniciativa da direção, o Centro de Missões foi oficialmente estabelecido em 2011, e visa:

* Conciliar a prática missionária à formação teológica.
* Incentivar vocações missionárias.
* Mobilizar e conscientizar seminaristas comprometidos com o Senhor

para a proclamação da fé reformada.
* Capacitar membros/líderes de igrejas reformadas em campos fora e dentro do Brasil.

29/01/2025

Uma receita de vida
“Por isso, não desanimamos; pelo contrário, mesmo que o nosso homem exterior se corrompa, contudo, o nosso homem interior se renova de dia em dia. Porque a nossa leve e momentânea tribulação produz para nós eterno peso de glória, acima de toda comparação, não atentando nós nas coisas que se veem, mas nas que se não veem; porque as que se veem são temporais, e as que se não veem são eternas” (2 Co 4.16-18).
É curioso como nosso ânimo está associado à satisfação de nossas vontades. Se algo ocorre que seja contrário àquilo que queremos, logo perdemos a vontade de “viver”. É interessante que a palavra “desânimo” significa literalmente aquilo que é contrário ao “ânimo”. O termo anima em latim significa “alma”. Desânimo é aquilo que reconhecemos contrário à nossa alma, isto é, à vida conforme julgamos, queremos ou desejamos, uma espécie de barreira para o que pretendemos viver. Colocando isso de outra forma, o desânimo é um apagamento da alma, algo que leva à letargia e à passividade.
Paulo diz no texto epigrafado que “por isso” não desanimamos. O apóstolo estava falando da glória da ressurreição: “por isso”, não desanimamos. Ainda que nosso homem exterior se corrompa, nosso corpo, nosso homem interior, ou seja, nossa alma, se renova a cada dia. A certeza da ressurreição é aquilo que traz a nós as forças para viver um dia por vez. É curioso como o pecado tem o poder de desfocar o principal e centralizar o secundário. Jesus veio para morrer, ressuscitar, para nos devolver a habitação do Espírito Santo.
O apóstolo Paulo, para mostrar a centralidade da ressurreição à fé cristã, diz: se Cristo não ressuscitou é vã a nossa fé, é vã a nossa pregação e somos os mais infelizes de todos os homens. É como se dissesse que, se tirarmos a ressurreição do cristianismo, sobra apenas a tristeza da presente vida que antecipa a condenação. A ressurreição final, física, corporal, de todos os eleitos, é a salvação! No entanto, aparentemente o chamado crente atual diz crer na ressurreição de Cristo, mas se esquece de que Jesus ressuscitou para que ele pudesse ressuscitar também, e que, apenas isso, é salvação, apenas isso é o evangelho de Cristo. O foco na ressurreição de Cristo parece ser somente o destaque conveniente do Jesus Todo-Poderoso para realizar aquilo que o homem deseja.
Dizendo isso de outra maneira, olha-se para a ressurreição de Jesus como a comprovação de que ele é o Filho de Deus, assim capaz de fazer tudo o que eu quero. Não se adora a Deus pelo fato de que Jesus ressuscitou e eu também ressuscitarei, mas por Jesus ter ressuscitado e, por isso, poder me dar o que eu quero para essa terra. Quer-se manipular o poder do Senhor segundo as intenções humanas e terrenais. Por isso que os sofrimentos são tão importantes para nós, o tema que segue a argumentação paulina no texto epigrafado. Na vida do ímpio, geralmente, o sofrimento apenas intensifica sua revolta contra o Criador, todavia, na vida do crente, expande seu conhecimento de Deus, aufere seus valores, corrige qualquer desvio, o aproxima de Cristo.
