14/08/2026
A LEI QUE DIVIDE OPNIÕES: LÍDERES ECLESIÁSTICOS REAGEM À EXIGÊNCIA DE FORMAÇÃO PARA PASTORES EM ANGOLA
A aprovação, na generalidade, da Proposta de Lei sobre a Liberdade de Religião e de Culto gerou um debate profundo no seio das confissões religiosas em Angola. A exigência de que os líderes religiosos tenham, no mínimo, o ensino médio completo e formação teológica adequada é vista por muitos como um passo necessário para moralizar o sector, mas também como uma medida que pode marginalizar líderes comunitários de longa data.
📢 O QUE DIZEM OS LÍDERES DAS IGREJAS
As reações são mistas, revelando uma clivagem entre as igrejas estruturadas e as comunidades mais periféricas.
Apoio à Regulação e Combate às "Seitas": O Conselho das Igrejas Cristãs em Angola (CICA) , através do seu secretário-geral, reverendo Vladimir Agostinho, considera que a proposta trará "boa qualidade de ensino sobre a Bíblia" e defende que o Executivo deve "aprimorar a fiscalização do surgimento das igrejas". A Ordem dos Pastores de Angola, na voz do seu presidente, Pedro Boaventura, manifesta preocupação com igrejas que "alugam ou trespassem o seu documento de reconhecimento" e com o envolvimento em "branqueamento de capitais", defendendo que a "futura Lei tem de separar o que é uma igreja e uma confeição religiosa".
O Alerta para a Exclusão dos Pastores das Comunidades: Por outro lado, o reverendo António Mussaqui, da Igreja Presbiteriana em Angola, expressa a sua apreensão. Embora compreenda "essa obrigação de formação", ele lembra que "os pastores com nível médio e básico também servem para transmitir a palavra de Deus nas comunidades". Mussaqui destaca que, hoje, "boa parte dos pastores nas povoações não têm o ensino médio, mas estão ao serviço da igreja", um alerta para o impacto social da medida nas zonas rurais.
⚖️ A VISÃO DOS ESPECIALISTAS E DA SOCIEDADE
O debate sobre a lei também mobilizou juristas e analistas sociais, que buscam equilibrar a necessária regulação com o respeito pela liberdade religiosa.
O jurista José Rodrigues é um dos que defende a urgência da lei, afirmando que "o desmoronamento da sociedade é consequência de algumas igrejas e confissões religiosas envolvidas em tráfico de crianças e abusos se***is". Ele critica duramente a facilidade com que um cidadão comum "que até ontem, era babeiro no município do Cazenga, e amanhã aparece no bairro Palanca como um líder religioso".
Por seu turno, o professor de Direito Eclesiástico, Celestino Nobre, defende que o "Estado deve regular o mínimo necessário para garantir a convivência entre os cidadãos", mas adverte que "não é admissível que um pastor, no exercício da sua liberdade religiosa, se aproveite de pessoas psicologicamente frágeis para obter ganhos económicos". O sociólogo Albino Pakisi também considera a proposta uma resposta a "uma exigência que a população angolana e também muitos intelectuais pediam ao Governo".
🤔 O GRANDE DESAFIO: FORMAÇÃO SEM DESCRIMINAÇÃO
O ponto central do debate reside na aplicação prática da lei. Enquanto o Governo, na voz do ministro da Cultura, Filipe Zau, justifica a medida para "garantir mais estrutura no relacionamento entre o Estado e as confissões religiosas", as igrejas temem a criação de um "filtro" que pode excluir líderes legítimos.
A proposta, que agora segue para as Comissões de Trabalho Especializadas, terá de encontrar um equilíbrio delicado: regular para proteger a sociedade dos "falsos profetas" e das seitas, sem, contudo, cercear a liberdade de culto e desconsiderar a realidade socioeconómica de muitos líderes que, apesar da falta de formação académica formal, são pilares das suas comunidades. O impacto para as igrejas será, inevitavelmente, uma reorganização interna para se adequarem às novas regras, sob pena de verem a sua legalidade ameaçada num Estado que se quer laico, mas que assume o papel de regulador da fé.
JNE-Informamos com verdade e credibilidade