11/01/2026
O cipó da ayahuasca não está oficialmente em extinção no Brasil. Repetir isso sem critério pode parecer um alerta ambiental, o que também não é de total descarte porque estamos em meio a uma crise climática sem precedentes no geral. Porém, o Banisteriopsis caapi não consta em listas oficiais de espécies ameaçadas. O que existe é outra coisa, muito complexa e séria.
Existe pressão localizada sobre o cipó em determinadas regiões da Amazônia. Essa pressão é resultado direto do desmatamento, da expansão urbana, da extração predatória e do crescimento acelerado do uso ritual, terapêutico e comercial da ayahuasca fora de seus contextos tradicionais. Em áreas de fácil acesso, o cipó rareia, como um agente da Embrapa me contou. As plantações estão cada vez mais distantes. Mas isso, AINDA, não é extinção da espécie, é colapso de manejo. No Acre já há novas diretrizes de manejo para evitar a extração predatória. Mas tudo muito incipiente ainda.
E a diferença importa. Falar em extinção desloca o foco do problema real. O problema agora não é a planta desaparecer, é a forma como nos relacionamos com ela. É a lógica extrativista aplicada a uma biocultura que exige tempo, cuidado, território, transmissão de conhecimento e responsabilidade coletiva.
Historicamente, povos indígenas e comunidades tradicionais sempre manejaram o cipó com critérios claros. Plantio, rebrota, tempo de corte, respeito ao ciclo da floresta. O desequilíbrio começa quando a demanda cresce mais rápido do que a capacidade de regeneração e quando o consumo se desconecta do território e da ética do cuidado.
Hoje, muitas comunidades, igrejas e grupos sérios já cultivam seus próprios cipós. Essa é a resposta mais concreta e responsável, como orienta o Conad.
Defender a ayahuasca não é repetir frases de efeito. É sustentar debates difíceis sobre uso, expansão, mercado, espiritualidade, colonialismo e responsabilidade ambiental. É entender que sustentabilidade não é discurso bonito.
O cipó precisa de gente informada, comprometida e disposta a assumir as consequências das suas escolhas. Assim como toda a biodiversidade. Quem precisa ser salvo não é o cipó, somos nós da nossa ignorância.