Um efeito que perpassa todas essas aplicações é mostrar o peso inigualável da glória. Os sofrimentos dessa vida têm o papel importantíssimo de comprovar para o crente que seu objetivo jamais poderá ser a presente vida. A impressão que se dá, uma vez que a atual geração de crentes praticamente se esqueceu de que há ressurreição final e, por isso, se apega exageradamente a esta terra, é que se Deus apenas nos desse imortalidade neste mundo já seria maravilhoso, uma simples fuga da morte física. Não precisamos morrer e ressuscitar!
O crente parece não compreender que esse mundo é miserável, amaldiçoado pelo pecado, cheio de sofrimentos, maldades, traições, incompreensões. É aqui que você quer passar a eternidade? Eu não! De jeito nenhum! A glória me espera! Essa vida não vale os nossos melhores esforços. Por isso, temos a obrigação de buscar em primeiro lugar o reino de Deus e a sua justiça. Esse é o motivo de nossa existência, a única razão para viver. Assim, os sofrimentos servem para que nos decepcionemos cada vez mais com a presente existência e almejemos a eternidade, a ressurreição, a vida na Criação restaurada na comunhão com o Cristo encarnado e todos os eleitos, com todas as nossas forças. Aquilo que mais quero é que chegue logo o momento em que não vou mais pecar.
Todo crente já teve o estranho sentimento de querer fugir de si mesmo, por odiar o pecado, por não querer ser quem ainda é: um pecador. É mais do que lamento, verdadeira ojeriza, nojo. Já imaginou o que é uma vida verdadeira, não isso que temos aqui, esse morrendo, essa morte esticada, quando vamos morrendo aos poucos. A verdadeira vida não apenas exilará todo sofrimento, dor, dificuldade, mas também, fará com que você não tenha qualquer cobiça. Experimentaremos intensamente Deus em nós, nossas palavras serão santas, planejaremos naturalmente todas as coisas da maneira que glorifique ao Criador.
Será o momento quando a dor e o sofrimento serão simples memórias de uma existência maldita que ficou definitivamente para trás, registros mentais que, ao invés de nos trazer tristeza, serão motivo de intensa gratidão pelo contraste com a glória que já estaremos vivendo, razão de nosso louvor e adoração eternos a Deus e a Cristo. É para isso que temos que olhar, diz o apóstolo Paulo, apenas para isso. Os problemas e o sofrimento não devem cativar nossa visão, apenas nos lembrar da realidade maldita da presente existência, verdadeiro motor para que não nos dediquemos a ela, mas sim ao reino de Deus. Nossos olhos devem estar cravados na glória, antevendo e antecipando por fé aquilo que esperamos e que está por vir. Pela fé podemos tornar substância aquilo que ainda é uma promessa.
Desapega! Liberte-se da presente existência, do pecado, da vida meramente material! Busque e agarre-se aos valores espirituais, eternos. Dê graças a Deus porque essa presente existência passa, já está passando, e a glória nos espera. Não espere! Antecipa-a por fé, vivendo o novo homem que já foi implantado em você. Antecipe a ressurreição o máximo que puder! Diga um sonoro NÃO para essa existência e anteveja a ressurreição a cada momento, antecipe essa realidade sobrepondo-a à presente existência, experimentando-a já por fé. Haverá alegria, paz, tranquilidade. Dores e dificuldade farão com que você, ao invés de desaminar, queira e busque ainda mais a vida de ressurreto. Essa é a receita da verdadeira vida. Tenha um excelente dia na presença do Ressuscitado (Rev. Jair de Almeida Junior).

