29/01/2025
Uma receita de vida
“Por isso, não desanimamos; pelo contrário, mesmo que o nosso homem exterior se corrompa, contudo, o nosso homem interior se renova de dia em dia. Porque a nossa leve e momentânea tribulação produz para nós eterno peso de glória, acima de toda comparação, não atentando nós nas coisas que se veem, mas nas que se não veem; porque as que se veem são temporais, e as que se não veem são eternas” (2 Co 4.16-18).
É curioso como nosso ânimo está associado à satisfação de nossas vontades. Se algo ocorre que seja contrário àquilo que queremos, logo perdemos a vontade de “viver”. É interessante que a palavra “desânimo” significa literalmente aquilo que é contrário ao “ânimo”. O termo anima em latim significa “alma”. Desânimo é aquilo que reconhecemos contrário à nossa alma, isto é, à vida conforme julgamos, queremos ou desejamos, uma espécie de barreira para o que pretendemos viver. Colocando isso de outra forma, o desânimo é um apagamento da alma, algo que leva à letargia e à passividade.
Paulo diz no texto epigrafado que “por isso” não desanimamos. O apóstolo estava falando da glória da ressurreição: “por isso”, não desanimamos. Ainda que nosso homem exterior se corrompa, nosso corpo, nosso homem interior, ou seja, nossa alma, se renova a cada dia. A certeza da ressurreição é aquilo que traz a nós as forças para viver um dia por vez. É curioso como o pecado tem o poder de desfocar o principal e centralizar o secundário. Jesus veio para morrer, ressuscitar, para nos devolver a habitação do Espírito Santo.
O apóstolo Paulo, para mostrar a centralidade da ressurreição à fé cristã, diz: se Cristo não ressuscitou é vã a nossa fé, é vã a nossa pregação e somos os mais infelizes de todos os homens. É como se dissesse que, se tirarmos a ressurreição do cristianismo, sobra apenas a tristeza da presente vida que antecipa a condenação. A ressurreição final, física, corporal, de todos os eleitos, é a salvação! No entanto, aparentemente o chamado crente atual diz crer na ressurreição de Cristo, mas se esquece de que Jesus ressuscitou para que ele pudesse ressuscitar também, e que, apenas isso, é salvação, apenas isso é o evangelho de Cristo. O foco na ressurreição de Cristo parece ser somente o destaque conveniente do Jesus Todo-Poderoso para realizar aquilo que o homem deseja.
Dizendo isso de outra maneira, olha-se para a ressurreição de Jesus como a comprovação de que ele é o Filho de Deus, assim capaz de fazer tudo o que eu quero. Não se adora a Deus pelo fato de que Jesus ressuscitou e eu também ressuscitarei, mas por Jesus ter ressuscitado e, por isso, poder me dar o que eu quero para essa terra. Quer-se manipular o poder do Senhor segundo as intenções humanas e terrenais. Por isso que os sofrimentos são tão importantes para nós, o tema que segue a argumentação paulina no texto epigrafado. Na vida do ímpio, geralmente, o sofrimento apenas intensifica sua revolta contra o Criador, todavia, na vida do crente, expande seu conhecimento de Deus, aufere seus valores, corrige qualquer desvio, o aproxima de Cristo.
Um efeito que perpassa todas essas aplicações é mostrar o peso inigualável da glória. Os sofrimentos dessa vida têm o papel importantíssimo de comprovar para o crente que seu objetivo jamais poderá ser a presente vida. A impressão que se dá, uma vez que a atual geração de crentes praticamente se esqueceu de que há ressurreição final e, por isso, se apega exageradamente a esta terra, é que se Deus apenas nos desse imortalidade neste mundo já seria maravilhoso, uma simples fuga da morte física. Não precisamos morrer e ressuscitar!
O crente parece não compreender que esse mundo é miserável, amaldiçoado pelo pecado, cheio de sofrimentos, maldades, traições, incompreensões. É aqui que você quer passar a eternidade? Eu não! De jeito nenhum! A glória me espera! Essa vida não vale os nossos melhores esforços. Por isso, temos a obrigação de buscar em primeiro lugar o reino de Deus e a sua justiça. Esse é o motivo de nossa existência, a única razão para viver. Assim, os sofrimentos servem para que nos decepcionemos cada vez mais com a presente existência e almejemos a eternidade, a ressurreição, a vida na Criação restaurada na comunhão com o Cristo encarnado e todos os eleitos, com todas as nossas forças. Aquilo que mais quero é que chegue logo o momento em que não vou mais pecar.
Todo crente já teve o estranho sentimento de querer fugir de si mesmo, por odiar o pecado, por não querer ser quem ainda é: um pecador. É mais do que lamento, verdadeira ojeriza, nojo. Já imaginou o que é uma vida verdadeira, não isso que temos aqui, esse morrendo, essa morte esticada, quando vamos morrendo aos poucos. A verdadeira vida não apenas exilará todo sofrimento, dor, dificuldade, mas também, fará com que você não tenha qualquer cobiça. Experimentaremos intensamente Deus em nós, nossas palavras serão santas, planejaremos naturalmente todas as coisas da maneira que glorifique ao Criador.
Será o momento quando a dor e o sofrimento serão simples memórias de uma existência maldita que ficou definitivamente para trás, registros mentais que, ao invés de nos trazer tristeza, serão motivo de intensa gratidão pelo contraste com a glória que já estaremos vivendo, razão de nosso louvor e adoração eternos a Deus e a Cristo. É para isso que temos que olhar, diz o apóstolo Paulo, apenas para isso. Os problemas e o sofrimento não devem cativar nossa visão, apenas nos lembrar da realidade maldita da presente existência, verdadeiro motor para que não nos dediquemos a ela, mas sim ao reino de Deus. Nossos olhos devem estar cravados na glória, antevendo e antecipando por fé aquilo que esperamos e que está por vir. Pela fé podemos tornar substância aquilo que ainda é uma promessa.
Desapega! Liberte-se da presente existência, do pecado, da vida meramente material! Busque e agarre-se aos valores espirituais, eternos. Dê graças a Deus porque essa presente existência passa, já está passando, e a glória nos espera. Não espere! Antecipa-a por fé, vivendo o novo homem que já foi implantado em você. Antecipe a ressurreição o máximo que puder! Diga um sonoro NÃO para essa existência e anteveja a ressurreição a cada momento, antecipe essa realidade sobrepondo-a à presente existência, experimentando-a já por fé. Haverá alegria, paz, tranquilidade. Dores e dificuldade farão com que você, ao invés de desaminar, queira e busque ainda mais a vida de ressurreto. Essa é a receita da verdadeira vida. Tenha um excelente dia na presença do Ressuscitado (Rev. Jair de Almeida Junior).