30/10/2024

Verdade do começo ao fim
“Então, aparecerá no céu o sinal do Filho do Homem; todos os povos da terra se lamentarão e verão o Filho do Homem vindo sobre as nuvens do céu, com poder e muita glória” (Mt 24.30).
Religiões sempre existiram no mundo. No entanto, por que o cristianismo foi a que alcançou os quatro cantos da terra? Certamente, há fatores que explicam isso. Primeiramente, o cristianismo foi a primeira proposta religiosa categorizada como “religião de missão”. Todas as religiões conhecidas, mesmo o judaísmo, eram religiões de povos específicos. Embora fosse, de certa forma, comum dentro da estrutura politeísta, admitir a crença em deuses de outros povos, nunca houve na história uma religião que se propusesse como mundial, convocando seus seguidores a espalhá-la por todo planeta. Os deuses eram vistos como ligados diretamente a nações específicas cujos integrantes assumiam o compromisso de as adorar. Além disso, a proclamação cristã está baseada na ressurreição de seu maior ícone. Jesus Cristo não é aquele que apenas propõe a vitória sobre a morte para os seus seguidores, mas é o que primeiramente passou pela morte e a venceu. A comprovação máxima de sua mensagem e da veracidade daquilo que ele dizia ser é constatada na sua ressurreição testemunhada por inúmeras pessoas. A ressurreição, em si mesma, é também um distintivo do cristianismo.
Geralmente, a teologia pagã das demais religiões propõe vida eterna apenas espiritual, uma existência junto com as divindades ou em um paraíso que reflete os maiores anseios do coração humano. É verdade que esses “paraísos” ainda assim são pensados fisicamente, como se o além-túmulo implicasse ainda algum tipo de corpo, como é visto no caso do paraíso dos mulçumanos com suas setenta e duas virgens para os fiéis ou mesmo a Terra sem Males dos tupis no Brasil, lugar de caça e pesca abundantes. Essas concepções de vida após a morte claramente pressupõem fisicalidade. Porém, Jesus Cristo ressuscitou neste mundo em que vivemos, uma clara indicação que será aqui que passaremos nossa eternidade.
No "cronograma” estabelecido pelo Deus das Escrituras, todos os eleitos que morrem vão para o chamado “estado intermediário da alma”, uma existência desencarnada no céu, onde vivem de forma muito parecida à dos anjos. No último dia, então, serão ressuscitados, quando a alma se reunirá indissolúvel e eternamente com o corpo, agora refeito de matéria incorruptível. A proposta de uma ressurreição para este mesmo mundo, junto com a restauração de todas as coisas, também não se encontra em outras propostas religiosas, tudo garantido pelo Deus-homem que efetuou a obra de redenção. A ideia redentora é tipicamente judaico-cristã. As elevadas ética e moral estabelecidas nas Escrituras, reflexos do próprio Deus Criador, evidencia o pecado da criatura humana.
O Deus apresentado nas Escrituras é santo e perfeito, muito distinto da proposta politeísta dos muitos paganismos que anunciam uma multidão de deuses tão falhos e pecadores quanto os homens que os buscam. Dessa forma, aqueles que se aproximam da divindade conforme descrita na Palavra têm que refletir sua mesma santidade. Esse foi o padrão da Criação. Deus refletiu em tudo o que criou a santidade de seu caráter. Uma vez que o homem caiu em pecado, não mais pôde acessar o Criador santo. Era necessário que morresse, justa condenação para satisfazer a justiça do único Deus que não pode aceitar o pecado. Uma vez que isso implicaria aniquilação da espécie humana, a divindade assume a condição humana para realizar aquilo que os homens não podem fazer. Deus se faz homem para salvar homens que quiseram ser deuses, morre no lugar deles, quitando assim a dívida de todos aqueles que escolheu. Essa ideia de Deus redentor é própria apenas do cristianismo.
As duas naturezas do Redentor também ocorrem de forma bastante peculiar. Nas religiões conhecidas na época do Novo Testamento havia semideuses, híbridos fruto do adultério de algum deus com uma mortal. Também se admitia o fato de deuses assumirem formas humanas, mas nunca jamais se projetou a ideia de algum deus tendo uma natureza humana definitiva, em paralelo com sua divindade. Jesus Cristo é um homem perfeito e Deus, ao mesmo tempo. Teria que ser cem por cento homem para poder assumir o nosso lugar na vida e na morte. Esse Deus que se manifestou no meio dos homens também como homem foi assunto aos céus, prometendo retorno no devido tempo. Isso leva a algo também típico da mensagem cristã, que tem sido deixado cada vez mais de lado pela igreja atual: o retorno de nosso Salvador. Tal ocorre especialmente devido à secularização da igreja, que crava seus olhos muito mais nas coisas relativas à presente existência do que na vida eterna, bem como, à aparente demora da volta de Cristo.
O retorno glorioso de Cristo para julgar vivos e mortos foi algo que também alavancou a fé cristã, pois estabelece juízo e justiça como o final de todas as coisas, mostrando a sublimidade da glória que está preparada para todo o que crê. Todos esses fatores, o conteúdo da pregação cristã, fez com que o cristianismo se destacasse acima de toda proposta religiosa, mas, acima de tudo, o fato de ser a expressão da única verdade relativa ao único Deus verdadeiro. É estranha a transformação que vive a igreja de hoje, detendo-se no “meio do caminho” da fé, desprezando a glória da ressurreição final no retorno de Cristo, preferindo as benesses da presente existência em um mundo de pecado. Toda meia-verdade é uma mentira inteira; um evangelho pela metade é um falso evangelho.
Cuidemos para viver a integralidade do ensinamento de Cristo, não apenas por uma questão de coerência, mas por ser realmente a plenitude da salvação, a bênção maior e incomparável, o retorno à vida perfeita com Deus. Rechace toda proposta alternativa, ainda que tenha alguns elementos cristãos. Creia na integralidade das Escrituras, sem eleger pontos da verdade. Compreendamos isto: se alguém que se diz crente não anseia o retorno de Jesus e a completude da salvação na ressurreição dificilmente é alguém que verdadeiramente crê. Tenha um excelente dia na presença do Senhor (Rev. Jair de Almeida Junior).

29/10/2024

Ter ou não-ter: eis a questão
“mas da árvore do conhecimento do bem e do mal não comerás; porque, no dia em que dela comeres, certamente morrerás” (Gn 2.17).
Na antropologia, uma das maiores dificuldades relatadas pelo pesquisador é encontrar o ponto exato entre o envolvimento com a cultura e seus integrantes, para poder descrevê-la a fundo e por experiência, mas preservando certo distanciamento, para ter a capacidade de narrar de forma isenta, imparcial, e sem imposições de sua própria cultura. Tal tarefa é geral e virtualmente impossível. O mesmo desafio enfrentam os tradutores. A palavra no português “tradutor” se liga diretamente ao termo latino traditore¸ que significa literalmente “traidor”. Em italiano há até mesmo o ditado: “traduttore, traditore”, que literalmente quer dizer: “tradutor, traidor”.
A expressão se aplica à completa impossibilidade de total isenção em uma tradução. Por mais que o tradutor queira (e precise!) ser fiel às ideias do texto que traduz, sua compreensão é fruto de seus pressupostos e valores, já determinando, assim, os termos que optará, bem como, a escolha entre os significados possíveis. O ser humano não é uma “impressora”, um mero “repetidor de sinais”. Qualquer leitura que faça, quer seja de uma situação, de uma cultura, de um acontecimento, de um texto, ou faça uma tradução, espelhará algo de si.
Quando aplicamos esse princípio à queda e ao homem caído, é possível compreender que o “ter” não nos dá a conhecer tanto como o “não-ter”. Um indivíduo como ator cultural, por estar inserido em sua cultura e vive-la naturalmente, não poderá descrevê-la como alguém que não a vive, aquele que a vê “de fora”. É verdade que também não a conhecerá tão profundamente como alguém que nasceu inserido nela. Adão não conhecia o que era morte, pois nada morria no Éden. Era uma ordem perfeita. Nem mesmo entre os animais havia presa e predador. Do ponto de vista bíblico, vegetal não morre, pois não derrama sangue. O conceito de “vida” não se aplica aos vegetais, o que está longe de dizer que as Escrituras neguem alguma modalidade de vida neles. A questão é que a Bíblia especifica “vida” àquilo que possui sangue. Portanto, antes da queda não havia morte alguma, mesmo quando Adão comia um vegetal.
Ora, como então foi possível para o primeiro homem entender o que pairava sobre ele como condenação à desobediência? É exatamente esse o ponto que desejamos destacar: é possível que, em certas ocasiões, o “não-ter” possa conceder uma experiência mais clara do que o “ter”. O conceito de morte era completamente estranho ao primeiro casal, pois a morte veio de carona com o pecado. O pecado “entrou” no mundo, conforme diz o apóstolo Paulo: “Portanto, assim como por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado, a morte, assim também a morte passou a todos os homens, porque todos pecaram” (Rm 5.12). O pecado veio de fora da Criação, algo não criado pelo Senhor. Dentro dele, funcionando como veículo, transportava a morte.
Dessa forma, desconhecendo o que era “morte”, Adão possivelmente pôde projetá-la de forma mais clara e plena do que nós, que morremos. Por não vive-la, foi o único que passou a vive-la, tendo o conhecimento do que foi o ter e o não-ter, a perda da santidade, da perfeição, da habitação com o Criador. Mesmo antes de cair, entendia a morte como uma “lógica reversa”, como o contrário de toda a bem-aventurança edênica que vivia. Morte, para o primeiro casal, significava perda, separação, privação, conceitos que vão além da simples morte biológica. O homem natural e pecador, chafurdando no lamaçal do pecado, não consegue descrever com isenção sua própria realidade. De igual modo, é possível dizer que, como crentes, temos uma compreensão melhor da importância da eternidade do que Adão que a vivia, como uma espécie de saudade seminal do Éden.
Entendamos que “perfeição” não significa experiência total e absoluta. Adão sentiu falta, real necessidade, mesmo em seu estado de perfeição. Necessitava de uma mulher. É provável que o Senhor não tenha criado Eva juntamente com Adão para lhe dar o senso da importância e do valor do ser que seria criado. De igual forma, pode ser que a queda tenha também esse efeito: compreender e valorizar muito mais o Criador e a vida com ele. Certamente, o homem sem Cristo não pode ter essa noção, pois seu coração continua morto para as coisas espirituais. As saudades do paraíso serão deturpadas em seu coração, transformando-se em projeções de suas próprias cobiças e carnalidades. Por exemplo: segundo o islamismo, os mártires têm direito a setenta e duas virgens na eternidade!
Portanto, apenas aquele que já nasceu da água e do Espírito, que já foi purificado e recebeu uma nova natureza em sua união com Cristo, é que pode perceber a perda da santidade e anelar por ela. É verdade que: “como está escrito: Nem olhos viram, nem ouvidos ouviram, nem jamais penetrou em coração humano o que Deus tem preparado para aqueles que o amam”. Porém, o texto segue: “Mas Deus no-lo revelou pelo Espírito; porque o Espírito a todas as coisas perscruta, até mesmo as profundezas de Deus” (1 Co 2.9-10). As coisas que estão ocultas aos olhos do homem natural são conhecidas pelo homem espiritual. Embora não vivamos mais no lamaçal do pecado, por vezes caímos em algum atoleiro. Somos como que híbridos, já nascidos de novo, mas ainda pecadores. Estamos nas duas categorias do “não-ter”: não temos a santidade original, não temos a pecaminosidade como o homem natural. Implica dizer que temos santidade parcial e pecados ocasionais.
A única forma de perceber totalmente a santidade por sua ausência seria um não-regenerado poder contemplá-la. Todavia, isso é completamente impossível! Em nossa condição como genuínos cristãos, é-nos vedado o conhecimento da santidade perfeita, apenas a anelamos, bem como, da inteira pecaminosidade, embora possamos imaginá-la, ou mesmo, recordá-la, para aqueles que foram convertidos já em idade adulta. De certa forma, o apóstolo Paulo utilizou exatamente essa estratégia em Romanos 7.7-25, quando cria um “eu” ímpio que procura fazer o bem por seus próprios esforços e conduz a igreja de Roma e “encarná-lo”, para imaginar e compreender o que seja isso. Nossa responsabilidade é viver mais e mais a vida regenerada, mirando aquilo que não temos: a glória do porvir. É isso o que devemos buscar! É na glória que devem estar radicados os nossos pensamentos! É a consciência das promessas de Deus em Cristo o motor de nossa vida cristã. Tenha um excelente dia na presença do Senhor (Rev. Jair de Almeida Junior).

28/10/2024

Para e Pense
“Não é bom proceder sem refletir, e peca quem é precipitado” (Pv 19.2).
Refletir é uma necessidade vital para o ser humano caído. Isso se dá pois perdeu a capacidade de agir dentro dos limites da simples e perfeita vontade de Deus. Adão, como homem perfeito, tinha a capacidade de fazer apenas aquilo que estava em harmonia com o Criador. Tudo o que realizava o homem era santo. Não havia o estabelecimento de qualquer princípio regulador do comportamento, pois esse ser não pecava, embora tivesse tal capacidade se estimulado por fatores externos à perfeita Criação de Deus.
Além disso, como imagem e semelhança daquele que o fez, o ser humano fazia tudo o que era estritamente o propósito do Senhor para sua vida. É como se estivesse “em rede” com o Criador. Vivia a vontade de Deus! Decidia sempre aquilo que o Senhor já havia determinado para ele. Sua mente estava conectada à divindade a fim de governar todas as coisas criadas, no mundo físico e material, de acordo com a perfeita vontade de Deus. No entanto, perdeu essa bendita existência. Toda queda implica limitação, diminuição, pois é afastamento de Deus. A perda da comunhão e da harmonia com o Criador fez com que o ser humano se perdesse em seus próprios pensamentos, alijando-se da verdade real que é Deus. Quando se está no centro da vontade do Senhor, é o próprio Deus quem garantirá aquilo que ele mesmo já determinou.
Colocando isso de outra forma, todo aquele que vive a vontade de Deus tem o poder do Senhor a seu favor. É por isso que temos textos como: “O Senhor é a minha luz e a minha salvação; de quem terei medo? O Senhor é a fortaleza da minha vida; a quem temerei? Quando malfeitores me sobrevêm para me destruir, meus opressores e inimigos, eles é que tropeçam e caem. Ainda que um exército se acampe contra mim, não se atemorizará o meu coração; e, se estourar contra mim a guerra, ainda assim terei confiança” (Sl 27.1-3). O homem caído prefere se estabelecer como sua própria verdade, levanta-se contra a realidade de Deus, perdendo-se em seus próprios raciocínios (Rm 1.17ss). Voltando as costas ao Senhor, estabelece-se como a medida de todas as coisas, o cânion da verdade. Transformou a realidade naquilo que pode conhecer e decifrar as suas ciências.
Dessa forma, reduziu a verdade à medida do intelecto humano. O homem está no escuro, tateando em busca da verdade. Destarte, prova-se a necessidade vital da reflexão antes de falar, antes de fazer. Tendo perdido a unidade de pensamento com o Criador, muitos raciocínios falazes e vontades alternativas à santidade brotam constantemente em sua mente e coração, levando-o à operação do erro, à prática do pecado. É verdade que mesmo um não-crente em Cristo concordará com a necessidade de refletir antes de agir. No entanto, sua reflexão será centrada em si mesmo, medindo qual é a melhor forma de alcançar os resultados que pretende, o caminho melhor para chegar àquilo que o beneficia.
Certamente, não é essa a reflexão que está em pauta no provérbio. Escrevendo ao seu povo, Salomão tem em mente a medição de tudo o que pretendemos com base na vontade de Deus. Cristo é o padrão de tudo o que devemos pensar e agir. O Santo Espírito de Deus nos transforma paulatinamente à imagem de Jesus, concedendo-nos, inclusive, a mente de Cristo. Paulo diz explicitamente isso: “Pois quem conheceu a mente do Senhor, que o possa instruir? Nós, porém, temos a mente de Cristo” (1 Co 2.16). Significa dizer que, a partir do Pentecoste, tornada a igreja Casa de Deus pela habitação do Espírito Santo, voltamos a acessar a mente de Deus, embora ainda parcialmente e em um crescendo, não ainda em harmonia perfeita como experimentou o primeiro casal antes de pecar.
A plenitude da vida na ressurreição final é também o retorno à vida “em rede” com o Criador, pensando, agindo, tendo todas os desejos em linha com a vontade e o propósito de Deus. Em termos práticos, por exemplo, implica ter cada vez mais orações atendidas na íntegra, pois, acessando a mente de Cristo, refletiremos a vontade de Deus em tudo o que pedirmos, resultando súplicas em harmonia com aquilo que o Senhor já tem determinado para nós. O resultado será paz, alegria, firmeza, confiança inabalável em Deus. Sensíveis à vontade do Senhor, à mente de Cristo, nossa vida ganhará consistência tal que seremos inabaláveis, fé e confiança sólidas, monolíticas.
Eis a necessidade da reflexão em tudo o que fizermos: viver no centro da vontade e dos decretos de Deus. A forma como Salomão constrói o provérbio deve também ser compreendida. Quando diz que “não é bom” agir sem refletir, não está falando de algo simplesmente agradável. O que está realmente dizendo é que agir sem refletir não é correto, não é acertado. Quem age repentinamente, sem a devida e cuidadosa reflexão, está deliberada e conscientemente se expondo ao erro, ao pecado. Por isso, nisto já está pecando. Assim, quem reage impulsivamente já está pecando pelo “método” e a atitude tomada dessa forma geralmente também resultará pecado. Lembremos que o gênero “provérbio” não estabelece verdades “matemáticas”, mas probabilidades. Pode ser que alguém pense: “mas, em determinada ocasião, se eu não tivesse agido instantaneamente e sem pensar, teria sofrido isso ou aquilo”.
O resultado pecaminoso de uma atitude tomada precipitadamente ocorrerá na maioria das vezes, não em todas. Por outro lado, não existem regras de exceção. Não é possível se estabelecer normas para a excepcionalidade. Devemos entender que não podemos agir sem refletir, pois em si já estamos pecando pelo método, bem como, na maioria esmagadora das vezes, resultará erro e pecado. O livro de Provérbios, como livro de sabedoria, é todo construído e estruturado pelo uso da poesia hebraica. Dessa forma, nosso texto pode ser definido como um paralelismo climático ou cumulativo, quando a segunda sentença avança um pouco mais e mostra um resultado da primeira sentença. O “não é bom” da primeira sentença é substituído por “peca” na segunda, como o provável resultado. No entanto, como vimos, o sentido de “não é bom” é “não é correto”, podendo então ser um paralelismo sinônimo, quando as duas sentenças do provérbio afirmam exatamente a mesma coisa. De qualquer forma, destaca-se o pecado como resultado daquele que é precipitado.
Lembremos que o que está em jogo não é meramente o bom ou mau-sucesso das obras de um determinado sujeito, mas o bom ou mau testemunho de um crente. As precipitações devem ser evitadas não por causa do prejuízo meramente humano, porém, devido ao escárnio do nome de Cristo. Ninguém será desculpado por seu descontrole, por sua precipitação, que trouxe como consequência a ridicularização da glória de Deus. Essa deve ser a nossa maior preocupação, não simplesmente o prejuízo pessoal por ações mal tomadas. Ajamos de forma devida, com cautela e precaução. Meçamos nossas palavras e atitudes! É necessário parar e pensar! Tenhamos como compromisso refletir a vontade de Deus em tudo o que fazemos. No entanto, isso só acontecerá na medida em que me dedicar na comunhão profunda com Cristo, diariamente. É assim que crescerei no acesso à mente divina, tornando minha alma naturalmente disposta à vontade revelada de Deus e ao seu propósito para minha vida. Tenha um excelente dia na presença de Jesus (Rev. Jair de Almeida Junior).

24/10/2024

A vida na eternidade
“A justiça será o cinto dos seus lombos, e a fidelidade, o cinto dos seus rins. O lobo habitará com o cordeiro, e o leopardo se deitará junto ao cabrito; o bezerro, o leão novo e o animal cevado andarão juntos, e um pequenino os guiará. A vaca e a ursa pastarão juntas, e as suas crias juntas se deitarão; o leão comerá palha como o boi. A criança de peito br**cará sobre a toca da áspide, e o já desmamado meterá a mão na cova do basilisco. Não se fará mal nem dano algum em todo o meu santo monte, porque a terra se encherá do conhecimento do Senhor, como as águas cobrem o mar” (Is 11.5-9).
Recentemente fizeram-me uma pergunta que não tive a oportunidade de responder devidamente: como será a nossa vida na eternidade? Concentrei-me em mostrar, primeiramente, o erro que geralmente se comete, ao pensar na vida eterna como se fosse eternamente no céu. Esse conceito é inteiramente antibíblico e pagão. Todas as religiões do mundo afirmam a existência de uma vida “desencarnada”, apenas espiritual, no além-túmulo. Geralmente, tal crença se estriba em um tipo de sensu comum equivocado de que o corpo é mau, atribuindo à matéria um status inferior ao espírito. É verdade que a realidade máxima é espiritual, não material. Nós vivemos pelo que não vemos, nossos alvos são espirituais, bem como, a verdade acima de todas: Deus é espírito. A essência de Deus é espiritual, não material. Portanto, a realidade pré-existente, a origem da própria existência como a conhecemos, a gênese de todas as coisas tem como essência aquilo que é espiritual.
Contudo, é necessário afirmar também que o mal é moral, é espiritual, não físico. O pecado sempre se origina na alma, não no corpo. Mesmo pecados que são eminentemente “físicos”, envoltos em sensações corporais, estas são traduzidas e assimiladas pela alma, transformando-se em paixões, vícios que acabam por dominá-la. Um corpo morto nada pode fazer. É a alma que leva o corpo a pecar. Se o corpo fosse pecaminoso, Jesus jamais poderia ter assumido um corpo corruptível como o nosso. Por isso, lembremo-nos que, conquanto o espiritual compartilhe a essência daquele que nunca foi criado, o homem foi gerado portador de duas essências: uma física e outra espiritual. Embora seja esta que governe aquela, isto é, o corpo é apenas o veículo do espírito para transitar no mundo físico, constituem um ser indivisível. Isso mesmo: indivisível!
Ora, então como que na morte o corpo e a alma se separam? Percebe-se, assim, a violência, a atrocidade, o inominável que significa a morte de um ser humano. O ser é como que rasgado ao meio, dividido em suas duas essências. Assim, não nos esqueçamos que a salvação é exatamente a eliminação dessa realidade da existência humana. Salvação é ressurreição! Antes da ressurreição ainda não se experimenta a plenitude da redenção. Aqueles que estão no céu hoje, gloriosos em espírito, permanecem mortos! Existem apenas espiritualmente! É na ressurreição que deixarão o status de “mortos” para estar novamente “vivos”, vivos eternamente. Entendamos, portanto, que a salvação levada a cabo por Cristo salva o corpo e a alma, não apenas esta, bem como, a vida eterna se dará nessa terra transformada, restaurada ao seu padrão edênico.
Para entendermos nossa vida no porvir, temos que, primeiramente, resgatar este entendimento: será uma realidade física, não apenas espiritual. Isso posto, não temos qualquer texto nas Escrituras que mostrem, com clareza, como se dará a vida plena na eternidade. Apocalipse mostra a realidade do estado intermediário, da alma dos crentes no céu, aguardando a ressurreição, e isso, de forma figurada. Talvez o único texto que mostre a realidade da plenitude física, pós-ressurreição final, seja o que se encontra epigrafado. Percebamos a ênfase na “justiça”, na ausência de qualquer possibilidade de praticar o mal. Como dizia Agostinho, é o non posse peccare, ou seja, não há qualquer possibilidade de o pecado entrar novamente no mundo.
É interessante que, geralmente, nos escapa algo que está ligado à necessidade da justiça, outra forma de dizer “santidade”. É comum pensarmos na necessidade da justiça ligando-a à essência santa e divina do Criador. No entanto, parece que a entendemos como uma mera “exigência”, não prestando atenção ao “motivo” da necessária justiça: relacionamento! A justiça que nos é exigida, aquela que foi alcançada para nós em Cristo, não é uma espécie de credencial, mas a capacidade para se relacionar com Deus e com todas as coisas santas que ele criou. Colocando isso de outra forma, a “vida” que Deus criou, não essa existência decadente, morte gerúndia que experimentamos agora, é eminentemente “relacional”. Deus criou todas as coisas e todos os seres santos, perfeitos, para se relacionarem com ele e entre si.
Reparemos que Isaías descreve a existência física pós-ressurreição com a convivência entre os animais e o relacionamento do ser humano com eles. A figura da criança exalta a segurança que haverá, pois frágil como é, não correrá nenhum perigo na presença de animais que facilmente causariam sua morte em nossa existência, pois não há mais morte, presa e predador. Um dos divertimentos da criança, no mundo perfeito, será br**car com o basilisco, ou seja, com a serpente, com todos os animais hoje chamados “selvagens”, assim como br**ca com seu cãozinho, pois não há mais maldição do pecado, nem mesmo sobre a serpente. Todos poderão ser “pets”. Porém, precisamos perguntar: o texto é simplesmente figurativo ou realmente haverá crianças no mundo do porvir?
Geralmente se acredita que a “idade” da ressurreição será “a estatura de varão perfeito” de Jesus Cristo, a idade em que o corpo humano encontra sua exuberância e maturidade, por volta dos trinta anos. Haverá casamento no mundo pós-ressurreição? Como se dará o relacionamento entre os sexos no mundo restaurado é uma resposta difícil de se dar. Jesus dá uma explicação um tanto difícil para nós. Ele afirma categoricamente: “Porque, na ressurreição, nem casam, nem se dão em casamento; são, porém, como os anjos no céu” (Mt 22.30). Percebamos que, quando realmente somos como anjos é no estado intermediário, momento em que vivemos apenas espiritualmente no céu. Um espírito é assexuado.
Todavia, o ser humano foi criado distinto, macho e fêmea, com órgãos característicos e até uma constituição física diferente típica dos sexos. O próprio Cristo, quando ressuscitou, ressurgiu homem, não assexuado. A ressurreição física, com toda certeza, preservará a distinção sexual, assim como foi a ressurreição de Cristo. Portanto, como entender o que será? É exatamente esse o ponto. É possível que Jesus tenha dado uma resposta que esbarra nos limites de nossa compreensão. Ele afirma que a resposta está nas Escrituras (v. 29). No entanto, aparentemente, não podemos compreender o que será. Haverá homens e mulheres e comporão uma sociedade perfeita. Eles se relacionarão, mas o que será isso, não o sabemos. Parece ser uma realidade incompreensível para nós hoje.
O princípio que permanece e prevalece em tudo o que temos argumentado é que o mundo perfeito é aquele onde todos se relacionam na esfera da existência eterna e perfeita do próprio Criador. Isso nos leva, também, a compreender, que é estritamente a “justiça”, a santidade prática, aquilo que nos habilita aos relacionamentos. É exatamente sua falta que causa o mundo no qual existimos, cheio de divisões e atritos, não apenas entre os seres-humanos, mas também deles com a Criação e deles com o Criador. Pessoas santas sabem se relacionar, sendo sempre bênção uma para a outra. Santos sabem se relacionar com a Criação, vendo o Senhor estampado nas obras da Criação.
Todo que tem a justiça de Cristo foi introduzido à santa presença de Deus, perdida na queda, plenamente capaz de se relacionar com o invisível originador da própria existência. A justiça comportamental, fruto da verdadeira e transformadora fé, é o requisito da verdadeira vida, que é relacional. Notemos como que a solidão, o desejo de fazer as coisas sozinho, guardam em si o gérmen do pecado, da autonomia, da separação que significa morte. Relacionar-se devidamente confunde-se com a própria vida, a começar do santo relacionamento com Deus. É no ambiente da justiça e da santidade que devemos estabelecer relacionamentos com tudo e com todos. É assim que antecipamos a glória futura do mundo pós-ressurreição para o tempo presente. Tenha um excelente dia na presença do Senhor (Rev. Jair de Almeida Junior).

Endereço

Rua Pascal, 1165
Campo Belo
04616-004

Notificações

Seja o primeiro recebendo as novidades e nos deixe lhe enviar um e-mail quando Centro de Missões JMC posta notícias e promoções. Seu endereço de e-mail não será usado com qualquer outro objetivo, e pode cancelar a inscrição em qualquer momento.

Compartilhar